Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Terça-feira, 25 de Março de 2008
Boas Notícias

 

52.258 foi o número de desempregados a menos inscritos nos Centros de Emprego no fim de Fevereiro deste ano relativamente ao mesmo dia do ano anterior e 1.095 o número da redução mensal entre o primeiro e o segundo mês deste ano.

 

            O desemprego diminuiu assim em 11,6% num ano, passando para um total de 398.579 pessoas ainda sem emprego. Mais de metade dos desempregados está nessa situação há menos de um ano e 4,5% dos mesmos procura o primeiro emprego.

            Nos Centros de Emprego estão inscritas 342.652 pessoas, o que é muito e corresponde a uns 7,5% do total de um pouco mais de 5 milhões de trabalhadores em actividade. É muito, mas não é dramático quando comparado com o que se passa nos restantes países da Europa e do Mundo.

            A redução do desemprego significa que, apesar do fecho de muitas empresas, outras mais abriram e aumentaram os seus efectivos. O Expresso Economia tem relatado semana após semana casos de empresas de êxito e empreendedores criativos que exportam

            Curiosamente, o sector do calçado que registou nos últimos anos o maior número de empresas a fecharem, quase todas estrangeiras, registou em 2007 o maior valor de exportações nos últimos 20 anos com o incrível número de 70 milhões de pares de sapatos vendidos ao exterior. Neste aspecto, Portugal foi o maior exportador de calçado da Europa e o único que conseguiu fazer frente à enorme concorrência do calçado oriundo de países como a China e Índia, cuja qualidade todos sabemos que é péssima. O crescimento das exportações portuguesas de calçado aumentou 9,2% em 2007, relativamente a 2006. Portugal exporta não só para os seus principais mercados europeus como também para a Arménia, Azerbeijão, Bolívia, Jamaica, Peru, Quénia, Rússia e Timor. São 118 os países que adquirem calçado português. E, para além do calçado, Portugal exporta para a China e outros países partes do mesmo como solas, etc. e até maquinaria para o fabrico de calçado, pois Portugal tem começado a fabricar máquinas de cortar a laser comandadas por computador, prensas de calçado, etc.

            Por último, uma pequena nota quanto à segurança policial. Portugal tem um agente da autoridade por cada 227 habitantes nas áreas de intervenção da PSP, enquanto a média da União Europeia é de um para 350 habitantes. Contando com a GNR, Portugal com quase 80 mil agentes de autoridade tem 130 profissionais de segurança por cada mil habitantes.

            O representante da Associação Sindical da Polícia negou esta verdade, mas não deu números e disse que as queixas demonstram que não é verdade que haja tantos polícias. Claro, o homem nada disse sobre número de queixas em Portugal e em qualquer país da União Europeia, pelo que as queixas nada nos dizem sobre o número de polícias.

            As recentes estatísticas europeias sobre o crime revelaram que Lisboa foi a segunda cidade europeia com menor número de homicídios registados em 2007, só ultrapassada pela cidade de La Valeta na Ilha de Malta em que não se verificou um só caso de morte provocadas.

            Enfim, na falta de casos muito violentos, o licenciado Pinto Monteiro, procurador da República, fala em violência na escola e a TSF dedica toda uma manhã a discutir o caso de um conflito entre uma aluna e uma professora por causa do telemóvel que a pedagoga lhe retirou, como se um caso num universo de 1,6 milhões de alunos do ensino não superior tivesse algum relevo estatístico e merecesse um programa de rádio. De resto, não se sabe ainda se houve agressão da aluna à professora, pois o vídeo que foi mostrado mostra a aluna a querer tirar o seu telemóvel das mãos da professora.

            O Pinto Monteiro ofende o Povo Português e a sua juventude ao afirmar que há gangs nas escolas. O homem é visivelmente um esquizofrénico com a mania da perseguição por parte da juventude portuguesa. Estas esquizofrenias acontecessem nalguns profissionais da justiça que tendem a ver nos casos que lhes surgem como um problema de toda a população, neste caso a escolar.

            Em 2007 terão sido agredidos ou ofendidos 185 professores, o que representou uma descida de quase 10% relativamente a 2006. Isto num Universo de 147.000 professores. Foram pois vítimas 0,12% dos professores em menos de 7% de escolas do País. É mau que isso aconteça, mas percentualmente não é significativo. Os procurador tem a obrigação de ter uma certa “literacia” em termos numéricos e sabe que o programa “Escola Segura” da PSP tem funcionado razoavelmente e, bem assim, os sistemas de vídeo-vigilância instalados nas escolas problemáticas, existindo ainda um professor coordenador da segurança na escola e que é responsável pela ligação da escola às autoridades policiais, nomeadamente na participação de ilícitos verificados nas escolas. Mais de 80% dos ilícitos comunicados às autoridades foram registados no exterior das escolas e não no seu anterior, tendo a maior parte sido entregue à PSD, nomeadamente aos agentes da “Escola Segura”.

            Saliente-se que a nova Lei da Gestão Escolar reforça a autoridade dos professores na Escola, a qual tem sido reclamada pelos professores e sindicatos, mas é agora atacada com violência pelos mesmos professores e sindicatos. Nesta nova Lei de Gestão Escolar, os directores de escola podem impor penas de autoridade disciplinar sem um longo processo disciplinar. Isto com excepção dos casos de expulsão escolar que passa pelas Direcções Regionais.


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Domingo, 23 de Março de 2008
Reformismo

 

Muita gente critica o actual reformismo dito neo-liberal no nosso País, o qual segue uma linha global que vai de Vladivostok a Vladivostok, passando por Lisboa e todos os países do meridiano e para o Sul e Norte do Planeta.

 

            Dois grandes países comunistas – China e Vietname – fizeram uma política de chamada de capitais multinacionais, tendo concluído que entre o nada fabricar por falta de capital original ou mais-valias anteriores e o oferecimento de mão-de-obra barata havia nítidas vantagens para a segunda via, a do Modo de Produção Capitalista, e com isso enriqueceram e estão a optar por um reformismo com um Serviço Nacional de Saúde apenas instituído há dois anos atrás e um modelo de descontos e reformas semelhantes ao português. Antes havia um arremedo de social a nível da aldeia paupérrima em que todos trabalhavam para os mais velhos e estes trabalhavam até caírem para o lado. Havia também alguns modelos de apoio social a nível de empresas, administrações públicas, forças armadas, policiais, etc., que implicavam a permanência para toda a vida num dado posto de trabalho e tudo pago muito por baixo.

            A China viu o desenvolvimento de Taiwan e copiou o modelo, sendo seguida pelo Vietname e pelo Laos. Outros países como a Índia, Paquistão, Bangla-Desh, Indonésia, Malásia, etc, concorrem entre si para atrair capitais e fornecerem valor acrescentado a baixo custo. O sucesso tem sido enorme e em muitos desses países as enormes taxas de analfabetismo têm diminuído e assiste-se ao aparecimento de milhões de licenciados nas mais diversas engenharias e ciências. Cuba foi buscar grandes grupos hoteleiros para desenvolverem o seu turismo da forma mais capitalista possível e hoje oferece medicina e a custo muito razoável.

            Falar de capitalismo sem analisar estes aspectos é pura hipocrisia. A China é hoje o maior país capitalista do Mundo e está em vias de se tornar a maior potência económica mundial, sendo detentora de quase metade das reservas mundiais em dólares, as quais deposita nos EUA, provocando em parte um excesso de liquidez nos bancos americanos que foram vender o dinheiro (empréstimos) a quem não tinha condições de pagar prestações. Calculo que a desvalorização do dólar nos últimos dois anos provocou à China uma perda de mais de mil e quinhentos milhões de horas de trabalho, tendo em conta o trabalho a meio dólar à hora. Mesmo assim, ninguém está arrependido na China e procura-se fazer cada vez mais do mesmo. O problema começa agora com a escassez de matérias-primas, incluindo petróleo.

            Nos países mais adiantados e semi-adiantados, assistiu-se primeiro à massificação da produção (Taylorismo e Fordismo) e depois do consumo para passar à massificação do ensino, dos cuidados na doença, dos sistemas de reforma, dos subsídios de desemprego, etc. O resultado é que todos os trabalhadores trabalham para todos os trabalhadores. Aqueles que verdadeiramente trabalham para os detentores do grande capital são minoritários. Os lucros da banca foram de 79 cêntimos por dia per capita em Portugal. Distribuídos davam para uma bica e ficavam uns trocos para comprar uma chupeta mais para o bebé.

            Os professores em Portugal deixaram de ser os pedagogos das classes dominantes ou, mesmo, das classes médias. Têm os ciganitos nas suas turmas e todas as crianças dos bairros com problemas ou das famílias africanas, etc. Bem falo com muitos no café e vejo como criticam o “Estatuto do Aluno” que lhe impede de esbofetear o ciganito mal comportado ou outro aluno qualquer e costumam dizer que bastam dois ou três alunos muito difíceis para desestabilizar uma turma.

            Ora isto de professores, médicos, juízes, intelectuais diversos, etc., trabalharem para as classes mais proletárias é muito positivo, mas sai caro ao cidadão contribuinte pois o recebedor dos serviços sociais nem sempre compensa com o valor acrescentado do seu trabalho aquilo que recebe. Para além disso, todas as reformas do passado redundaram num aumento enorme da esperança de vida e ainda bem, mas também não é de graça; o tempo de pagamento de reformas dilata-se e eu compreendo, pois como reformado, vi a minha reforma diminuída pelo aumento de IRS que há três anos atrás era metade do IRS dos activos. Relativamente a uma expectativa criada na altura da reforma, estou a pagar caro um sistema que acho justo pois tenho a consciência que o social não me pode passar ao lado. Não podem ser apenas os outros, os tais que têm, aqueles que ganham isto e aquilo a pagar.

            Sócrates disse há dias que os reformados com mais de 65 anos de idade deixam de pagar taxas moderadoras. Jerónimo de Sousa desclassificou a medida ao dizer que apenas 20% dos reformados é que pagavam taxas moderadoras e que a medida implicavam um gasto de poucos milhões de euros num orçamento de sete mil milhões, se não estou enganado. Na verdade eu vou de vez em quando à médica de família e pago 2,5 euros e fiz recentemente um Raio X muito complicado no Hospital Pulido Valente em que paguei 11 euros. As análises tipo PSA e muitas outras são ridiculamente baratas. Tem razão o PCP ao dizer que a medida não tem grande significado, mas quando em Janeiro aumentaram em 3 ou 4% fizeram uma barulheira danada na AR e nos meios de comunicação como se todos os reformados fossem ficar na penúria. Afinal, agora já não vale nada a isenção.

 

           O reformismo do PS visa viabilizar o social que se vai tornando cada vez mais caro quanto maior é o número de idosos e maior o número de alunos que chegam ao ensino superior e visa os mais pobres em detrimento das classes médias cada vez mais numerosas e compreensivelmente agarradas aos privilégios que conquistaram nas últimas décadas.

          No meu tempo chegavam às poucas universidades do País uma minoria que nem representava 5% das respectivas faixas etárias. Hoje, temos quase meio milhão de alunos a frequentar o superior e 1,6 milhões no ensino não superior e 200 mil professores em todos os ramos de ensino. Esta massificação paga-se e, a meu ver, não há em Portugal um número de milionários suficientemente grande para pagar seja o que for. E nunca houve em parte alguma do Mundo. O Marxismo nunca conseguiu elaborar um sistema redistributivo porque nos processos revolucionários o capital foi destruído e na vigência dos longos governos comunistas na URSS e outros países foi dada uma preferência ao sector militar que custou fortunas escandalosas. Há anos, num artigo que escrevi na Revista de Marinha calculei que a frota soviética do Mar Negro (uma espécie de lago) custava o mesmo que 50 milhões de viaturas automóveis utilitárias que poderiam ter sido construídas para o serviço dos trabalhadores e nada havia nesse quase lago estrangulado pelo Bósforo e Dardanelos que não pudesse ser defendido com poucos mísseis ou aviões com base em terra.

            Saliente-se que o capitalismo norte-americano ia buscar ao Pentágono verbas para meios militares mas que utilizava depois no sector civil como a construção aeronáutica, informática, novos materiais com fibras de carbono e muita coisa mais. O primeiro 707 foi uma adaptação de um avião militar. Na URSS, o militar foi totalmente separado do civil, pelo que o povo soviético pouco ou nada obteve do desenvolvimento de tecnologias avançadas. Hoje, são as multinacionais do Ocidente que estão a instalar dezenas de fábricas na Federação Russa que vive à “terceiro mundo” da exportação de matérias-primas.  

 

          O ideal seria que todos os portugueses pudessem ter um nível de classe média, mas isso significava que cada um ganha e paga o mesmo. O professor utiliza o serviço de um mecânico de automóveis que ganha o mesmo que ele e assim sucessivamente. Mesmo que os ordenados não sejam rigorosamente iguais, acabam por o ser por vias indirectas que têm a ver com o social e até com o não pagamento de impostos de uns tantos que trabalham na “economia sombra”, etc. De fora ficam uns poucos muito ricos e uns tantos muito pobres a receberem rendimentos de inserção, subsídios de desemprego, abonos de família, assistências diversas, etc.

           E trabalhar temos todos. Numa sociedade mais justa não há lugar para muitos a trabalharem muito pouco. Alguns conseguem-no, mas o seu número não pode deixar de ser cada vez mais insignificante no futuro. Isso da reforma após 35 anos de trabalho na função pública e muito antes dos 65 anos de idade era bom, era mesmo óptimo, mas os restantes trabalhadores não têm meios para sustentar muito mais de 3 milhões de reformados.

 

           A solução está nos caminhos seguidos por muitas economias mundiais, ou seja, aumento da produtividade, redução da criadagem, seja em casa ou nas lojas ou nos serviços públicos. Cada um tem de limpar o que suja. Vi isso em Moscovo nos tempos de Brejnev; os inquilinos a limparem o passeio e a rua frente ao seu prédio. Claro, as condições de sujidade eram outras devido à neve e ao gelo.

           Quanto ao capital? Que venha, quanto mais postos de trabalho melhor, quanto mais criatividade melhor, quantos mais empresários como aquele engenheiro que o último Expresso descreveu e que montou uma fábrica de calçado especial de protecção dos trabalhadores e que está já a exportar mais de 800 mil pares por ano. São esses sujeitos que criam as condições para o Socialismo Democrático funcionar. E foi isso mesmo que há tempos me disse um membro do Comité Central do PCP quando lhe perguntei o que achava da China Comunista e Capitalista. Ele disse que o Socialismo carece de meios de produção para funcionar. O Socialismo – dizia o dirigente do PCP – é a transformação do capitalismo e na sua ausência há que o criar primeiro, seja de que modo for.

 

          



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Segunda-feira, 17 de Março de 2008
A Mórbida TSF

 

            A TSF publicou um anúncio de página inteira no jornal Global de um mau gosto atroz e revelador de uma mentalidade mórbida e desprovida de qualquer moral em termos jornalísticos e publicitários baseada no vale tudo para chamar a atenção. Merece entrar no Guiness como o pior anúncio do Mundo.

            Efectivamente, a TSF coloca numa fotomontagem a pacífica e lindíssima praça do Rossio renovada com o notável Teatro D. Maria ao fundo. Antes do chafariz aparece uma cena horrenda de dois carros incendiados e explodidos e dois soldados americanos a olharem para o cadáver de uma vítima deitada de bruços que foi queimada viva, mas com um vazio no tórax. A explosão incendiária queimou os pulmões e o coração antes do resto do corpo, pelo se observa naquela zona um grande buraco. A cena mórbida faz-me recordar o que descrevia a minha avó quando era socorrista na Alemanha durante o holocausto das bombas inglesas e americanas em que três milhões de civis alemães foram queimados vivos com as bombas borboletas de fósforo que penetravam no corpo para queimar de dentro para fora, deixando sempre um enorme buraco dos pulmões até aos intestinos.

            A ideia que fica é que a TSF gostaria que coisa semelhante acontecesse em Portugal para noticiar e para que a rádio fosse mais ouvida, os jornais mais lidos e as televisões mais vistas. Qualquer coisa como aquilo que o general Garcia Leandro disse que poderia acontecer em Portugal e que, talvez, quisesse, mas a presença na Nato e na EU com o Zapatero em Espanha impede por completo. Recordemos que o 28 de Maio de 1926 se deu durante a vigência da ditadura do General Primo de Rivera em Espanha.

            Efectivamente, não há grande matéria jornalística na actual normalidade com apenas uma guerra dos professores que não querem ser avaliados e deixou indiferente o povo português, tal como deixaria se os alunos protestassem contra os exames e um governo que faz reformas de aplicação suave sem ferir muita gente e compensando aqui ou acolá.

            Infelizmente, para a TSF, nem uma Ponte de Entre-Rios cai. Sim, isso sim, deu um gigantesco espectáculo mediático montado para suscitar a curiosidade mórbida sobre o paradeiro dos cadáveres.

            É que com este governo acontece muito pouco, as guerrazinhas são demasiado estúpidas para fornecer a matéria-prima dos noticiários e a TSF não tem alternativa senão abrir o noticiário da manhã com o Menezes que disso isto, o Portas aquilo e o Jerónimo qualquer outra coisa. O público está habituado a que os políticos digam isto ou aquilo e querem mais ou menos disto ou daquilo, pelo que ninguém liga. Quanto muito espera-se que venha o boletim meteorológico para saber se há que levar qualquer protecção contra a chuva ou não.

           

 


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publicado por DD às 21:42
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Domingo, 16 de Março de 2008
Lisboa

 

       Num Blog denominado Bússola surgem ataques cheios de um palavreado ordinário contra Lisboa e o seu chamado centralismo e favoráveis ao Porto, mas sem uma análise séria sob o ponto de vista histórico, geográfico e económico.

           Sem me alargar demasiado,  a minha posição de lisboeta nascido na Estrada de Benfica é a seguinte:

 

A geografia é sempre injusta; coloca um maciço rochoso aqui; uma planície fértil ali, um deserto acolá, etc.

Lisboa é produto de uma geografia particularmente interessante no passado em que não era tão fácil mudar as condições geográficas. Lisboa tem um estuário que lhe permitiu ter um dos maiores portos naturais do Mundo; tem ricos terrenos agrícolas a norte e a sul do Tejo, nomeadamente nas lezírias e possui uma geomorfologia própria em colinas que permitia uma defesa fácil, próxima do mar, mas não tão próxima para que fosse facilmente atacável por piratas e outros inimigos vindos de barco.

            Como é sabido, no passado as cidades marítimas tinha a vantagem de serem pontos de ligação com o exterior, mas continham a desvantagem de serem atacáveis. Ora Lisboa tem uma extensão de rio até chegar ao grande estuário. Nunca foi fácil uma armada inimiga entrar e destruir os navios nacionais e sair incólume. As bombardas colocadas na Torre de Belém e em muitos fortins na Costa, incluindo S. Julião da Barra e Bugio, com um alcance de mais de 250 metros na época dos descobrimentos permitiam uma excelente defesa do estuário.

A costa que vai de Cascais para o Norte e as Arribas da Caparica nunca facilitaram o desembarque de forças inimigas..

Lisboa comunica pois com o Norte do País através de um litoral cheio de bons terrenos que vai até ao Porto e com o interior do Tejo das lezírias e o sul alentejano, tendo ainda uma "filial" geoportuária que é Setúbal e o Rio Sado. Não foi pois, por acaso, que em 1255 Lisboa se tornou a capital do reino.

As Linhas de Torres mostraram que foi possível erguer um bom perímetro de defesa em torno de Lisboa a partir de Torres Vedras com base na sua morfologia geográfica. O Porto teve de construir um porto artificial, Leixões, pois a barra do Douro foi sempre muito perigoso e muitos mais navios naufragaram nessa barra que na do Tejo. Quanto à questão do poder, a realidade é que a maior parte dos governantes do País não eram lisboetas. Um dos poucos lisboetas a ocupar cadeiras do Poder foi Mário Soares e actualmente nem Sócrates nem Cavaco são lisboetas. Os lisboetas não são muito bairristas, pois a maior parte dos habitantes de área urbana não nasceu na capital e votaram maioritariamente pela regionalização do País no último referendo. 

Em termos de logística de transportes, Lisboa com a Península de Setúbal é uma zona privilegiada e não foi por acaso que a Auto-Europa está instalada na Região. Lisboa é uma pequena cidade de 82 km2 (8.200 hectares) com 560 mil habitantes. Mais importante é a área urbana de Lisboa com 1,7 milhões de habitantes e ainda mais importante é a Região de Lisboa e Vale do Tejo que vai de Setúbal a Ferreira do Zêzere com 11 mil km2 e 3,4 milhões de habitantes e um PIB per capita acima da média europeia. Mas, neste aspecto, a RLVT não fica muito atrás da Região do Porto com mais de dois milhões de habitantes e muita indústria também. Não há razão alguma para bairrismo e regionalismos, pois Lisboa foi sempre o espaço em que todo o Portugal se mistura e é a região menos regionalista do País.

Pelas origens dos seus habitantes a Região Urbana de Lisboa é apenas Portugal.

Devo acrescentar que muitos lisboetas são a favor de uma descentralização e desconcentração do muito que há em Lisboa. 

A zona urbana de Lisboa está saturada; a circulação é cansativa e o centro da cidade está despovoado. Lisboa deixou de ser uma cidade interessante pois é um amontoado de cidades satélites com uma péssima urbanização e cheia de problemas. As praias são praticamente inacessíveis no verão tão grande é a multidão de carros que procuram parques de estacionamento.
Os cinemas e teatros de Lisboa ou já morreram ou estão em vias disso.

A Expo é um monstro de cimento, tal como Telheiras e está a acontecer com a Alta de Lisboa.     

           Enfim, salvou-se a Quinta das Conchas e Lilases graças à luta dos militantes de todos os partidos que se empenharam em preservar aquele espaço verde que a CML quis sempre cimentar e roubou um bocado.

           A zona de Cascais é também uma monstruosidade de prédios de uma arquitectura nem sempre bonita.

           Em Lisboa não apetece ir para parte alguma, apesarda sua enorme beleza. É cidade para ir apenas ao café da esquina. 




publicado por DD às 19:50
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O Papel das Pequenas Empresas e Países e Karl Marx

 

            No momento em que se recorda a morte de Karl Marx há 125 anos, a empresa alemã Porsche resolveu adquirir até 51% do grupo VW, o qual, por sua vez, acaba de decidir a compra do grande fabricante de camiões sueco Scania e completar a aquisição do fabricante alemão também de camiões e motores MAN. O Estado Regional continuará a ser o segundo maior accionista do grupo.

            Os dirigentes do grupo VW pretendem ultrapassar o maior fabricante mundial de viatura, a Toyota, e, aparentemente, ficarão poucos grupos automóveis no Mundo a funcionar e nenhum de um país pequeno. A Suécia perdeu a Volvo para a Ford que a quer vender, admitindo-se que o grupo VW possa vir a ser comprador, enquanto a SAAB também sueca foi há muito vendida à General Motors.

            Toda a indústria sueca de automóveis passou para mãos de estrangeiros, talvez pelo facto de essa indústria não se ter internacionalizado a tempo para adquirir mais dimensão como o fizeram algumas outras empresas suecas, mas não muitas.

            Aparentemente as teses de Marx sobre a concentração do capital estão certas, às quais o grande pensador alemão acrescentou o fim das classes médias que no seu tempo eram constituídas por pequenos empresários industriais, agrícolas e comerciais e artesãos de alguma qualidade a par de poucos quadros da administração pública e das empresas.

            Claro, Karl Marx não podia adivinhar o desenvolvimento das técnicas a mais de um Século de distância.

            O processo capitalista não é tanto o da concentração, mas o da transformação. Enquanto as grandes empresas formam grupos gigantescos, em seu redor trabalham milhares ou centenas de milhares de outras empresas, principalmente pequenas. São os fornecedores de componentes. Uns grandes e outros pequenos e todos também com subcontratantes e milhares de concessionários de venda das marcas e muitos mais quadros técnicos e administrativos e até operários especializados que em muitos países auferem de vencimentos e possuem estilos de vida típicos das classes médias.

            Aquilo que muitas vezes parece ser um posto de venda de uma grande empresa não passa de um concessionários ou franchisado financeiramente independente que trabalha com uma dada marca. Por outro lado, aquilo que já foi um monopólio mundial dos computadores, a IBM, deu origem a centenas de milhares de fabricantes e comerciantes de material informático. Mesmo o monopólio da Microsoft não prescinde de pequenas empresas que trabalham para o fornecimento de partes de programas e para o marketing e comercialização dos seus produtos. Além disso, aparecem novos concorrentes que começam a colocar o seu programa quase gratuitamente na Net para obterem um mercado. Cito em particular o “Open Office” que se consegue descarregar da Net de graça.

            Curiosamente, o “outsurcing” está tão na moda como a concentração. Os grandes grupos empregam um número cada vez maior de trabalhadores de outras empresas e mandam fabricar peças, máquinas, moldes, etc. por toda a parte. Empresas chinesas e russas trabalham em grande quantidade para a Boeing e para a Airbus como trabalham para muitas outras marcas, principalmente as chinesas. Os grandes grupos deslocalizam muitas produções e procuram por toda a parte fornecedores em boas condições.

            Enfim, o Mundo globalizado ou cada vez mais industrializado tornou-se demasiado complexo para uma análise doutrinal e consequente com saída para uma nova economia.

            Por isso, o Marxismo, que não foi criado por Karl Marx, falhou, mesmo no maior país marxista do Mundo, a China, que se tornou também no maior país capitalista.


publicado por DD às 19:04
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Terça-feira, 11 de Março de 2008
Paulo Portas e os Agricultores

Uma das técnicas habituais das oposições é atacar ferozmente num sector que se sabe que está a melhorar para que fique a ideia que aí as coisas estão péssimas. Para isso aproveita-se a ganância excessiva de interessados e dos habituais agentes das reivindicações como sindicatos, associações empresariais, etc.

 

Paulo Portas conhece essa técnica e resolveu atacar em força o governo na agricultura por causa de uns subsídios que a maioria deixou de carecer.

 

Assim, em vinte meses o trigo e muitos outros cereais viram as suas cotações nos mercados mundiais subirem em 138% e outros produtos como a carne, o leite e seus derivados quase duplicaram de preço. De modo geral todas as matérias-primas, sejam para a alimentação ou não, estão a subir muito de preço e, apesar de alguns factores de produção subirem, principalmente os que derivam do petróleo como o gasóleo e alguns adubos, o aumento do produto final do agricultor está a compensar. Em Portugal, a área cultivada de trigo duro, o de Inverno, aumentou em mais de 50%, o que é insuficiente para abastecer o mercado nacional, pelo que este trigo para massas e farinhas especiais têm mercado e preço garantidos. O trigo mole, o da Primavera está em vias de ver a sua área semeada praticamente duplicada, a avaliar pela venda de sementes certificadas. Áreas maiores só com sementes não certificadas por já não haver disponibilidades das outras.

 

Este sector dos cereais e dos lacticínios é o mais subsidiado, pelo que o aumento de preço significa, para quem conhece a agricultura, aque os subsídios não são mais necessários, excepto para os proprietários indigentes que nada querem fazer.

 

Paulo Portas chamou caloteiro ao Ministro da Agricultura por ainda não terem sido concedidos vinte por cento dos subsídios ADIANTADOS prometidos pelo Governo, como se o dinheiro dos contribuintes nacionais e europeus tivesse sido encaixado pelo ministro. Não foi o Ministro da Agricultura que recebeu os trinta milhões de Euros depositados no BES pela Howaldswerk, o estaleiro que está a construir os dois caríssimos submarinos 209P de que o país não necessita, mas que terá de pagar por um preço superior ao do novo aeroporto ou da barragem do Alqueva, encomendados pelo Portas quando foi Ministro da Defesa.

 

O consumo crescente de países como a China, Índia e outros tem provocado o aumento mundial de todos os produtos agrícolas, pelo que deixou de ter sentido que os latifundiários alentejanos continuem a receber subsídios para produzirem ou não, como entenderem. A sua obrigação como proprietários é produzir e é isso que os espanhóis que têm comprado herdades alentejanas estão a fazer em força. Ainda há dias adquiriram uma parte maioritária do capital do maior olival do País, situado na Herdade dos Machados. Se os espanhóis podem produzir e ganhar dinheiro nas terras portuguesas porque razão não o podem fazer os portugueses?

Os actuais subsídios aos agricultores deveriam ser transformados em apoios especiais aos mais pobres e às famílias numerosas  para enfrentarem a carestia nos alimentos.

 

            Mesmo num sector não subsidiado como o das frutas e legumes verificam-se aumentos de preço e aumentam as possibilidades de exportação para os países do Norte, nomeadamente para a Federação Russa, cada vez mais rica com o astronómico preço do gás e do petróleo. Um amigo que esteve há dias em Moscovo viu por lá os mercados cheiros de produtos hortofrutícolas espanhóis.

 

            Portas não compreendeu que numa economia de mercado compete aos empresários produzirem e serem responsáveis pelo que fazem ou não fazem. O papel do Estado é só supletivo em situações de crise e, neste momento, há tudo menos crise na economia agrícola mundial.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Quinta-feira, 6 de Março de 2008
A Necessidade de Zelo na Função Pública

 

 

No noticiário televisivo em que o Ministro Teixeira dos Santos dá uma informação sobre a avaliação dos funcionários e a possibilidade de serem demitidos da Função Pública por falta de zelo e só ao fim de um longo processo disciplinar é também dada a notícia da morte de um homem de 51 anos em Samora Correia porque o INEM se enganou na resposta ao pedido de socorro.

Em vez de enviar a ambulância do Quartel dos Bombeiros de Samora Correia localizada a 500 metros da casa do homem, mandou vir uma ambulância de Almeirim que está a 45 quilómetros, segundo a televisão.

 

O homem até podia ser funcionário público, não sei, mas demonstra cabalmente que se pode morrer por falta de zelo do funcionário do INEM que recebeu a chamada ou de alguém que listou no sistema informático as ambulâncias a chamar, etc. O que é certo que morreu um homem porque houve desleixo e falta de zelo e o causador dessa morte deve ser no mínimo demitido da Função Pública.

 

Ninguém quer ser avaliado em Portugal, mas todos podem estar na pele do homem de Samora Correia; todos podem ser vítimas da falta de zelo, incluindo os dirigentes sindicais.

 

Por experiência própria sei que o funcionário/a do Centro de Saúde do Lumiar desliga o telefone da marcação de consultas. Nunca consigo marcar uma consulta pelo telefone, tenho sempre de ir pessoalmente e a certas horas para marcar a consulta. Aquilo é falta de zelo e sabotagem do funcionamento do serviço. Ora, os ou as funcionárias em causa devem ser demitidas da Função Pública.

 

Vai ser muito difícil vir a ter um Portugal a funcionar como um dos pequenos países europeus como a Finlândia, cuja comparação com os professores portugueses vem na última revista Sábado.

 

Agora a oposição quer reduzir a eficácia da ASAE quando ela descobre todo um monte de porcaria como ratos em fornos, baratas a passear pelos talheres, etc.

 

No verão passado tive de ir ao Cais do Sodré a uma agência de navegação. Aproveitei para tomar uma bica na pastelaria que faz esquina com a Rua de São Paulo. Enquanto tomava uma bica vi um rato a passear no interior do balcão envidraçado onde estavam os bolos. Chamei a atenção do empregado e ele riu-se a dizer que eu deveria ter visto mal, pois não estava lá rato algum. Claro, o bichinho já tinha fugido. Depois na agência de navegação relatei o caso e disseram-me que aquilo está tudo infestado de ratos e outros animais perigosos; em todos os restaurantes, cafés, etc. pois o mercado esteve anos ali perto e a bicharada abundavam por ali em quantidade sem que as autoridades tivessem tomado medidas para fechar aqueles restaurantes e mandar desratizar toda a zona. E quer o PSD proteger as ditas pequenas empresas que não cuidam da higiene. E é tão fácil limpar bem um restaurante tapar os buracos e pintar tudo. Conheço um dono de restaurante a quem a antiga inspecção o obrigou a fazer isso; o homem barafustou, mas depois disse-me que ficou contente por ter sido obrigado a pôr tudo em ordem na sua empresa e até fez mais que o que lhe mandaram fazer, renovou quase toda a cozinha.

 

É como nós com os carros. Ficamos arreliados de ter de os levar à inspecção e temos de gastar algum para ver se está tudo em ordem, mas depois ficamos contentes por andar com uma viatura em boas condições de segurança.



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Terça-feira, 4 de Março de 2008
Revista de Marinha

Já foi posta à venda a Revista de Marinha de Março, edição 942. Na capaz traz uma foto do gigantesco porta-contentores de 91.649 toneladas de deslocamento bruto a atracar ao Porto de Sines. È um dos maiores navios do género que navega com a bandeira da Libéria, mas pertence à MSC-Mediterranean Shipping Company, o terceiro maior armador do Mundo com sede em Genebra na Suíça.

            Este número revela que em breve o porto de contentores de Setúbal entrará em funcionamento, o que vai aliviar os problemas do tráfego de contentores no porto de Lisboa e informa sobre os bons resultados da Lisnave de Setúbal que é um dos cinco maiores estaleiros de manutenção e reparação do Mundo.

            Um dos autores deste blog, Dieter Dellinger, publicou neste número da revista um artigo sobre a Concorrência entre os Canais do Suez e do Panamá, isto no que respeita ao tráfego do Médio Oriente para a costa Leste dos EUA, noticiando também o início das obras do Canal do Panamá que está cada vez mais congestionado com engarrafamentos de cerca de 100 navios nas duas entradas. O Comércio Externo dos EUA aumentou de tal modo que os seus portos e o Canal do Panamá estão quase em colapso por excesso de tráfego e falam de crise nos EUA. Qual crise? Com as exportações americanas a duplicarem?

            A visita do cruzador e porta-helicópteros russo “Moskva” mereceu uma excelente reportagem, enquanto Luís Filipe Morazzo descreve o trabalho do primeiro helicóptero de salvação marítima em serviço na costa portuguesa, em 1963, um “Alouette II” francês que estava em demonstrações na base de Alverca e foi chamado para resgatar os tripulantes do navio “Silver Valley” encalhado junto ao Cabedelo, “o famigerado banco de recifes e areia situado a 1 km da praia, na embocadura do Douro.

            Na série história de navios mercantes, Marco António Pedro descreve o “T/N Eugenio C” e muitos outros navios da antiga empresa armadora italiana “Costa Cruzeiros”, a célebre “C” .

            O conhecido arqueólogo naval e capitão do Porto de Aveiro apresenta um interessante artigo sobre o navio holandês “Witte Leeuw” que foi afundado em combate com duas naus portuguesas na baía da Ilha de Santa Helena, isto em 1613. O navio da “República das Sete Províncias Unidas”, como se chamava então a Holanda, estava acompanhado por mais dois outros navios pelo que se lançou logo sobre as duas bem carregadas naus portuguesas vindas da índia, apostando numa vitória rápida; mas não; a encarniçada resistência lusa levou a que um pelouro bem colocado fizesse ir para os ares a proa do holandês que se afundou de seguida com uma preciosa carga de diamantes que os arqueólogos navais ainda procuram. Os restantes navios holandeses afastaram-se temerosos da bravura lusa.

            Enfim, para quem gosta do mar e de navios, encontra neste número muito para ler.

 

Outros blogs de Dieter Dellinger:

História Náutica

http://naval.blogs.sapo.pt

 

Contos e Novelas do Século

http://ddblog.blogs.sapo.pt

 

Hiperfísica

http://hiperfisica.blogs.sapo.pt

 



publicado por DD às 00:29
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Domingo, 2 de Março de 2008
Dieter Dellinger: A Indivisibilidade da Identidade e Soberania como Causa dos Conflitos Actuais

 

           A realidade do mundo pós-guerra fria veio mostrar que a tensão bélica existente no Planeta não era consequência de uma confrontação mundial, nem tão pouco de uma luta universal de classes. Tanto no capítulo das guerras de libertação anti-coloniais como em muitas situações de conflitos internos pela conquista do Estado, a divergência entre blocos não era a causadora dos conflitos, mas antes a introdutora de aproveitamentos oportunistas que frequentemente agravavam uma situação de conflito e em nada contribuíram para a Paz mundial.

          Hoje, o conflito como regulador de relações insuportáveis continua na ordem do dia em muitas zonas do Globo, sendo, como tal, o grande responsável por situações de fome, miséria generalizada e atraso. Daí que se torne importante analisar o fenómeno conflitual em si numa perspectiva isenta de partidarismos ou vontade de poder, portanto fora da tradicional acusação contra estes ou aqueles fautores do mal com a inerente ideia de que, desaparecidos estes ou aqueles, a Paz Perpétua imperaria neste nosso conges-tionado e engarrafado planeta.

         Os conflitos actuais tendem a ser muito pouco uma consequência de divergências entre estados soberanos em que as populações são levadas ao conflito pela disciplina imposta pelo Estado com a mobilização de jovens para a guerra e demais cidadãos para o esforço de guerra, sem que a sua vontade se tenha expresso de alguma forma.

         Duas ordens de conflitos imperam em várias zonas do Mundo; as que resultam do desejo de libertação de povos relativamente a poderes com os quais não se identificam e os que têm a ver com a conquista do Estado. Em todos os conflitos, há sempre a procura de processos de identificação colectiva como forma de mobilização de massas. Identificação etno-religiosa, identificação em termos de classes, vulgo consciência de classes. Nós contra os outros, eles, os maus.    

        A identificação surge aqui como resultado da diferença o que pressupõe uma interacção social. A identidade colectiva não deixa de ser uma relação social, tanto como é um esquema mental. Mas, sendo-o, nem sempre é decisiva a sua existência como factor de conflito. Veja-se o caso da Jugoslávia, onde se podia ser etnicamente ambíguo até ao aparecimento da democracia e surgimento dos conflitos étnicos que vieram traçar as fronteiras entre sérvios e restantes grupos. Foi, sem dúvida, o desejo dos servos de monopolizar para si as forças armadas da Jugoslávia que criou as bases do conflito bélico, pois as restantes regiões correram a formarem forças militares próprias, nascidas sob o signo do conflito, fazendo as diversas guerras logo de princípio. Os oficiais croatas, por exemplo, quando expulsos das antigas forças armadas fundaram de imediato o seu exército nacional em luta com os antigos camaradas de armas. Assim, a identidade Sérvia foi-se transformando ao longo dos conflitos dos anos noventa no sentido de uma demarcação dos seus limites mais restrita e não tanto em consequência de uma processo interno, mas antes de uma opção semi-totalitária de um regime que jogou com a carta nacionalista como forma de se justificar no poder. E é interessante salientar que é precisamente no processo de formação e manutenção das fronteiras entre grupos como constituintes das “identidades colectivas” que reside o essencial do estudo sociológico do conflito como pesquisa de soluções de Paz.

         As identidades preexistem, mas é o uso da força, a da lei ou a das armas, como estreitamento entre a política e grupo étnico que acentua as fronteiras sociais. Na ausência de violência ou força política, as fronteiras delimitadoras da identidade  esbatem-se

        Por si próprio, os povos tendem a cruzarem-se, a encontrar espaços de comunhão pacífica, mesmo quando praguejam diaria-mente contra os chamados outros. Por isso, não é tanto a identidade a causa dos conflitos, mas a soberania ou soberanias, nomeadamente a indivisibilidade da soberania. O principal problema da Humanidade em termos de conflito resultou sempre da instauração de políticas de não soberania para algumas populações, susceptíveis de cavarem fossos entre os detentores de soberania e os sujeitos não soberanos. Nos impérios coloniais e políticos, os povos não soberanos foram até muito recentemente considerados coisas, detendo os soberanos todo o poder, incluindo o resultante de actividades socioprofissionais normais como professorado, magistraturas, administração a todos os níveis, propriedade ou direcção empresarial, etc. Nestas circunstâncias, o desespero instala-se naqueles que estão desprovidos de poder e “status” social e o conflito surge. No caso do Kosovo, a população albanesa, que deteve antes poderes autónomos, viu-se privada desses poderes e de quase todas as possibilidades de ascensão social. Daí ter reagido com uma guerra de resistência.

        De resto, também os conflitos entre Tutsis e Hutsos em África têm a mesma génese porque aí, como noutros locais, o poder político tenta reforçar-se com espantalhos etno-racistas ou socio-identitários como forma de alcançar o poder e nele permanecer o mais longamente possível.

       A existência de riquezas em dadas regiões acentua frequentemente o processo de formação de identidade, tanto no aspecto de os próprios não quererem dividir as suas riquezas, como do facto de cobiças e interesses alheios jogarem a favor de um aumento da conflitualidade.

       Os conflitos existentes actual-mente com tendência para se prolongarem no futuro são muitos e todos têm como base um processo de insuficiente ligação entre identidade e soberania, mas são também pejados de artificialismos diversos provocados por grupos políticos interessados no seu poder. Veja-se o caso da Irlanda do Norte, País Basco, Escócia, Catalunha, Córsega, Kosovo, Bosnia e Cáucaso. Na Ásia, o conflito do Pundjab opõe dois estados, a Índia e o Paquistão numa quase excepção à panorâmica conflitual da actualidade. O Tibete procura a soberania indivisa relativamente à China, como o conseguiu Timor e agora também o querem as ilhas Molucas. No Ruanda e no Congo vários grupos étnicos não se identificam com a soberania existente e na Palestina, as soluções encontradas vão ao encontro da problemática da indivisibilidade da soberania, mas de uma forma muito rudimentar, dada a extrema exiguidade dos territórios em causa e por a soberania assentar em processos de identidade aparentemente insusceptíveis de fusão. O poder aí é religioso e értnico pelo que não parece fácil encontrar uma soberania neutra que não se confronte com identidades diferenciadas.

       A identidade de uma população pode ser sempre utilizada como instrumento base de conflitos armados. E o grave é que os processos de identidade podem ser criados e surgirem assim artificialmente como as diferenças entre norte e sul num dado país, entre a população da capital, tida como detentora privilegiado do poder, e a de outras cidades ou dos campos, para não falar na religião como pretenso fenómeno de identidade, como foi o caso do nazismo alemão que via na população judia uma raça diferente, quando na verdade os judeus eram tão europeus como os povos em cujo seio viviam há séculos ou milénios mesmo.

       Não se pode ser pacifista e agitar neste mundo pós-colonial e pós-imperial com o espantalho de pretensas identidades não soberanas. Até porque qualquer grupo humano tem muitas identidades, tais como: geográficas, étnicas, religiosas, linguísticas, económicas, sociais e  profissionais, etc.

       A Paz deve ser estudada em função da raiz dos próprios conflitos entre povos ou populações, nomeadamente nesta perspectiva de identidade e soberania.

 

 



publicado por DD às 16:04
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