Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Sexta-feira, 6 de Setembro de 2013
Teoria Marxista das Crises

 

 

 

 

A crise atual do capitalismo enquadra-se perfeitamente na teoria marxista das crises que os economistas formatados com os manuais de macroeconomia americanos nem consideravam como merecedora da mais pequena atenção.

Para Karl Marx, a crise não é um simples desajustamento, nem o fruto de uma má intervenção reguladora do Estado, mas sim o reflexo das contradições principais do modo de produção capitalista, tidas por muita gente como ultrapassadas pela economia social de mercado.

 Agora, com o desmantelamento do social no mercado capitalista há como que um regresso ao século XIX, à época liberal quando nasceu um estado social ténue apenas na Alemanha com um sistema de reformas proveitoso porque as pessoas morriam maioritariamente antes de auferirem qualquer pensão e quando isso não acontecia não era para muitos anos.

 

Marx deduziu da sua fórmula da taxa de lucro a famosa “Lei da Baixa Tendencial da Taxa de Lucro na qual se observa que a dinâmica capitalista está ameaçada quando a rendibilidade do capital não é suficiente para levar os empresários a investir e, portanto, a produzir e criar empregos

.

Para Marx a Taxa de lucro é Tx  = mv (mais valia) a dividir pela soma de c (capital) + v (custo do trabalho), sendo, por sua vez, igual à taxa de mais valia a dividir pela composição orgânica do capital.

                        

 

Esta fórmula simplificada pode dar uma ideia errada das ideias de Karl Marx baseadas na tese de que o trabalho humano é que proporciona a taxa de mais valia e inerentemente a taxa de lucro. Pode não ser verdade num único fabrico. Imaginemos uma fábrica de bolachas com uma máquina automática que as produz a partir dos ingredientes lá colocados com o auxílio de pessoal e equipamentos automatizados de abertura de sacos e transporte e depois com máquina de embalar, fechar e colocar em caixas de cartão. Sendo fixo o custo do capital, as máquinas, há muito pouco pessoal de onde extrair lucro. Mas, sucede que cada máquina e cada peça é produzida por trabalhadores altamente especializados e bem pagos, sendo as máquinas vendidas a preços muito elevados, pelo que a taxa de mais valia pode ser superior numa zona de altos salários e mais baixa numa de baixos salários se a concorrência for muita e a margem de lucro reduzida ou os baixos salários não forem de molde a proporcionarem a existência de um amplo mercado que permita rentabilizar o capital fixo (máquina) e o capital variável (custo do trabalho).

 

A fórmula resulta de dividir tudo pelo custo do trabalho, o elemento fundamental da nossa civilização que não sendo de escravatura a 100% como todas as civilizações anteriores pretende sê-lo até um pouco acima do limite de uma reprodução da força do trabalho menos custosa hoje devido à baixa natalidade e ao trabalho de dois cônjuges.

 

 A ascensão de parte do proletariado à condição de pequenas classes médias não resultaram da generosidade dos detentores do capital, mas sim da libertação do proletariado relativamente às crenças religiosas com a diminuição da natalidade e com os dois cônjuges a trabalhar. Em termos sociológicos, dois explorados sem prole acabam por ter um nível de vida mais próximo das classes médias. Os capitalistas chegaram a acreditar que um certo poder de compra das massas populares resultava da sua generosidade salarial ou investimento em capital variável quando nunca foi de facto. Por isso, hoje o Estado, dominado por uma visão errada do capital, acha-se no direito de retirar aquilo que nunca deu nem redistribuiu verdadeiramente, dado que a sociedade capitalista tende para um pirâmide cada vez pontiaguda por via do cartelismo instalado no Mundo da Globalização e, em particular, da União Europeia.

 

Pela formulação de Marx mv, c e v dependem do tempo. Por isso, a fração que exprime a taxa de lucro é, portanto, constituída por um numerador que aumenta muito mais lentamente que o denominador, sendo no limite nula.

 

Marx viu que o aumento da composição orgânica do capital é acicatado pela concorrência e pela conquista dos mercados de massa, pelo que se vai acumulando sem cessar até pelo aparecimento de novos maquinismos e processos de trabalhar que torna irrelevante o capital variável ou custo do trabalho e, como tal, o crescimento da taxa de lucro.

Hoje, ter-se-ia que ver o custo produtividade do trabalho no fabrico dos equipamentos e o custo do trabalhador utilizador do mesmo. As equações de Marx seriam hoje séries desde o primeiro trabalho de extração do minério ou produção energética até qualquer produto de utilização final sem estar sujeito a qualquer utilização laboral.

Marx via mais limitação no custo do trabalho variável porque no seu tempo o colonialismo só existia para a extração de algumas matérias naturais e não se falava no colonialismo indireto que é a exploração do trabalho barato da China, Vietname, Índia,  Bangla Desh, etc.. O custo Vv desses países nada tem a ver com o mesmo custo na Europa. Daí que o capital europeu prefira o desemprego em massa enquanto os dois custos não se aproximarem, pelo menos, no sul europeu. De resto, um trabalhador chinês de 20 anos que faz parte dos 350 milhões de chineses errantes pode ganhar já um a dois euros à hora a fabricar camisas, ou antes, a pregar botões. Este custo de capital variável já é redutor da taxa de mais valia e consequentemente da taxa de lucro relativamente a salários praticados há poucos anos atrás. Daí a deslocalização de muitas fábricas da China para o Bangla Desh em que a hora de trabalho é paga em cêntimos.

Nos países como Portugal que perderam os seus fabricantes, as elites só encontram uma saída na redução brutal do custo do trabalho que começou com políticas tendentes a uma redução futura do custo social do trabalho.

Só que aí vamos ao encontra de outra lei de Karl Marx que é a da Sobreacumulação, a estudar num próximo texto

 

Quando da queda do comunismo soviético e da transformação do comunismo chinês em capitalismo pensei que já não serviam os textos de Karl Marx e os apontamentos que tirei do Mestre Menchikov num simpósio-curso tirado no Instituto de Economia Mundial da Universidade Moscovo, ainda nos tempos de Brejnev. Afinal vejo que tanto as teorias de Marx como as dos ciclos económicos de Menchokov estão plenamente válidas e nem necessitam

 

 

Para Marx, a Sobreacumulação designa uma situação económica de valorização do capital em que a massa crescente de capitais já não encontra remuneração suficiente para continuar a acumulação por terem deixado de ser remunerados a uma taxa de lucro que assegure o ritmo de crescimento habitual ou anterior.

A Sobreacumulação é, pois, a manifestação da baixa tendencial da taxa de lucro já aqui descrita num dado momento. Os ganhos de produtividade, a intervenção do Estado, a subida de produtividade, etc. não permitem em período de Sobreacumulação que se manifeste oposição à baixa tendencial da taxa de lucro. A Sobreacumulação conduz à crise visto que resulta do principal estímulo do capitalismo, o lucro tende a esbater-se.

Geralmente, a Sobreacumulação desenvolve-se nos períodos de expansão, mas permanece escondida até ao aparecimento de sinais de crise manifestos. Acrescento que não devemos esquecer que a teoria das crises não se aplica hoje a um só país como Portugal, mas antes a um espaço cada vez mais globalizado a abranger quase todo o Mundo com aspetos geograficamente diversificados na aparência e no tempo. Nos tempos de Marx as principais nações europeias tinham as suas fronteiras e os seus impérios no ultramar ou na Europa mesmo, Impérios alemão, russo e austro-húngaro que não salvavam qualquer nação da crise, davam é um aspeto mais nítido numas regiões e menos noutras.

Assim, da Sobreacumulação surge a sobreprodução que é o sinal por excelência das crises modernas, amplificando o efeito das baixas taxas de lucro. As mercadorias que já não podem ser vendidas ou os salários demasiado baixos que não as permitem adquirir fazem eclodir a crise.

Para Karl Marx, a sobreprodução exprime o resultado de duas características contraditórias do sistema capitalista:

 

1. O caráter social da produção

Analisado por Marx e Engels, o caráter social da produção é o fruto de uma tendência inerente ao capitalismo: a procura do lucro por cada empresário incita a melhorar as técnicas e a lutar pela conquista dos mercados. A tendência da produção é caminhar para o gigantismo, a oferta é impulsionada para a frente como fazem os grandes construtores de automóveis que os fabricam aos moldes de caixas de construção ou legos. As mesmas peças fazem carros grandes para os ricos, médios para as classes médias e pequenos para os pobres ou classes médias baixas. A empresa que não fabricar em vários países do Mundo uns 5 milhões de viaturas diversas está condenada ao fracasso ou a ser absorvida por um império do setor como a VW que adquiriu a Porsche, a Lamborgini, a Audi, a Skoda, a Seat, a Scania Vabis, a Man e mais não sei quantas fábricas de peças, incluindo uma de salsichas para fornecer a todas as cantinas das suas fábricas em caixas etiquetadas com a frase “peça original VW”.

 

2. O caráter privado dos meios de produção

Para maximizar o lucro, é necessário que cada grupo capitalista aumente a sua taxa de mais-valia. Procura, por isso, minimizar os seus custos salariais para vencer a concorrência, o que determina a limitação da procura solvável. O curioso é que o grande capitalismo monopolista mundial encontrou em políticos chineses de inspiração marxista e maoista a maneira de concretizar este desiderato para destruir a pequena e média indústria europeia, incluindo aqui com uma violência brutal a portuguesa.

 

A combinação contraditória destas duas características provoca tendencialmente uma situação em que os trabalhadores não podem comprar os bens oferecidos em quantidade crescente por falta de rendimentos suficientes. Sucede isto em Portugal e na China os trabalhadores apenas podem adquirir cerca de 15% daquilo que produzem e que são os bens de pior qualidade.

A crise gera falências e desemprego, mas também a desvalorização do capital. Veja-se como as ações do BCP-Millenium caíram de mais de 5 euros para 1 cêntimo hoje. Apenas alguns monopólios continuam a valer, principalmente se estiverem concentrados em bens imprescindíveis como água, gás, eletricidade, etc.. O capital rendível sai vitorioso e permite novos meios de acumulação capitalista como é o caso do capital estatal chinês que adquiriu a produção e distribuição de eletricidade em Portugal.

 

Marx previu o futuro e escreveu que “a explicação geral de todas as crises não são idênticas”. Por isso é necessário estudar cada situação concreta e aí os elementos concretos que atuam nas crises. Não são iguais as crises de 1929, 1974 e 2008 …… Cada crise tem os seus ritmos, as suas amplitudes, os seus desencandeamentos, o seu processo e as suas formas de solução.

 

Seja como for, a crise é um elemento essencial ao capitalismo que vai buscar à desvalorização do capital as condições para uma acumulação alargada e entenda-se aqui tanto o capital fixo como o variável (custo do trabalho) para cujo embaratecimento, a crise social de empobrecimento é essencial. Veja-se o caso português com salários a 310 euros. Curiosamente, a crise social surge da crise económica e não da crise política. Em Maio de 1968, os tumultos políticos não geraram uma crise económica e nem sequer uma verdadeira crise social, dai que tenha tudo regressado ao ponto de partido mais reforma menos reforma. A Europa então estava protegida por pautas aduaneiras e contingentações, pelo que os sindicatos conseguiram aumentos salariais que promoveram o crescimento económico. Na crise atual não vemos alterações políticas, mas antes uma verdadeira crise social que tende a bloquear as sociedades através da paralisia de quem tem o dever de pensar. Os intelectuais despareceram, ficaram apenas os políticos de meia tigela, incapazes de enfrentarem os monopólios, sejam eles de que origem forem e estatais ou privados.

 

 

 



publicado por DD às 18:59
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