Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Sábado, 7 de Setembro de 2013
Os Jovens de Sandálias estão a derrotar Assad

 

 

 

A ideia de uma guerra prefabricada pelos EUA na Síria é uma monstruosa mentira demonstrada pela sua cronologia. O aproveitamento posterior é outra coisa. Uma vez rebentado o conflito, a parte rebelde procura apoios externos como acontece em todos os conflitos armados.

A Síria viveu mais de meio século em ditadura dinástica sem conflitualidade interna. Viveu-se a paz dos cemitérios. Há muitas décadas atrás uma tentativa de levantamento de rancho numa academia militar levou ao assassinato de todos os cadetes por ordem do pai do atual presidente Bashar el-Assad e não houve contemplações para os filhos dos principais generais do regime que estudavam nessa academia militar. E não foram os EUA que deram ordens para matar os cadetes.

No do 4 de Fevereiro de 2011, os opositores à ditadura dinástica influenciados pelas revoltas nas Tunísia e no Egipto declararam um “dia de raiva” através das redes sociais que não produziu mais que umas pequenas demonstrações sem significado.

Contudo, a partir do início de Março as manifestações e revoltas começaram a multiplicar-se em vários locais da Síria e na cidade de Daraa no sul da Síria juntaram-se alguns 10 mil jovens a protestar contra o regime político, levando a polícia a disparar a matar.

No dia 22 de Abril de 2011 registou-se outro dia sangrento com diversas manifestações e a morte de 72 jovens oposicionistas que começaram a atirar pedras à polícia. Na cidade de Daraa o confronto já foi com o exército que entrou a matar com tanques e metralhadoras. É óbvio que os jovens protestantes sírios não estavam a ser telecomandados pelos computadores da NSA americana ou outra organização monstruosa e nem estava sob um determinado comando interno. Obedeciam ao instinto que todas, mas todas as massas populares, sentem contra as ditaduras, mesmo que durem 50 a 100 anos. A China, mais tarde ou mais cedo, vai conhecer uma revolta do tipo Praça Tien Amen alargada a todo o país e depois digam que é telecomandada pelos EUA. Pode ser daqui a um ano como daqui a 10 ou 20 anos, mas acontecerá se o regime não se democratizar pacificamente.

Em Maio surgem em Daraa e outras pequenas localidades sírias as primeiras armas invencíveis em mais de meio século de história militar. O combatente de sandálias armado com Kalashnikovs e RPG-7 obtidas em ousados assaltos a quartéis e esquadras de polícia e provenientes de um certo número de desertores sunitas do exército do regime. Desde que das massas saiam jovens civis e militares armados sumariamente, qualquer regime político tem os dias contados.

Perante a reação sangrenta da ditadura dinástica, a União Europeia apela à calma e à abertura do regime, decretando ao mesmo sanções no que respeita ao fornecimento de armas e munições.

A 19 de Agosto de 2011, as tropas sírias entram na cidade de Dschisr al-Schughur já em mãos rebeldes e travam violentos combates com perdas abundantes de ambos os lados. Poucos dias antes tinham começado a fugir da Síria milhares de pessoas, porque a revolta alastrava-se a quase todas as cidades e disparavam-se os primeiros tiros em Damasco.

Nesse dia, o presidente Obama pediu o fim dos massacres e a deposição do ditador dinástico enquanto o Conselho de Segurança da ONU se mostrava incapaz de tomar uma decisão.

Até Dezembro de 2011 continuaram os protestos e pequenos combates, tendo então a Liga Árabe pedido o fim dos combates e iniciado um processo de apoio militar aos rebeldes, cada vez mais armados com armas e munições ligeiras e já na posse de algumas zonas fronteiriças com a Turquia.

Os tanques e os aviões sírios não tinham conseguido derrotar os jovens de sandálias de plástico chinesas e cada vez mais liderados por oficiais desertores e estudantes universitários. Assad seria mais um ditador a experimentar que não se pode derrotar um jovem de 20 anos com sandália e uma Kalashnikov. Esse tipo de combatente derrotou os franceses na Argélia e os EUA no Vietname, no Cambodja, no Laos e antes já tinha derrotado os holandeses na Indonésia e pôs em cheque os portugueses no seu império colonial, derrotou a URSS no Afeganistão e está a derrotar os EUA e aliados no mesmo teatro de operações.

Os poderosos tanques israelitas já tinham sido derrotados pelos combatentes de Hezbolah no sul do Líbano. Isto nada tem a ver com objetivos ideológicos. Qualquer povo em revolta derrota o mais poderoso exército desde que este não o possa massacrar num gigantesco holocausto e aí é que entram em ação as influências de fora. O Mundo não quer assistir a holocaustos, salvo quando é apanhado desprevenido no interior africano como aconteceu no Burundi e na chamada região dos grandes lagos.

A 4 de Fevereiro de 2012, o exército de Bashar el-Assad lança uma gigantesca ofensiva contra a cidade de Homs que estava quase toda na mão dos rebeldes. Os bombardeamentos aéreos causaram mais de 200 mortos e, como tal, mobilizaram milhares de novos combatentes para a causa rebelde. A função da aviação moderna é bombardear e colocar no terreno mais inimigos armados de sandálias, facas, granadas de mão e Kalshnikovs.

A 27 de Maio, as forças do ditador dinástico concretizam outro grande massacre, desta vez na cidade de Hula, utilizando tanques, artilharia pesada e aviação. Muita gente morre, mas o valente com as suas sandálias chinesas aguenta tudo, abriga-se, esgueira-se junto aos tanques para disparar nos respetivos visores. Nem a arma atómica consegue derrotar os jovens de sandálias.

A ONU calcula que terão morrido mais de 10 mil pessoas, mas os rebeldes podem ter atingido os 100 mil valentes que apanham alguns soldados depois de um massacre e os fuzilam de imediato.

 A 23 de Junho, a Força Aérea abate um avião turco, o que vem legitimar o apoio em armas ligeiras por parte da Turquia aos rebeldes sírios. Apesar de que estes utilizam cada vez mais o fabuloso arsenal do regime que lhe vai caindo nas mãos aos poucos.

A 18 de Julho a ousadia dos rebeldes de sandálias ultrapassa todos os limites e conseguem atacar o ministério da Defesa e matar o ministro mais uma série de comandantes, sendo que o ministro é familiar do ditador. Já há muito que Assad enviara a esposa e filhos para o estrangeiro.

Desde uma data indefinida que grande parte da segunda maior cidade da Síria, Allepo, estava na mão dos rebeldes. No dia 30 de Julho, o exército do ditador inicia uma ofensiva contra a cidade, tratando-a como se fosse território inimigo a disparar contra todos os prédios, ruas e praças públicas. Perdem muitos tanques porque os rebeldes disparam do cimo dos telhados as suas velhas RPG-7 soviéticas contra a parte superior da torre que é também a zona mais frágil de um blindado de combate. A guarnição não consegue ver nada e é apanhada com garrafas incendiárias, granadas de RPG-7 e minas anti-tanque. A aviação tentar bombardear os rebeldes, mas ou mata civis ou mata as suas próprias forças, pois não há uma linha de separação entre os jovens de sandálias e os soldados que, amedrontados, não se atrevem a sair dos seus blindados de transporte de infantaria e quando saem são logo liquidados. As mulheres e crianças fogem da cidade, mas ficam os jovens heróis imbatíveis.

No estrangeiro, a oposição organiza-se, mas é no terreno que as coisas se decidem e Assad no início de 2013 fala ao país sem qualquer resultado. Nada faz parar aquelas mortíferas sandálias a calçarem valentes combatentes. Uns são Jihadistas, outros do recém formado Exército de Libertação da Síria e outros ainda são curdos à procura de uma pátria.

Em Janeiro de 2013, a NATO coloca na fronteira turca mísseis anti-aéreos e anti-mísseis Patriot que afastam os Migs 23, 25 e 29 e os LA sírios das zonas fronteiriças, permitindo o acesso de medicamentos, munições e mais sandálias para os rebeldes. Os refugiado atingem já quase meio milhão de pessoas.

Ao longo do inverno, apesar do frio, os rebeldes vão conquistando terreno e, principalmente, empurram as forças do regime para as suas bases aéreas principais. Quatro bases são conquistadas, principalmente localizadas perto das fronteira com a Turquia. Muitos pilotos vão desertando, incluindo coronéis que não querem ser acusados de crimes contra a Humanidade depois da derrota do regime dinástico.

Desesperado, em Junho, o ditador diz que as suas tropas encontraram nas imediações de Damasco um depósito de gás de guerra dos rebeldes. Obviamente que os eternos vencedores de sandálias não necessitam de gás ou aerossol mortífero nem possuem meios de transporte ou de preparação e lançamento de ataques. Basta-lhes as sandálias e as Kalashnikovs. Recordemos que no Afeganistão, as mesmas armas nos pés e mãos dos talibans estão a derrotar as poderosas forças americanas e de mais de uma dúzia de países.

O porquê da notícia dada por Assado veio a revelar-se a 21 de Agosto quando foi lançado um ataque com aerossol sarin por cima da colina Kassai em vias de ser conquistada pelos homens das sandálias. O Exército dinástico completamente desmoralizado combate à civil nos seus tanques e blindados de infantaria para em caso de derrota se refugiarem o mais rapidamente possível sem serem abatidos. Milhares de civis e crianças morrem, enquanto o pessoal das sandálias vai resistindo porque a tática é dispersar-se rapidamente no terreno, abrigar-se e proteger as vias respiratórios com trapos embebidos em álcool ou simplesmente água. A roupa árabe é particularmente protetora, mesmo no calor.

Digam o que quiserem, o povo em armas vence sempre quando a comunidade internacional não permite um massacre químico ou nuclear ou quando os valentes combatentes em sandálias estão misturados no meio do próprio inimigo, o que dificulta o massacre seletivo.

As sandálias vencem sempre pela agilidade dos que as usam qualquer que seja a sua ideologia, mas o seu êxito é tanto mais garantido quando combatem poderes com prazo de validade acabado e depois erguem outros poderes também perenes como tudo na vida.

 



publicado por DD às 23:56
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