Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Sábado, 29 de Agosto de 2009
O Embuste do Apoio às PMEs

 

 

            Mais uma vez volto a falar no embuste das micro e pequenas e médias empresas propalado pelos PSD de Manuela Ferreira Leite e até pelo PCP.

            Falam muito em apoiar esse universo de mais de 250 mil empresas sem considerar os inúmeros programas em curso e sem explicitar bem o que entendem por apoio a esse universo empresaria.

            MFL quer apoiar as micro e PME como alternativa às grandes obras, considerando importantes para o emprego, mas o seu programa está quase só focado (como diz Pina Moura) nas empresas que exportam e não apresenta em concreto nada mais do que está em curso.

            Esse universo de 250 mil empresas inclui os cafés, restaurantes, sociedades de advogados, mediadores de propriedades, oficinas de automóveis, lojas, pequenas indústrias, empresas de informática, pequenos agricultores, pequenos construtores ou empreiteiros, subempreiteiros, etc. A limitação que MFL faz no programa às empresas que exportam, ao contrário do que diz nos discursos, mostra já o seu embuste.

            A realidade é que o grosso das exportações portuguesas tem origem nas grandes empresas com mais de 500 trabalhadores e em todos os sectores e um pouco nalgumas com mais de 250 empregados. Daí para baixo, os exportadores são quase inexistentes e viu-se na televisão que as grandes empresas manufactureiras que exportam e fecharam eram todas de grande dimensão; algumas mesmo com muito mais de mil trabalhadores em sectores como calçado, confecções, cluster do automóvel, etc..

            E se repararmos nos produtos estrangeiros que estão à venda no nosso mercado, são quase todos originários de grandes empresas a começar pelas grandes marcas de roupa, calçado desportivo, computadores, software, automóveis, electrodomésticos, ferramentas, equipamentos industriais, produtos alimentares, farmacêuticos, etc., etc.. Quase não há numa prateleira algum produto de uma empresas estrangeira com 50 trabalhadores, por exemplo, e, nem sequer, com 250 a 500.

 

            Actualmente estão em curso mais de uma dezena de programas de apoios ás PME e empresas em geral, dos quais cito aqui resumidamente alguns:

 

-Linha de Crédito PME INVESTE IV para micro e pequenas empresas com mais de 200 milhões de Euros para empréstimos à taxa da Euribor menos 0,25%, sem comissões, até 50.000 euros para pequenas empresas e 25 mil para micro.

 

-Linha de Crédito para Exportadoras de 200 milhões de euros para empréstimos à taxa Euribor menos 1%, o que dá juros anuais próximos de 1%.

 

Estas duas linhas de créditos oferecem prazos de carência de 3 a 5 anos, tendo já sido enquadradas mais de 20 mil operações. Há aqui garantias do estado e uma percentagem de risco do banco e participação do estado no “spread” negativo.

 

-Linha Qualificação PME para investimentos modernizadores de PME com subsídio de investimento total não reembolsável até 250 mil euros e reembolsável até 750 mil euros, direccionado para a generalidade das empresas classificadas como PME.

 

- Linha Redes de Nova Geração para formação de empresas e investimento com subsídio reembolsável em condições altamente favoráveis até 35% do investimento total.

 

- Linha Inovação com subsídio reembolsável a longo prazo e a juros baixíssimos para investimentos inovadores da generalidade das empresas.

 

- Linha Empreendedorismo Qualificado também com subsídio reembolsável muito especial de 35% direccionado a empresas nascentes classificadas como a PME e a projectos que visem a criação de novas PME.

 

- Linha Fundo Imobiliário Especial de Apoio às Empresas pela via da concessão de liquidez através da aquisição por parte do FIEAE de imóveis das PMEs que enfrentem problemas de liquidez, mas sejam economicamente viáveis, possibilitando o usufruto a baixo custo do imóvel em causa.

 

- Linha Fundo Autónomo de Apoio à Concentração e Consolidação de Empresas (FACCE) com incentivos concedidos sob a forma de participação do FACCE em mecanismos de financiamento de PMEs de demonstrada valia económica em projectos de reestruturação empresarial e Associações em participações.

 

- Linha Iniciativas Locais de Emprego (ILE) com subsídios não reembolsáveis direccionados a indivíduos em situação de desemprego e a jovens à procura do primeiro emprego que se proponham criar uma entidade que origine a criação líquida de postos de trabalho.

 

- Linha FINICIA com incentivos concedidos através de um instrumento combinado de Capital e Dívida destinados a três vectores de intervenção: Projectos de forte conteúdo de inovação; Negócios emergentes de pequena escala; Iniciativas empresariais de interesse regional.

 

- Linha de apoio à Internacionalização de PME em formação para apoiar actividades exportadoras, utilizando o termo internacionalização para evitar conflitos com Bruxelas, já que o chamado “dumping” ou apoio directo à exportação é proibido no seio da União Europeia, coisa que os autores do programa do PSD desconhecem e daí focarem o apoio às PME quase só na exportação.

 

 

Muitos destes programas têm apoios da União Europeia no âmbito do QREN e pode dizer-se que abrangeram já umas dezenas de milhares de empresas, mas, evidentemente, não se destinam a todas as 250 mil PMEs e estão muito dependentes da capacidade dos empresários, pois não se trata aqui de repetir as roubalheiras com os incentivos empresariais feitos nos governos de Cavaco de que resultaram muitas fortunas e nenhum desenvolvimento para o País. Foi quase tudo roubado.

Dar a torto e a direito é criminoso, afecta em excesso as despesas públicas e não conduz verdadeiramente à criação de novos postos de trabalho.

 

De resto, quem trabalha no mercado há dezenas de anos, sabe que as empresas necessitam na maior parte dos casos de equipamentos destinados racionalizar o trabalho e até a dispensar pessoas para subirem para um plataforma superior em termos de custos de produção e variação de produtos em que necessitem então de mais trabalhadores. Em toda a parte está presente a máquina e esta tem a curto prazo um efeito negativo no emprego, mas não a médio ou longo prazo. Muitas vezes, é a máquina que permite colocar o produto no mercado em condições competitivas de preço. Por exemplo, embalar seja o que for à mão pode exigir muitos postos de trabalho, mas conduz sempre a uma falência certa.

Saliente-se ainda a redução para metade do IRC+derrama das empresas com lucros  iguais ou inferiores a 12.500 euros, o que é importante para as micro e pequenas empresas em que o patrão não vive só do lucro, mas principalmente de um ordenado que se atribui a si mesmo e sobre o qual desconta para a Segurança Social. 

 

É pena que tantos economistas e, mesmo Pina Mouras ou Cravinhos, desconheçam de todo o funcionamento dos mercados.

 



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Domingo, 23 de Agosto de 2009
Dieter Dellinger: O Paradigma da Crise Actual

 

            Fazer futurologia com a crise económica actual ou dar conselhos sobre alterações de paradigmas comportamentais representa um grande risco porque muito do que parece irrelevante neste momento pode ser decisivo no futuro.

            A única coisa certa é, sem dúvida, o diagnóstico da situação actual que muitos não querem ver na sua plenitude. Mas, a partir daí tudo pode acontecer.

            Alguns ou quase todos os economistas idosos tendem a ver o futuro como uma simples extrapolação da actualidade e consideram a saída da crise como a própria continuidade da crise por via da alteração dos hábitos de consumo e desaconselham mesmo o endividamento do Estado como factor para promover o crescimento económico e, como tal, para pôr um fim ao desemprego generalizado aos países industrializados e emergentes.

            Os grandes institutos económicos e bancos centrais não sabem ainda em que crise estamos; tipo L, queda brutal como a verificada seguida de um longo período de estagnação; tipo V, queda um pouco menos brutal seguida de uma subida semelhante para o nível anterior; tipo U, queda, seguida de pequena descida e subida em curva para depois se chegar a um crescimento vertical para cima; tipo W, quedas e subidas sucessivas. Tudo sem que haja uma fórmula política a aplicar para dar resultados imediatos como a da injecção de massa monetária com resultados susceptíveis de se dizer que evitaram um eventual agravamento da crise. Mas, nada pode fazer regressar a economia mundial ao artificialismo e loucura financeira de há anos atrás.

            De facto, os governos, incluindo a Reserva Federal Americana e o Banco Central Europeu, injectaram milhares de milhões de dólares e euros nos mercados através dos bancos. A banca em quase todos os países do mundo entrou na zona dos lucros, apesar de muitos bancos não terem ainda recuperado os capitais perdidos.

A banca tornou-se cautelosa, empresta pequenas quantias a juros relativamente altos, não favorece o crédito às empresas, cada vez mais arriscado por falta de clientes que permitam com as suas compras o pagamento das dívidas das empresas, e timidamente vai emprestando qualquer coisa para a compra de casa, mas só cobrindo uma parte do valor das mesmas, apesar da taxa Euribor ser hoje a mais baixa de sempre, inferior a 1% e muitas prestações que há um ano estavam nos 878 euros mensais estão agora a 564, isto para um crédito vigente e inicial de 150 mil euros. Os 1,4 milhões de portugueses que estão a pagar casas adquiridas nos últimos vinte e cinco anos estão a beneficiar de um suplemento de rendimento. Mas, os novos clientes enfrentam “spreads” mais altos e têm de entrar com dinheiro. Claro, estão, por outro lado, a usufruir de preços bastante mais baixos no imobiliário. O fenómeno é global em toda a Europa, EUA e muitos outros países. Os bancos não podem satisfazer plenamente a sua função porque a economia mundial não o permite e não podem regressar aos falsos créditos do passado recente, os verdadeiros fautores da crise. As PMEs são particularmente tocadas pelo fenómeno por não serem transparentes. Existem em número demasiado elevado em Portugal e o Mundo para que se saiba quem é honesto ou não e quem tem possibilidades de pagar ou não, mesmo sendo honesto.

            A inflação tradicional está a dar lugar a uma deflação ou, no melhor dos casos, a inflações próximas dos zero ponto percentuais.

            Por enquanto, os governos não se preocupam com a dívida pública pois acham que o marasmo económico reduz as receitas e provoca igualmente défices orçamentais, mesmo sem gastos públicos suplementares. A economia mundial parece ter caído numa situação em que o despesismo é perigoso e o seu contrário perigoso é. Todos temem o rebentar de uma possível bolha financeira estadual a nível quase mundial sem recurso a elementos salvadores e os estados a “falirem” vão cortar em despesas essenciais, provocando mais desemprego e acentuando a queda na insolvência.

            Tudo porque a economia mundial viveu décadas de artificialismos baseados numa ideia errada de crescimento e exportações a todo o custo, principalmente para os EUA, em que os exportadores financiavam as importações americanas, trocando papel por produtos obtidos com o trabalho árduo dos seus operários e técnicos.

            Japoneses, alemães e chineses financiaram as suas exportações para os EUA e União Europeia e, hoje, enfrentam o problema de uma queda acentuada das suas vendas associada à desvalorização dos títulos de tesouro, obrigações e outro papel adquirido nas praças norte-americanas.

            O artificialismo dos movimentos económicos das últimas décadas leva a que muitos economistas digam que não há saída imediata da crise. Nada pode fazer o Mundo regressar às transacções de papel hipotecário e outro muitas vezes superior ao PIB mundial. A crise não resultou do crescimento, mas sim da especulação irresponsável de bancos e instituições financeiras, as quais promoveram crescimentos reais em muitas economias, nomeadamente nas dos países emergentes e movimentos não menos reais de milhões de contentores cheios de mercadorias que hoje não encontram compradores, a não ser a preços muito mais baixos que os anteriores.

            Contudo, aparentemente, sem crescimento económico, as nações não podem ser governadas democraticamente dada a contínua pressão de sindicatos, partidos de oposição e corporações diversas para aumentar regalias sociais de todo o género e os próprios responsáveis têm de mostrar trabalho, que mais não seja em muitas rotundas, jardins, estradas, etc. De qualquer modo, o crescimento corresponde sempre ao valor do trabalho em função de um vasto conjunto de técnicas e consequentes modos operativos. O crescimento do futuro não pode deixar de assentar em novas técnicas, tal como o crescimento de todas as economias ao longo da história da Humanidade teve sempre como base algo de novo no processamento do trabalho; escravatura, serventia da gleba, técnicas elementares e tracção animal, máquina a vapor, máquinas eléctricas, motores de combustão interna, electrónica e informática e acrescente-se finalmente o crescimento da destruição do planeta que entra nas estatísticas económicas com o sinal positivo quando deveria ser altamente negativo.

            Também as bases do crescimento não podem ser vistas apenas como percentagens. Repare-se o crescimento do PIB chinês em 1% implica o enriquecimento médio de cada cidadão em 1,8 euros, enquanto que o mesmo crescimento de 1% em Portugal implica cerca de 175 euros per capita, logo, quase 10 vezes mais. Interessa hoje é considerar o montante por cabeça do crescimento económico e não a percentagem.

            Com os aparecimento dos países emergentes, nomeadamente os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) com quase metade dos habitantes do planeta surge com premência a questão dos recursos para que estes países possam vir a ter, já não diga o nível dos EUA ou Alemanha, mas de Portugal, o que não seria nada mau para as respectivas populações.

            Repare-se a este propósito que os EUA consomem 123 kg de carne por ano e por habitante, os europeus chegam aos 91 kgs, enquanto que os chineses andam pelos 54 kgs e os indianos ainda menos. Seria impossível que com as actuais técnicas pecuárias todos os habitantes do Mundo possam consumir a mesma carne que os norte-americanos. Para os economistas tradicionais, a questão passa pois pela redução do consumo dos países mais ricos, nomeadamente EUA e Europa. Para outros, o problema é de técnicas de produção, não apenas de carne, mas de alimentos alternativos e isso aplica-se a todo o tipo de produtos de consumo, incluindo automóveis, electrodomésticos, etc.

            Aparentemente, parece bem mais difícil conseguir um equilíbrio entre países mais ricos e pobres do que desenvolver novas técnicas que permitam o crescimento sem desequilíbrio nem destruição ecológica. Veja-se que a electrónica de baixo consumo energético fez entrar nas casas de milhares de milhões de pessoas, televisores, telefones, rádios, computadores, etc. sem rebentar com os sistemas produtores de electricidade, precisamente porque a nova aparelhagem tem consumos quase irrelevantes por via dos semi-condutores. O mesmo poderá acontecer e está já a acontecer com o automóvel que será cada vez mais eléctrico e a electricidade cada vez mais produzida a nível mundial a partir da energia eólica e solar. Os alemães criaram já a empresa Desertec que vai construir no Saara  uma gigantesca central térmica que utilizará como fonte de calor o sol do deserto. A mesma vai ocupar um espaço não aproveitado, proporcionar ao país em for instalado rendimentos acrescidos e fornecer electricidade à Europa. Por enquanto, os espelho focalizadores das radiações solares são caros e também implicam consumo energético, mas tudo indica que a produção em grande escala a nível mundial vai torná-los mais baratos e mais rapidamente amortizáveis em termos de custos contabilísticos. Em Portugal, já foi iniciada a construção de uma fábrica desses espelhos, pois no sul do País como acontece já na Andaluzia, as condições são boas para a produção de electricidade solar não fotovoltaica e esta também pode vir a tornar-se muito mais barata com o aparecimento de novos materiais geradores de corrente directamente a partir das radiações solares.

            Portanto, o crescimento do futuro não necessita de ser destruidor dos recursos naturais de modo a tornar impossível um nível de vida muito mais elevado das populações dos países mais pobres.

            Portugal aposta forte na fileira eléctrica e pode não falhar, pela primeira vez, uma nova revolução industrial se não aparecer um governo disposto a rasgar todo o passado recente.

            O paradigma do futuro não está no social ou no puramente económico, mas sim na física dos materiais e na bioquímica, além de algo mais que pode inopinadamente aparecer. Acrescente-se para finalizar que as apostas no futuro são sempre arriscadas, mas sem riscos não há proveitos no futuro. Não se pode esperar calmamente que outros façam primeiro tudo para sermos nós a importar a altos custos o que está feito.

 



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Dieter Dellinger: Há 70 Anos: Os Primeiros Tiros da II. Guerra Mundial

 

Os convites apresentavam uma enorme cruz suástica e foram entregues por marinheiros corteses. No dia 1 de Setembro de 1939 deveria ter lugar no velho couraçado pré-dreadnought Schleswick-Holstein da marinha germânica uma festiva recepção em honra dos responsáveis alemães e polacos pela cidade livre de Danzig e porto polaco de Gdynia. Danzig, hoje Gdynia, era uma espécie de Olivença alemã cedida à Polónia na sequência da derrota alemã na I. Guerra Mundial e reivindicada pelo regime nazi em conjunto com outros territórios entregues a outros países como os sudetas, então já recuperados pela Alemanha.

 O couraçado que servia de navio-escola de cadetes, datado de 1906, estava amarrado de popa ao porto de Danzig-Neufahrwasser em visita de “cortesia”. Entre este porto e a foz do Vístula situa-se um longo promontório com as fortificações polacas de Westerplatte. A norte existe outra língua de terra com os cais de Hella da marinha de guerra polaca no seu extremo.

A Sociedade das Nações autorizara o estacionamento de uma força polaca de 198 soldados de infantaria no Westerplatte. O comandante dessa força fora também convidado para a recepção a bordo do Schleswick-Holstein, tal como o chefe das alfândegas polacas, o comandante do porto de Gdynia e demais autoridades polacas e os representantes dos 300 mil alemães da cidade dita livre de Danzig. Os convidados esperavam beber vinho do Reno e cerveja bávara, mas em vez disso receberam, pelas cinco da madrugada, granadas dos 4 canhões de 280 mm e 14 de 150 mm que bombardearam impiedosamente a área fortificada de Westerplatte.

O canhoneio naval foi pouco depois acompanhado pelos ataques dos bombardeiros em voo picado “Stukas” (Junkers 87) na tentativa de destruir a marinha polaca e todo o sistema de defesa costeira, mergulhando à velocidade constante de 350 milhas horárias para largar duas bombas de 550 kg ou quatro de 250. Poucas horas depois, os alemães fazem desembarcar tropas que traziam escondidas no velho couraçado alemão e mais uns tantos homens a partir de vedetas rápidas apoiadas pelo fogo do couraçado gémeo Schlesien, mas em vão, retiraram-se para o território alemão limítrofe.            

A guarnição polaca de Westerplatte aguentou heroicamente a agressão germânica durante cinco dias e cinco noites até ser quase totalmente dizimada. Por sua vez, as forças de marinha em Hella resistiram até ao dia 1 de Outubro de 1939, quatro dias mais que a própria capital do país, Varsóvia, e foi mesmo a última porção de território polaco a ser conquistada pelos agressores nazis.

Foram os primeiros tiros disparados na imensa tragédia que foi a II. Guerra Mundial de que resultou a morte de 55.293.500 homens e mulheres, dos quais 7.375.800 foram baixas alemãs. A marinha de guerra alemã perdeu 95 mil homens, tanto a bordo dos navios afundados como em combates terrestres travados por unidades de infantaria de marinha e marinheiros desembarcados, enquanto a “Royal Navy” viu 55 mil dos seus homens morrerem pela Pátria. A maior parte dos marinheiros mortos no conflito ficou em sepulturas sem flores, pois como diz a velha canção marinheira alemã “Não há flores na sepultura do marinheiro”.

À hora em que o velho Schleswick-Holstein iniciava o bombardeamento das posições polacas, as tropas nazis levantavam as barreiras fronteiriças e penetravam na Polónia sem atender aos insistentes pedidos da diplomacia polaca para resolver pacificamente a questão do chamado “corredor de Danzig”, a saída para mar em território ex-alemão concedida à Polónia pelo Tratado de Versalhes que pôs fim à I. Guerra Mundial.

 A ordem de ataque foi dada pessoalmente pelo ditador Hitler, a quem todos os militares e funcionários civis tinham jurado obediência pessoal logo após a morte do velho presidente Hidenburg.

Não houve declaração formal de guerra. Dias antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros Ribentrop conseguiu assinar um Pacto de Não Agressão com o seu colega soviético que dava todas as garantias ao “Reich” (Império) de não se ver envolvido num conflito em duas frentes.

Para o efeito, Estaline viu-se obrigado a substituir o seu ministro para os assuntos exteriores Litinov por Molotov, já que o primeiro percebeu bem o carácter absurdo de tal pacto. Mas quem manda são os ditadores, e a Alemanha foi para a guerra com a aquiescência de Estaline, sem que algum general ou almirante alemão tivesse verdadeiramente apoiado a política de guerra, mas também ninguém teve a coragem de dizer não.

O regime hitleriano não admitia opiniões opostas e era mais do que “sui generis”. Limitava-se à pessoa de Adolfo Hitler que na ocasião era a própria constituição, o parlamento, o governo e tudo mais.            Apesar de ter alcançado o poder de uma forma mais ou menos democrática, Hitler tornou-se rapidamente num ditador por via de uma série de assassinatos e golpes sujos. Perdera as eleições presidenciais de 13 de Março de 1932 com uma diferença de 6 milhões de votos a favor do octogenário Marechal Hidenburg. Mas foi depois nomeado Chanceler pelo presidente eleito quando o seu minoritário partido nazi conquistou 230 lugares num Parlamento de 610 e obteve o apoio do partido centrista cristão e do anterior Chanceler Von Papen. Este tornou-se vice-chanceler de Hitler, pois foi a condição imposta por Hidenburg para nomear o futuro ditador como chefe do Executivo.

Uma vez no poder, Hitler manda os seus apaniguados lançarem fogo ao Parlamento (Reichstag), a 28 de Fevereiro de 1933, acusando os comunistas e socialistas de modo a prender os respectivos deputados.

 Todos os discursos do ditador caracterizavam-se pelo ódio espumante, gritaria e clamorosos erros de gramática, perfeitamente evidentes para todo o conhecedor da língua alemã nos vídeos que estão aí à venda.

Depois do decreto de Hidenburg, Hitler organiza novas eleições em clima de grande pressão com sociais-democratas e comunistas metidos em campos de concentração e os seus jornais assaltados e destruídos pelas milícias SA do Partido Nazi. Mesmo assim, só consegue 44 por cento dos votos. Mas, com mais de 100 deputados eleitos pela oposição presos e com o apoio dos católicos conseguiu que o novo Parlamento reunido na sala da Ópera Kroll, fortemente guardada pelas SA, aprovasse uma lei que lhe conferiu todos os poderes executivos e legislativos, suspendendo a Constituição de Weimar. O pretexto foi a luta contra o desemprego e a crise económica.

Após a morte de Hidenburg, a 2 de Agosto, para não ter de jurar a Constituição de Weimar, Hitler não assume a presidência para a qual uma lei de 1 de Agosto, falsamente assinada por Hidenburg, o designara como sucessor provisório.

O ditador preferiu inventar o título de “Führer” (Condutor da carroças ou da Alemanha), sem qualquer carácter constitucional, e assumir o comando das forças armadas. Mas, não sem que antes tivesse assassinado pessoalmente Ernst Röhm, o chefe das milícias SA, e quase todos os seus principais dirigentes, que o eram também do partido Nazi. O objectivo era consolidar o seu poder puramente pessoal sem que alguém como o chefe das SA pudesse vangloriar-se de ter colocado Hitler no poder.

Hitler foi bem um pobre produto dos erros das democracias burguesas e partidos comunistas que no pós-Grande Guerra de 1914-18 tornaram não só a vida impossível a uma Alemanha pacífica e social como fizeram do pacífico e democrático SPD – Partido Social-Democrata -  o seu principal inimigo.

 

Com a invasão da Polónia, o governo inglês, que tinha um Pacto de Apoio com a Polónia, enviou um ultimato a Hitler para cessar as hostilidades, o que não foi respondido na íntegra. O ditador alemão respondeu que só aceitava uma Polónia polaca, isto é, sem os territórios alemães, bielorussos e ucranianos. Por isso, a 3 de Setembro de 1939, a Inglaterra declara guerra à Alemanha, no que foi seguida pela França. 

Para impressionar os aliados, Hitler convidou os russos a atacarem a Polónia cerca de duas semanas depois, o que fizeram apesar de terem assinado em 1934 um Pacto de Não Agressão com a Polónia em termos muito semelhantes ao que firmaram com os nazis. Mal sabia o ditador Estaline que também viria a ser vítima da mesma falta de ética.

Os aliados anglo-franceses não se impressionaram muito com a agressão soviética à Polónia, antes pelo contrário. Desconhecedores do clausulado do Pacto nazo-comunista, julgaram que a ocupação de parte da Polónia bem como das Repúblicas Bálticas foi uma imposição de Estaline e viram nisso uma evidente fraqueza da Alemanha Nazi e prelúdio de um grande conflito entre esta e a URSS. Daí não terem aceite a proposta de Paz que Hitler fez chegar aos governos da Inglaterra e da França após a conquista da Polónia, na qual comprometia-se a refazer um pequeno estado polaco independente sem os territórios de população alemã nem os que tinham cidadãos ucranianos e bielorussos.

Saliente-se aqui, a título de curiosidade, que o tratado assinado entre a Inglaterra e a Polónia obrigaria os britânicos também a entrarem em guerra com a União Soviética. Foi também essa uma das razões porque Hitler convidou Estaline a invadir a Polónia. Só que tal não aconteceu por não ter qualquer sentido, teria sido mesmo uma espécie de suicídio das duas únicas grandes democracias europeias a entrada em guerra simultânea contra Soviéticos e Nazis. 

Hitler ficou surpreendido com a declaração de guerra da Inglaterra e da França à Alemanha, mas estava preparado para o facto, tanto mais que pensava que os “vermes”, como designava os franceses, não seriam capazes de atacar, deixando-se ficar nos fortes da Linha Maginot. Nessa altura, os ditadores comunistas e nazo-fascistas acreditavam que o Estado centralizado e impiedoso a todo o transe seria sempre mais forte que o Estado democrático. Por outro lado, os aliados tomaram conhecimento da forma silenciosa como o povo alemão aceitou o começo da guerra, quase que de luto. Não houve manifestações, nem a favor nem contra, só o profundo silêncio de um povo que não esqueceu a tragédia da guerra de 14-18 e o tremendo desastre que foi a crise económica de 1929 e anos subsequentes aliado ao drama do desemprego em massa e pagamento de incomportáveis reparações aos aliados

 

Extraído do livro “Um Século de Guerra no Mar”, escrito por Dieter Dellinger, e publicado na Revista de Marinha desde 1995 a 1999 e no blog “História Náutica” http://naval.blogs.sapo.pt

 

 

 



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Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009
Os Clientes do Rendeiro, segundo a Visão de 2003

 

 

Qual é o cliente típico do banco? – Pergunta da Revista Visão de Agosto de 2003 a João Rendeiro, então um dos “meninos bonitos” do muito liberal capitalismo luso:

João Rendeiro: É empresário com idade superior a 40 anos. A conta média no BPP é de cerca de um milhão de euros. Isto não significa que os clientes comecem imediatamente com esse montante. Geralmente abrem conta com 250 mil euros. Entretanto, o banco já fez uma apreciação potencial do cliente e percebeu que pode chegar ao saldo médio típico do banco.

 

V.: Tendo como alvo investimentos médios daquela ordem, a carteira de clientes não tende a estagnar?

JR: Há mais pessoas com um milhão de euros que se possa pensar. E nós próprios, para falar com franqueza, muitas vezes nos surpreendemos com a dimensão do mercado.

 

V.: Qual é a vossa base de clientes?

JR: Temos entre mil e dois mil clientes. Sendo o saldo médio de 1 milhão de euros, temos mais de mil milhões de euros sob gestão.

 

Nessa altura, os capitais próprios do BPP eram de 15 milhões de euros, cobrindo apenas 1,5% dos montantes confiados à sua gestão, o que é tanto como nada e querem agora esses mil a dois mil milionários que os contribuintes entrem com o dinheiro que o genial Rendeiro delapidou.

 

Em 2003, João Rendeiro detinha 15,9% do capital do BPP, mas fazia uma vida de multimilionário com uma colecção já de centenas de obras de arte de grande valor, além de uma vivenda grande luxo no condomínio mais caro do país, ou seja, na quinta que foi do antigo rei do estanho boliviano, o Patino. Pinto Balsemão seria talvez o segundo maior accionista com 7,23% do capital e o cargo de presidente do conselho consultivo do banco, seguindo-se Álvaro Barreto, também do conselho consultivo, Diogo Vaz Guedes, administrador não executivo, Stefano Saviotti também conselheiro, José Miguel Júdice que, como não podia deixar de ser, também estava nesse barco como presidente da assembleia-geral do BPP. O Rui Machete detinha através da sua Fundação Luso-Cia, perdão Luso-Americana, 2,63% das acções e curiosamente o impoluto lutador contra a corrupção, João Cravinho, também fazia parte do conselho executivo do banco, não se sabendo com que percentagem do capital accionista e como lá foi parar o ex-ministro do Equipamento Social do primeiro governo de António Guterres, hoje com um tacho importante no Banco Europeu para a Reconstrução ou Construção ou sei lá o quê. Aníbal Cavaco Silva, dizem as más-línguas, teria então gabinete próprio no BPP, mas não se sabe para fazer o quê? Terá sido a contabilidade?

 

Nessa altura, 2003, sabia-se já na praça que uma parte importante dos negócios de Rendeiro dava prejuízo. Fundamentalmente ele comprava grandes pacotes de acções para os vender com lucro ou deter na esperança de obter bons dividendos, o que raramente acontecia. Há seis anos comprava-se caro e havia dificuldade em vender muito mais caro, apesar de, por vezes, se fazer um ou outro bom negócio. Fundamentalmente, o BPP era uma dona branca, pois deveria pagar uma parte dos juros aos tais clientes milionários com os dinheiros dos clientes que iam entrando. O lucro propriamente do BPP resultava da contabilização de comissões

 

 

 



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