Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Domingo, 24 de Maio de 2009
A Bolha Financeira Rebentou

 

 

 

 

A actual crise económica e financeira mundial tem duas vertentes essenciais: a da bolha financeira mundial e a da saturação dos mercados, já aqui descrita.

  Ambas as vertentes estão intimamente ligadas, pois a saturação dos mercados é um obstáculo ao investimento produtivo e, como tal, ao retorno elevado do capital, favorecendo o excesso de liquidez financeira que resultou fundamentalmente de desequilíbrios do comércio externo e de outros factores.

            As imensas exportações da China e dos produtores de petróleo fizeram verter na banca mundial quantidades enormes de dólares. A exploração de muitas centenas de milhões de trabalhadores na China, Índia e outros países geraram saldos comerciais positivos de valores astronómicos que desestabilizaram de todo o sistema económico mundial, contentando-se muitos países como a China em receber papel ou contas computorizadas em vez de alimentos e bem-estar para os seus povos. Se é verdade que os países emergentes tinham a necessidade de colocar nos mercados mundiais uma grande quantidade de produtos manufacturados a baixo preço, também é verdade que o desequilíbrio foi o grande responsável pelo “crash” financeiro mundial em que a questão dos “subprime” nos EUA foi apenas o fósforo que provocou o fogo globalizado.

Para além disso, a banca nos mais diversos países foi gerando agregados monetários por via do tão útil e prático cartão Multibanco ou de crédito, o qual alargou o factor financeiro gerado pelo cheque e pelo crédito.

            O nosso cartãozinho faz com que o dinheiro de um casal pobre que aufira dois salários que somam entre os mil e os dois mil euros permaneça permanentemente na banca, passando de uma conta para outra. Isto multiplicado por milhares de milhões de pessoas em Portugal e no Mundo produziu uma liquidez extraordinária e tanto mais elevada quanto mais altos os salários de certos países europeus e dos EUA, à qual se acresce a liquidez das classes mais abastadas, das empresas, da própria banca e seguradoras e, por fim, das milhares de aplicações e fundos, e a liquidez das imensas reservas em dólares dos países emergentes.

            A liquidez vagabunda no Mundo passou de 12 biliões de dólares (milhões de milhões) em 1980 para 196 biliões em 2007. Atingiu assim quatro vezes o PIB mundial que em 2007 rondava os 49 biliões de dólares, sendo portanto insusceptível de ser aplicada na produção, ou seja, em 25 anos os meios financeiros internacionais cresceram três vezes mais que o valor de toda a produção de bens e serviços mundiais. Acresce ainda a liquidez nacional nos países capitalistas sem liberdade de circulação monetária para o exterior e na componente bancária nacional de cada um.

            No fundo, tratou-se de uma curiosa liquidez não inflacionária porque pertence a todos e a ninguém, além de a alguns muito ricos e só parcialmente aplicada na produção e compra de bens e serviços. A liquidez aumentou também substancialmente pela via da expansão da bolha especulativa dos diversos produtos financeiros que pareciam representar valor enquanto eram procurados pelos gestores da liquidez. Com a falência do Lehmans Bank adquiriu-se repentinamente a consciência de que tudo não passava de papel sem valor e a liquidez encolheu tanto que levou muitas dezenas de bancos à falência e outros tantos a pedirem ajuda aos Estados para não falirem. Desmoronou-se um modelo capitalista financeiro e rentista. O capitalismo com rating AAA passou a um CCC.

            Os mercados não foram auto-reguladores, o liberalismo económico e financeiro falhou. Os liberais acusam os reguladores de não terem actuado quando antes foram sempre visceralmente inimigos de qualquer regulação e intervenção estatal nos mercados. Hayek, o grande teórico do liberalismo puro e duro, acusava em todos os seus escritos a intervenção do Estado de ser a culpada de não vivermos num mundo ideal regulado pela “mão invisível” do mercado. O teórico americano nem queria sistemas de Segurança Social estatais com subsídios de desemprego, assistência médica, reformas, etc. quanto mais bancos centrais a regular negócios privados.

            Keynes falou do “animal spirit” do capitalismo. Efectivamente, o capitalismo financeiro seguiu uma via animalesca de procura de lucro máximo sem matemática ou qualquer tipo de racionalidade. Não só lucro como também simplesmente poder. A “mão invisível” contribuiu para todos os excessos e para a crise depois de criar bolhas fantasmagóricas de dinheiro totalmente irracional. Enquanto os estados europeus do euro se auto-disciplinavam, os bancos entravam na embriaguez total da liquidez e transaccionavam entre si biliões de euros ou dólares

            A liquidez permitiu operações financeiras de compra e venda de empresas por milhares de milhões de euros. Pequenas empresas adquiriram grandes grupos com créditos bancários garantidos por acções altamente cotadas nas bolas. Com a queda de todos os títulos ficaram os créditos a descoberto e muitas empresas dependentes da vontade da banca em as levar ou não à falência. Antes dessas compras e fusões, as diferentes empresas estavam em excelente situação financeira.

            Relativamente aos salários praticados em todo o Mundo existe um excedente de capacidade de produção da ordem dos 20 a 30%. A economia mundial deixou de ser uma realidade, mas antes um balão insuflado que se esvazia agora. Tudo tem os seus limites, mas ninguém estava preparado para evitar o rebentamento das bolhas. Antes ganhavam os accionistas e os capitalistas de todos os lados e, muito ligeiramente, o proletariado. Não havia motivos para evitar que o balão se fosse enchendo.

            Agora, a crise está em todo o lado e atingiu países desenvolvidos e em desenvolvimento. Ninguém ficou de fora da crise. Por isso ela é grave, pois os circuitos comerciais que progrediram tanto nos últimos 25 anos estão a abrandar e a provocar o desemprego em massa. Os governos atónitos pouco ou nada podem fazer, porque também os Estados podem falir e isso seria ainda mais catastrófico. Se os Estados não encontrarem compradores para os títulos de dívida pública entram em falência se não forem capazes de reduzir as despesas.

 

 

 

           

 

 



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Terça-feira, 19 de Maio de 2009
A Saturação dos Mercados

 

            A actual crise tem um único paradigma, o da saturação dos mercados dos países mais desenvolvidos da Europa, dos EUA, Japão e Oceânia.

            De uma ou de outra forma, nesses países a esmagadora maioria da população adquiriu hábitos de consumo e bens e serviços típicos das classes médias.

            As economias de mercado conseguiram abastecer as populações com quase todos os produtos possíveis, um modelo de carro ou qualquer produto para cada bolsa, daí que a pronúncia da simples palavra crise acarrete uma grande retracção no consumo e, logo, nas vendas, na produção e no aumento do desemprego. O ciclo vicioso fecha-se. Com medo da crise aforra-se mais, compra-se menos e alimenta-se a crise.

            A teoria dos ciclos está cheia destas fases de sobreprodução que surgem em períodos relativamente determinados e que tem sido resolvida com o aparecimento de novos produtos que produzem uma nova fase de consumo.

            Veja-se a crise de 1929 e anos seguintes. Verdadeiramente, a crise começou a ser resolvida com o aparecimento do motor eléctrico produzido em massa que alterou todo o equipamento industrial que deixou de estar ligado a grande máquinas a vapor por meio de veios gigantescos e perigosas correias transportadoras. Ao mesmo tempo, o pequeno motor impulsionou o aparecimento do frigorífico caseiro, das máquinas de lavar, aspiradores, etc. Primeiro no EUA e depois na Europa.

            Assistiu-se também a mais de meio Século de construção civil e ao contrário do que muita gente diz, o caso do “subprime” nos EUA não foi tanto devido a empréstimos para a compra de casas a valores especulativos concedidos a pessoas que não tinham casa nem dinheiro para as pagar. O que sucedeu foi que a dinâmica dos construtores levou muita gente a trocar de casa, ou seja, comprando rapidamente uma nova sob a pressão dos vendedores e bancos que ofereciam créditos a juros baixos para vender posteriormente a mais antiga de modo a amortizar a dívida, o que se tornou muito difícil por não haver compradores para casas velhas.

            O paradigma da saturação dos mercados não é do agrado da maior parte das mentes humanas que dão sempre a preferência a uns malvados que cometeram fraudes, auferiram de ordenados gigantescos, etc. É evidente que há aí muita verdade e na economia capitalista o objectivo é sempre o lucro máximo, mas os benefícios da massificação da oferta de bens e serviços não podem ser esquecidos.

            A saturação engendra por si próprio uma redução nas vendas e logo uma quebra no crescimento económico do produto.

            O exemplo português é paradigmático da situação dos países ricos. Recentemente o Banco Mundial estimou Portugal como o vigésimo sétimo país mais rico do Mundo per capita no fim de 2008 com 20.762 dólares por pessoa e o trigésimo segundo em termos de paridade de poder de compra com 21.755 dólares. O Banco Mundial opera com demografias actualizadas a 2008, daí pois o excelente lugar de Portugal num universo de 178 nações do Planeta, mas não considera os 19% de rendimentos não monetários dos portugueses e que fariam subir mais uns dois a três lugares na escala mundial. O FMI utiliza nos seus cálculos os dados dos censos de 2001, o que produz erros imensos, principalmente quando compara países com diferentes taxas de crescimento populacional.

            As 3,8 milhões de famílias portuguesas possuem cerca de 6 milhões de unidades habitacionais independentes de acordo com o número de contadores domésticos da EDP e das estatísticas dos censos do INE que passou a incluir o número de fogos. Mas, metade das famílias portuguesas estão ainda pagar 1,4 milhões de habitações e mais de 80% vive em casa própria, contabilizáveis nos rendimentos não monetários, e cerca de 23% do total das habitações estão ainda em pagamento. Os portugueses são o povo europeu com maior número de segundas casas.

            Também são bem visíveis os 5,8 milhões de automóveis com seguro pago, revelado pelo Instituo de Seguros de Portugal, a circular no país europeu que possui a mais densa rede de auto-estradas com quase 25 km por mil km quadrados de área quando os EUA têm apenas 9 e o segundo país mais equipado de rodovias do género, a Holanda, tem 20 km e Alemanha menos ainda.

            Os portugueses possuem mais de 10 milhões de ligações de telemóvel e há muito que têm uma rede extremamente densa de caixas Multibanco e aparelhagem de compra nas lojas.

          .

            Nos 25 anos entre 1980 e 2005, Portugal foi o oitavo país do Mundo com o maior crescimento da riqueza per capita, graças à sua baixa taxa de natalidade. O Mundo cresceu cerca de 68% e os países asiáticos registaram taxas globais da ordem dos 350%, mas a partir de valores extremamente baixos. Tudo recordes nunca observados na história económica mundial.

            O desenvolvimento social com salários mais elevados, segurança social, habitação social, etc. acarreta custos e tornou o continente europeu menos competitivo em fabricos de mão-de-obra intensiva, incluindo Portugal. Há quem critique o facto de o salário médio português ter aumentado 24% nos últimos dez anos quando o alemão subiu apenas 13%. Claro, considerando o ponto de partida, foi o salário alemão que aumentou muito mais. Recorde-se que na Alemanha há o consenso de considerar como salário mínimo o de um carteiro que ronda os 1.400 euros mensais. A Alemanha não tem salário mínimo estipulado por lei.

            A saturação dos mercados é sempre precedida por um período eufórico em que se pensa que a bola do dinheiro gira continuamente para cima. Depois vem a verdade. As acções descem, as dívidas permanecem e ultrapassam o valor dos activos ao mesmo tempo que as vendas diminuem, os mercados encolhem e surge o desemprego com todo o drama que acarreta e custos sociais imensos que podem levar os estados a entrar em insolvência como aconteceu na Islândia e um pouco na Irlanda e na Grécia. Mas, o futuro está à vista e serão mais uma vez as novas tecnologias a provocarem uma saída. O automóvel eléctrico ou híbrido, transportes colectivos mais eficazes e rápidos, os novos sistemas de produção e utilização de energias, as biotecnologias, a protecção ambiental, uma agricultura mais eficaz baseada em novos cultivares e melhor protecção vegetal. Tudo associado a novas organizações empresariais, por ventura baseadas na redução do gigantismo onde a criatividade tenha um lugar mais importante.

            A crise não veio para ficar. A velha gestão empresarial terá de ceder o seu lugar a algo de novo e mais inteligente e o gestor tem de conhecer melhor os seus mercados.

            O que é certo é que os mercados não regulam nada; apenas existem e resultam da interacção humana, são mesmo o mais antigo fenómeno social. Os mercados não podem ser prescritivos ou pré-regulados, apenas podem ser analisados de forma descritiva.

 

 



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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
O que é a Europa?

 

 

Fala-se muito da União Europeia a propósito da eleição de uns deputados que vão ganhar bons ordenados, mas pouco ou nada poderão fazer de concreto. Os poderes do Parlamento Europeu são reduzidos e a União Europeia está muito longe de ser uma Federação ou Confederação de Estados e, nem sequer, é uma União.

 

A EU é uma Aliança de Estados centrada no eixo Paris-Berlin-Roma acrescentado com mais uma cidade importante como Madrid. As Lisboa, Bruxelas, Copenhagen, etc. são pequenos apêndices e Londres está mais fora que dentro da EU.

 

A EU nasce da derrota da Alemanha e da vontade de não se voltar às duas mortíferas guerras por causa de alguns territórios. Os alemães convenceram-se que nunca mais devem entrar sós em aventuras e não lhes apetece liderar seja o que for no Mundo, contendo-se apenas, e não é pouco, em serem a maior potência industrial da Europa e o primeiro exportador mundial. Fora do negócio não querem saber de talibans, africanos, chineses ou seja o que for. Os alemães não reivindicam o perdido território dos Sudetas, a Silésia agora polaca, a Prússia Oriental, etc. Limitam-se a comprar aí o que interessa como a Skoda da República Checa.

 

Enquanto os alemães se guindavam ao lugar de primeira economia europeia, os ingleses que nunca gostaram dos primeiros na Europa Continental, deixaram-se desindustrializar pela política ultra-liberal da Dama de Ferro

 

Por outro lado, a grandeza da França carece de aliados sólidos e, nada melhor, que a velha inimiga Alemanha, agora com divisões militares franco-alemãs e sem jogos de alianças e contra-alianças. A diplomacia alemã não joga com a Rússia contra a França e este país não joga com ninguém contra ou a favor da Alemanha.

 

Tanto a Alemanha como a França são íntimos de Roma e aceitam de bom grado os pequenitos, mas não mudam as suas políticas a favor de alguma outra nação.

 

Temos pois de viver com uma contigentação na importação de automóveis oriundos de fora do espaço europeu porque interessa a franceses e alemães, uma política agrícola para franceses e uma ampla liberdade de entrada de todo o tipo de produtos de mão-de-obra intensiva oriundos da China, Índia, etc.

 

Agora, os marroquinos podem exportar tudo para a União Europeia, incluindo feijão verde, melões, tomates e pepinos a preços incrivelmente baixos que os agricultores não podem praticar. Isto, para não falar em calçado, confecções, etc.

 

Enfim, pergunta-se. O que podem os deputados fazer? O que querem fazer? Como podem proteger as produções e quais as lutas que pretendem travar no Parlamento Europeu para lutar contra o desemprego e o empobrecimento?

 

Dado haver pouco pensamento político em função da realidade europeia, o melhor é falar no Lopes da Mota e no caso Freeport.

 

 



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Sábado, 16 de Maio de 2009
O Pide Nuno Melo e o Censor Palma

 

Grande parte da opinião pública viu nos inquéritos da Comissão da Assembleia da República, com os interrogatórios cheios de má fé de Nuno Melo, um conjunto de actos pidescos. Já o chamam o Pide Nuno Melo.

Agora o Pide Nuno Melo quer ouvir o procurador Lopes da Mota acerca de conversas particulares que terá tido com dois colegas.

A Constituição da República Portuguesa é muito clara quanto às liberdades e garantias de todos, mas todos, os cidadãos portugueses. Ninguém pode ser perseguido por emitir opiniões, escrever, falar, dar entrevistas e muito menos ainda ter conversas particulares com colegas ou seja quem for.

Nuno Melo da direita CDS é um nostálgico da Pide. Sente-se bem no seu papel de inspector ou agente da Pide a interrogar pessoas com a ideia preconcebida de acusar o governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio.

A sanha do Pide Nuno de Melo contra o PS é mais aguerrida que a própria Pide antes do 25 de Abril. Se déssemos votos suficientes ao pide Nuno Melo e ao seu partido não há dúvidas que a polícia de perseguição política voltava a Portugal.

Pretender interrogar alguém sobre conversas particulares e referências que tenha feito seja a quem for não lembra o diabo, ou antes, só lembra ao pide Nuno Melo.

Ao mesmo tempo, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público lembrou-se que fazia parte das suas funções impor uma censura coloquial aos procuradores. Estes, de futuro, só podem dizer aquilo que o também auto-proclamado pide Palma acha bem.

           Palma não compreendeu que, enquanto sindicalista, não tem de se meter nas investigações em curso na Procuradoria da Justiça e, menos ainda, interferir em quaisquer conversas particulares entre procuradores colegas ao mesmo nível hierárquico. Há aqui um evidente desejo de regressar aos métodos da Pide e pressionar todos os procuradores, dando a entender que não podem ser portadores de qualquer verdade.

            Alguém me disse que o Palma seria comunista. Não sei se é verdade, nem acredito muito. Mas que tem maneiras estalinistas tem. Só pela cabeça de um estalinista ou fascista pidesco é que passaria a ideia de ir fazer queixinhas ao presidente da República no sentido de chantagear os seus colegas procuradores quanto às conversas que têm entre si.

            Palma, como muitos sindicalistas, é um inimigo da Constituição e das liberdades que elas garantem e não percebe que não pode intervir na vida e trabalho dos procuradores. Como sindicalista, o Palma foi eleito para defender os colegas e não para impor regras estalinistas ou pidescas.

 

 

Diogo Sotto Maior

 



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Quarta-feira, 13 de Maio de 2009
Direito Alemão

 

 

 

            Tornou-se um hábito dizer o pior possível das leis portuguesas. Geralmente há, mesmo da parte de juízes e outros juristas, uma ignorância muito completa sobre o direito de outros países e uma ideia errada de que outros, só por serem outros, são melhores que os portugueses.

            Pegando na Lei alemã sobre insolvências e falências encontramos no Artigo 130 esta “brilhante” determinação: Todo o pagamento feito a trabalhadores, fornecedores, etc. durante os três meses anteriores à declaração de falência é reversível para a massa falida, desde que seja do conhecimento dos recebedores a situação de insolvência da empresa em questão.

            Vem isto a propósito de que os trabalhadores da falida alemã Qimonda de Dresden têm de devolver os salários recebidos nos três meses anteriores à declaração de falência.

            Alguém imaginou uma lei destas em Portugal? Alguém está a ver os trabalhadores da Qimonda de Vila do Conde ficarem sem trabalho e devolverem o que receberam nos últimos três meses?

            Há quem não acredite numa lei dessas na Alemanha, mas vem no último número da revista alemã “Der Spiegel” de 11.05.09 na página 110 e cita, entre outros casos, o de uma senhora de 35 anos que ficou desempregada e é agora obrigada a devolver 4.559,75 euros de trabalho realizado para uma empresa em que era encarregada do comércio externo e formada nessa área.

            Ela tinha conhecimento de que a empresa estava mal de finanças, mas não insolvente, pois foi-lhe pagando parte do ordenado, a ela e aos outros trabalhadores.

            O absurdo legal alemão não especifica o carácter quantitativo da insolvência, considerando como tal desde que haja dificuldade no pagamento, quando a verdadeira insolvência é a da completa cessação de pagamentos.

            O bom senso diria que há pagamentos a trabalhadores e fornecedores, mesmo que parciais, não há insolvência total. Claro, a lei poderia ser aplicada apenas a sócios e gerentes, pois estes poderão levantar o dinheiro que quiserem da firma.

 



publicado por DD às 23:16
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Domingo, 10 de Maio de 2009
Pré- e Pós-moderno

Para o comum dos mortais, o homem das classes médias, é incompreensível a ganância pelos milhões da parte dos gestores de grandes empresas, nomeadamente bancos, e o facto de, mesmo ganhando muito, ainda são levados a roubarem, apropriando-se de valores que não lhes pertencem directamente e utilizarem os dinheiros das empresas para se rodearem de quadros valiosos e escritórios de enorme luxo em edifícios extremamente vistosos e carros de preço elevado.

            A questão da ganância é típica do homem pré-moderno, arcaico, conservador de direita e tribal, sendo a última a principal característica. Os administradores movem-se em círculos restritos nos quais interessa ter mais que outros ou parecer ou ser mesmo. O círculo é a sua tribo. No fundo, um ordenado milionário e os bens que acompanham equivalem aos cornos ornamentais de um veado, dotado assim pela natureza para atrair as fêmeas. O mesmo sucede com a vistosa cauda do pavão. Trata-se pois de uma herança muito anterior ao nascimento do “homo sapiens”. De resto, é por isso que os empresários compram empresas e formam grupos completamente desnecessários e que povos como o português não pensam no que seria uma sociedade equilibrado, mas sim se o crescimento nos aproxima mais ou menos dos países mais ricos da Europa. Esta é agora a nossa tribo.

            A fortuna ou os adereços animais são meios com que a natureza dotou os machos para a conquista das fêmeas, considerando o “status” sociológico como um factor de superioridade genética e garantia de uma maior produção de prole. O “status” não se mede pois pelo conteúdo material necessário à existência, mas pelo que têm os outros membros da horda, manada ou tribo. O “homo oeconomicus” não existe, o que existe é o “homo animalis”. O homem pré-moderno é pois um exemplar do paleolítico catapultado para a contemporaneidade. Daí que apenas nas finanças e nas ideologias políticas totalitárias é que se move bem. Para além disso, o grande gestor é um actor ou fingidor. Não necessita de ter génio, precisa é que os outros membros da tribo se convençam que é um génio, mesmo que os resultados não sejam nada bons. O mesmo acontece, naturalmente, com o grande político.

            No fundo, o grande gestor é como algumas senhoras dos sanitários de restaurantes ou algo de semelhante. Não cumprem a sua missão de manter a limpeza, mas estão sentadas à entrada perante uma mesa com um pratinho cheio de moedas e fazem um sorriso amigável a todo o utente do serviço. O gajo que for mijar, enquanto aperta a braguilha, sente-se obrigado a depositar, pelo menos, 50 cêntimos no pratinho. A outra que mantém tudo limpo com grande esforço não recebe nada.

            O gestor pré-moderno, conservador e arcaico, é o que “trabalha” o trabalho dos outros. O complexo neo-córtex humano permitiu emancipar-se da própria evolução biológica e criar estratagemas mentais que permitam libertar-se do próprio trabalho e, mesmo assim, gozar de um “status” altamente elevado. Como dizia Emile Durkheim, o pai da sociologia, a natureza humana é formada pela sociedade. A história foi até aos dias actuais, a história dos que não trabalham, mas conseguem gozar de grande consideração.

            Assim, o banqueiro ou gestor é ainda um animal predador disponível para destruir o seu próprio habitat se com isso usufruir de alguma vantagem e disposto a gastar muito mais do que necessita apenas para adquirir um elevado estatuto social.

            Ao invés desse “homo animalis” temos o “homo sapiens moderatus” pós-moderno.

            O homem pós-moderno é um descrente e não é animado pela pressão genética para a procriação, pois sabe que vive num pequeno planeta com quase sete mil milhões de humanos. Ele procura a mulher pós-moderna, bonita e igualitária para formar um casal médio sem necessidade da cornadura de veado. O ideal do pós-moderno é o amor desprovido da animalidade, apenas humano. O homem e a mulher pós-modernos gostam de gostar e amam o amor sem competição.

            Os pós-modernos são fundamentalmente ateus globais; não acreditam nos deuses das religiões do mundo, portanto, nem nos deuses teológicos, nem no deus dinheiro ou deus do poder político. Acreditam naquilo que é mais moderno que o moderno, o futuro, mas para todos mais ou menos por igual.

            “Se tenho o que necessito, por que razão devo ter mais que isso?”, pergunta a si mesmo o homem pós-moderno.

            O homem pós-moderno gosta do trabalho e não se aproveita do trabalho dos outros, não é bom a mandar, mas é melhor a cooperar e a mobilizar o colectivo, é um verdadeiro “homo moderatus”. Talvez seja mesmo as únicas coisas que o homem pós-moderno adora, o trabalho em todas as suas circunstâncias e gostar de gostar.

            O pós-moderno surge como uma mutação consciente do passado, representa a nível cerebral o “genoma mémico” do futuro baseado na solidariedade e comunidade. Mémico de memes ou genes mentais do pensamento evolutivo.

            Se nada há entre o pré-moderno e o pós-moderno é porque a evolução é interior; o pré- e o pós- ocupam os mesmos espaços neuronais, evidenciam-se mais nuns que noutros, tal como aconteceu com a evolução genética e cultural. A evolução para o pós-moderno é actualmente mais vantajosa e permite que a multidão dos humanos seja mais pós-moderna que os poucos banqueiros e gestores pré-modernos ou arcaicos.

 

 



publicado por DD às 23:34
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A Ganância Capitalista

 

 

 

 

 

 

            Apesar dos salários multimilionários dos administradores da banca e de algumas grandes empresas terem diminuído numa média global de 18%, continuam ainda a ser uma afronta aos trabalhadores mais pobres do País e ao facto de muitas das grandes empresas e, em particular, a banca, estarem a viver com apoios estatais como garantias para permitir o fluxo de financiamentos estrangeiros que, mesmo assim, não tem vindo em quantidade significativa porque os gestores milionários não são, afinal, tão bons como deveriam ser.

            O Jornal de Negócios publicou recentemente a lista do que auferem em média os membros dos conselhos de administração e do que ganham em média os trabalhadores das referidas instituições.

            Assim, o mais arrogante dos gestores, Ricardo Salgado, presidente do BE integra um conselho de administração em que cada um dos seus membros recebe uma média de 932.909 euros por ano. Não se conhece o salário particular de cada um, apenas a despesa em salários dos administradores dividida pelo número de indivíduos a ocuparem esses cargos. O presidente, obviamente, ganha mais que a média. Mesmo assim, auferindo uma mensalidade de 66.636 euros, provavelmente brutos, esta é o resultado de uma quebra de 33,7%. Repare-se que o BES paga relativamente bem aos seus quadros e empregados, os quais ganham anualmente 55.254 euros, ou seja, 16,8 vezes menos.

            O Conselho de Administração que mais ganha por cabeça é o da empresa que nos vai ao bolso todos os dias e pretende receber milhões do Estado sob a rubrica “défice tarifário” e agora apresentou ao Governo uma reivindicação chantagista de um apoio substancial ao kWh produzido pelas eólicas. Trata-se do EDP dirigida pelo Sr. António Mexia, cujos membros do C.A. recebem anualmente 1.095.855 euros por cabeça, ou seja, 23,24 vezes que a média dos salários de quadros e trabalhadores que é de 47.154 euros. A bela presidente executiva da afiliada da EDP, a Sra. Ana Maria Fernandes, está num C.A. bem mais modesto com apenas 235.000 euros anuais por cabeça.

            Assim, temos ainda os seguintes valores salariais por pessoa nas diversas empresas cotadas em bolsa e, por sinal, bem mal cotadas:

 

Portugal Telecom: 1.553.306 / administrador e 19.287 / quadro e trabalhador.

Sonae SGPS:        respectivamente 922.500 e 17.917.

Portucel:               respectivamente 904.919 e 51.777.

Cimpor:                respectivamente 797.658 e 26.973

Brisa:                    respectivamente 739.351 e 32.396.

Galp:                    respectivamente 683.167 e 37.354.

Zon:                     respectivamente 637.347 e 34.110.

Jerónimo Mart.:   respectivamente 623.046 e 11.564 euros – é a empresa que mais mal paga aos seus funcionários.

BCP:                   respectivamente 487.571 e 40.520.

Sonae Indústria:   respectivamente 334.042 e 41.400.

Mota-Engil:         respectivamente 216.238 e 17.424 euros. O nosso camarada Jorge Coelho é, sem dúvida, o administrador que aufere o mais baixo salário no conjunto das empresas portuguesas cotadas em bolsa.

 

Saliente-se aqui que a média por quadro e trabalhador parece, por vezes elevada, por serem empresas que empregam bastantes engenheiros e economistas e porque o trabalho mais mal pago como limpezas, guarda de portões, reparações, etc. ser contratado a empresas de fora, pelo que os salários mais mal pagos não entram nas médias.

            A empresa que mais gasta com o seu Conselho de Administração é o BES que desembolsa 12,6 milhões de euros, segue-se a EDP com 7,7 milhões e em último lugar no total de pagamentos ao C. A. Está a Mota-Engil com 1,4 milhões para os sete



publicado por DD às 21:39
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"Média Capital" está à venda para pagar as dívidas do grupo prisa

 

            O grupo capitalista espanhol Prisa que detém a “Média Capital”, por sua vez, proprietária da TVI está a atravessar uma grave crise financeira.

            As dívidas do grupo Prisa de 1,95 mil milhões de euros estão a vencer os seus prazos e este terá de os renegociar com os bancos credores, Naxitis e BNP Paribas de França, o que passa pelo pagamento de parte da dívida, só possível pela venda total ou parcial de muitas das participações em dezenas de empresas do grupo.

            A “Média Capital” é um investimento que os dirigentes do grupo dizem ser estratégico, mas os analistas admitem que 20 a 30% do respectivo capital está mesmo à venda. Os jornais do grupo tendem a vender mesmo a acumular prejuízos, pelo que as estações de televisão ainda valem alguma enquanto não se desvalorizarem de todo. Em Espanha, o governo Zapatero já cedeu à chantagem do grupo e outros empresários privados de televisão e acabou com a publicidade na televisão estatal TVE. Os bancos franceses estão a exigir garantias de valor superior ao das dívidas para as renegociar, considerando a possibilidade de os activos do grupo virem a perder valor nos próximos tempos.

            O grupo Prisa cometeu o erro de adquirir por OPA a empresa televisão por cabo Sogecabe, tendo pago um valor superior ao actual, pelo vai vender a empresa “Digital Plus” e o grupo “Santillana”, além de dispersar parte do capital de “Média Capital” em bolsa ou vender uma tranche importante a algum investidor interessado.

            No último trimestre de 2008, o grupo Prisa apresentou resultados muito maus, o que levou já a mudanças na direcção da respectiva “holding”.

            José Eduardo Moniz, o administrador da TVI, recebeu ordens de Espanha para reduzir em 14% a massa salarial da sua estação, o que, de resto, é uma ordem dos bancos credores para todo o grupo Prisa. Assim, o homem que fez da sua profissão um combate pessoal contra José Sócrates e da TVI a arma fundamental para isso vai estar a braços com a redução salarial e irá, provavelmente, encontrar-se com novos administradores da “Media Capital” no caso de haver comprador para parte das suas acções.

            A “Média Capital” já foi de Pães do Amaral que a teve de vender para pagar as dívidas contraídas com a aquisição da parte detida por um gigante americano dos seguros de saúde. Esse grupo é proprietários de grandes empresas de seguros privados de saúde nos EUA e noutros países, além de investir muito em meios de comunicação, nomeadamente em televisões. A aquisição da TVI começou por ser um meio para o grupo de se lançar activamente nos seguros de saúde em Portugal. Mas, verificou que o Serviço Nacional de Saúde funciona regularmente, pelo que os seguros de saúde não podem ser muito caros. Claro, não souberam fazer bem as contas que resultam da mistura do seguro privado com o SNS. Os médicos privados receitam os medicamentos para o SNS pagar e o seguro privado só paga a consulta. Os americanos não compreenderam o sistema e acreditaram que um sistema privado só funcionaria se o desconto para a Segurança Social deixasse de existir e isso só aconteceria se o SNS não deixasse de pagar o quer que fosse oriundo do exercício da medicina privada.

            De qualquer maneira, a TVI quando foi parcialmente adquirida pelo grupo americano de seguros de saúde iniciou uma campanha violenta contra o SNS de modo a criar um mercado para os seguros privados. Quer dizer, não se tratou de jornalismo de relato de casos de doenças, mas sim de uma estratégia organizada para obter objectivos completamente exteriores a uma estação de televisão ou à actividade jornalística. Nessa altura, o casal Moniz esteve totalmente VENDIDO a interesses americanos que pagavam bem. Agora, na campanha contra Sócrates, estão obviamente vendidos a quem lhes está a pagar bem por isso. Quem será? Eis a questão fundamental.

 



publicado por DD às 00:38
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