Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Sexta-feira, 9 de Maio de 2008
Os Novos Submarinos

U-209 Ven.bmp Um U-209 da Marinha Venezuelana

 

         Os dois novos submarinos encomendados pelo governo Durão Barroso/Portas custam com armamento e os indispensáveis sobresselentes mais de 900 milhões de euros (180 milhões de contos) ou 0,7% do PIB, para serem entregues em 209 e 210 e a pagar pelos governos que estarão no poder depois de 2007.

         Até agora não foi dado a conhecer aos contribuintes portugueses a forma de pagamento de tão importante verba. Nem se sabe qual o montante da sinalização e se esta é financiada por algum empréstimo, nem quais as prestações apagar até à data de entrega e depois? Portas não responde aos requerimentos dos deputados do PS para esclarecer a AR nem publicou um "Livro Branco" sobre a aquisição com esclarecimento dos pagamentos e das contrapartidas que diz ter conseguido. Os U-209 não são a última palavra em submarinos diesel eléctricos com células de combustível porque isso seriam os da classe U-212, mas são quase.

         A classe U-209 vem sendo construída há dezenas de anos, mas o modelo a fornecer à marinha portuguesa, o U-209 PN (Portuguese Navy) é tecnicamente muito diferente dos primeiros U-209, podendo carregar as baterias em submersão e assim navegar sem vir à superfície durante 15 dias. Deslocam 1400 toneladas em imersão e atingem a excelente velocidade de 21 nós submersos, podendo descer a 450 metros de profundidade, bem mais que os actuais 300 m dos "Albacora". As suas hélices de sete pás produzem um ruído ínfimo, sendo no todo unidades muito silenciosas e de difícil detecção por parte dos sonares inimigos.

       O que caracteriza a modernidade dos dois U-209PN são as suas células de combustível. Geradores de energia eléctrica sem peças móveis e ruídos, o que  representam uma revolução na motorização de submarinos e até de veículos de superfície, quase tão revolucionária como a perigosa energia nuclear. Fundamentalmente, as CC são conversores energéticos que transformam directamente a energia química em corrente contínua para alimentar as baterias, as quais, por sua vez, fazem funcionar um moderníssimo Motor de Íman Permanente. Além disso, são equipados com um motor diesel montado em suportes elásticos anti-vibrantes para o carregamento rápido das baterias, já que as CC não são suficientes.

        O princípio operativo das CC corresponde ao inverso da electrólise da água, ou seja, a reacção de moléculas de hidrogénio e de oxigénio num espaço seco limitado por eléctrodos com produção de energia eléctrica e libertação de água. A eficiência térmica das CC é de 70% pois funcionam independentemente do princípio de Carnot, isto é, do diferencial de temperatura. São, sem dúvida, uma excelente arma, desde que a Marinha disponha de grande quantidade peças sobresselentes e estejam equipada para fazer uma rápida substituição das mesmas para, em caso de necessidade, manter uma operacionalidade muito elevada, dado tratarem-se de apenas duas unidades. A sua manutenção terá de ser avançada no tempo com substituição de peças e componentes antes de atingirem o limiar do prazo de avarias e o casco deve ser rapidamente examinado no arsenal com ultra-sons e raios X para detectar qualquer possível anomalia muito antes de se fazer sentir. Isto é fundamental em submarinos e muito importante em caso de guerra.

         Resta saber é guerra contra quem?

        É evidente que nenhuma nação pode deixar de ter forças armadas, dado nunca se saber com o que se conta no futuro. Um submarino como o U209P pode servir para bloquear algum porto estrangeiro de um país que resolva atentar contra interesses portugueses, nomeadamente pela prisão de muitos cidadãos lusos, ou simplesmente ameaçar fazê-lo.  É segredo, mas toda a gente pensa em países africanos, que possuem alguns aviões, pelo que um submarino pode representar uma ameaça. Talvez, os dois U209P venham a ser a única arma verdadeiramente moderno que Portugal vai possuir, a única capaz de atingir no mar alguma potência inimiga.

       Portugal encomendou o seu primeiro submersível em 1910, mas já em 1889, o 1º Tenente João Augusto Fontes Pereira de Mello concebeu um submersível para a Armada portuguesa de 39 metros de comprimento e capaz de uma autonomia à superfície de 2.500 milhas. Chegou a construir um pré-protótipo sem motorização que mostrou capacidade para submergir e voltar à superfície. Nessa época, os submersíveis navegavam quase sempre à superfície, só submergindo para o ataque. Mesmo à superfícies eram de detecção muito difícil e apresentavam um alvo diminuto para as peças dos navios de superfície.

        O submarino "Fontes" acabou por nunca se tornar uma realidade porque as autoridades navais não quiseram arriscar numa construção nacional da qual poderia ter surgido uma indústria e hoje ser Portugal um construtor e exportador de submarinos. Então como hoje, a preferência foi sempre para a importação. Sem "riscos" nunca poderá haver engenharia e técnica nacional.

       O submersível, inventado por muitos inventores, foi logo adoptado como a arma dos "pobres", tanto em termos de poder naval como em termos de saídas livres para os mares do planeta como aconteceu com a Alemanha, sempre facilmente bloqueada pela poderosa marinha de guerra britânica. E a Batalha da Jutlândia na I. Guerra Mundial mostrou que a verdadeira guerra entre grandes esquadras tinha custos insuportáveis, mesmo para uma potências como a Alemanha do Kaiser e o Império Mundial Britânico..

        Desde a vinda do "Espadarte" em 1910, Portugal dispôs sempre de uma flotilha de submarinos. O "Espadarte" e os outros quatros submarinos entregues em 1914  foram construídos na Itália, em La Spezia. Posteriormente veio uma flotilha nos anos trinta de construção britânica, e outra, em segunda mão, também britânica, mas quase nova, após a guerra de 1945 e no fim década de sessenta e início da de setenta os actuais três de construção francesa da classe "Daphne". Foram quatro unidades, mas uma foi devolvida à França, por ordem do Conselho da Revolução, e depois vendida ao Paquistão.



publicado por DD às 21:11
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3 comentários:
De Ricardo Mendes a 9 de Maio de 2004 às 23:05
Excelentes artigos sobre os novos submarinos.
Acho notável a ideia de publicar um blog com intenções jornalísticas. Parabéns


De João Mello a 19 de Junho de 2008 às 23:10
No seu artigo refere o 1º Tenente José Augusto Fontes Pereira de Mello, no entanto o nome correcto é:

João... em vez de José...

Aproveito para lhe dar os parabéns pelo seu artigo que sublinha um dos grandes males nacionais, que é o de não valorizar a inteligência e capaciade do seu povo, preferindo não arriscar, ficando assim sempre na dependência do exteriror , e não nos iludamos, se não inovarmos não geramos riqueza, motor do desenvolvimento.

João Mello


De DD a 20 de Junho de 2008 às 09:38
Caro Sr. João Mello,

Obrigado pela correcção. Ou foi engano meu ou da fonte histórica. De qualquer modo vou corrigir.
Cumprimentos


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