Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Segunda-feira, 23 de Abril de 2007
Opinião de Dieter Dellinger: Energia e Ambiente

         

   As dificuldades que os EUA enfrentam no Iraque, cujo desfecho da actual guerra não permite fazer previsões optimistas e o aparecimento do acutilante Hugo Chávez no país mais rico em petróleo do Continente americano estão a causar grandes preocupações aos dirigentes americanos, tanto republicanos como democráticos. As propostas de Bush quanto ao etanol brasileiro e sul-americano são uma maneira de reduzir a influência de Chávez na América do Sul e levar o petróleo a descer de preço com evidente vantagem para os países tropicais capazes de produzirem muito mais etanol a partir da cana do açúcar que os países subtropicais e temperados a partir do milho, colza, etc. Se os EUA reduzirem os direitos de importação do etanol, a produção será altamente rentável para o campo e produzirá um aumento geral dos preços de toda a produção agrícola com evidente vantagem para os eternos sacrificados e pagadores de todo o desenvolvimento industrial, os agricultores. Saliente-se que a fome em várias partes do mundo não resulta da falta de alimentos, mas sim do seu baixíssimo custo que provoca a miséria de 1.500 milhões de pequenos agricultores que produzem alimentos, mas não obtêm rendimentos para satisfazer as necessidades básicas dos respectivos agregados familiares. A cidade com os seus supermercados explora cada vez mais o campo, qualquer que seja o regime político, pelo que a inversão da situação é uma necessidade absoluta para que haja mais justiça social e mais desenvolvimento no nosso pequeno Planeta.

 

            Os EUA não estão dispostos a repetir os erros do passado. Em 1973 elaboraram leis para reduzir o consumo dos carros e encontrar substitutos do petróleo que foram esquecidas logo que o petróleo desceu de preço. Agora, numerosos estados americanos legislaram no sentido de as gasolinas terem percentagens crescentes de etanol e os gasóleos de óleos vegetais, independentemente de uma queda nas cotações do barril de petróleo vir a tornar os combustíveis de origem vegetal mais caros. Espera-se que depois da tão desejada saída de Bush, um nova administração em Washington venha a elaborar leis federais nesse sentido.

            O petróleo é um combustível a prazo e poderá estar esgotado dentro de algumas décadas ou um a dois Séculos se forem confirmadas as imensas reservas existentes no Golfo do México e noutros locais do Planeta. Mas, se o consumo continuar a aumentar exponencialmente terá de ser feito por parte de todo o Mundo um esforço imenso para o substituir. E tem sido feito, mas a favor do carvão que encerra em si o gravíssimo problema da poluição atmosférica ou emissão excessiva de gases de estufa a provocar um aquecimento global, o degelo das calotes polares e o aumento do nível das águas oceânicas com prejuízos incalculáveis para as zonas costeiras.

            Sendo os EUA a potência científica líder do Mundo, pode afirmar-se que a impossibilidade de resolver o problema da sua dependência relativa aos combustíveis fósseis pela via imperialista não pode deixar de proporcionar um bem imenso à Humanidade. No fundo, os americanos, em conjunto com europeus e japoneses, estão em condições de encontrar a verdadeira solução para a dupla problemática da exiguidade dos recursos petrolíferos do globo e da excessiva emissão de dióxido de carbono com as consequências nefastas para o futuro que toda a comunidade científica mundial já reconhece. Claro, a solução do problema passa em primeiro lugar pelo querer que foi algo inexistente nos EUA.

            Compreende-se que os EUA recusem resolver o problema energético pela via reducionista, apesar de ser inevitável que o venham a fazer em parte. Essa via pode provocar o desemprego de milhões de trabalhadores se também for seguida pelos europeus e outras nações e consistir numa quase proibição da circulação automóvel e num racionamento severo do consumo de energia eléctrica. A civilização tecno-industrial não pode ser reduzida sem que a pobreza e a miséria se alastre por todo o Planeta e venha a provocar convulsões sociais que não deixariam de confluir para guerras violentas.

            A administração Bush recusou a assinatura do protocolo de Kyoto e os republicanos têm atacado publicamente os principais cientistas que alertam para a grave crise mundial que pode resultar do aumento do teor em CO2 na atmosfera.

 

            Além disso, a ciência tem à sua disposição muitas soluções para o problema energético que, não sendo ainda suficientes, apontam para vias possíveis de harmonização entre o ambiente, o emprego e o nível de vida dos povos do Mundo. Só que as soluções imediatas são paliativos parciais e as mais promissoras vão levar ainda uma a duas décadas a serem concretizadas.

            As alternativas ao petróleo são as seguintes:

            - Combustão de carvão com captura do CO2, o chamado carvão limpo, só acessível a países ricos e adiantados e capaz de dar resultados dentro de dez anos ou mais, além do carvão líquido ou gasoso para substituir os combustíveis nos transportes. Contudo, é a alternativas que está a receber mais investimentos, para além do nuclear e da energia eólica, havendo centenas de centrais no Mundo em projecto e construção.

            - Etanol produzido por fermentação de cana do açúcar, milho, soja, colza, cardo, etc., menos poluente e susceptível de proporcionar ganhos relevantes aos agricultores de numerosos países. Pode ser utilizado como combustível único nos motores de automóvel ou misturado com gasolinas. Os fabricantes estão a construir motores do tipo flex que podem utilizar qualquer destas alternativas.

            - Óleo vegetais para misturar aos gasóleos no chamado bio-diesel. Também menos poluente e susceptível de serem produzidos em qualquer país do Mundo.

            - Energias alternativas como a eólica, energia das ondas e hídrica. Estão a ser implementadas em todo o Mundo, particularmente em Portugal, mas têm os seus limites, apesar de serem as únicas que não produzem qualquer emissão de CO2 ou outro gás de estufa, excepto um pouco no fabrico dos respectivos equipamentos.

            - Energia solar, uma das mais importantes alternativas para a produção directa de energia eléctrica pela via dos painéis de silício ou por concentração da radiação solar para a obtenção de altas temperaturas. Totalmente limpa, excepto, evidentemente, na construção dos equipamentos.

            - Hidrogénio nas células de combustível em que há uma electrólise a seco ao contrário com produção de energia eléctrica proporcionada pela reacção de hidrogénio com o oxigénio com libertação de vapor de água. Seria o sistema ideal para carregar baterias, principalmente das baterias construídas laboratorialmente em nanotubos de carbono e que se carregam em segundos. Estas células vão ser utilizadas nos submarinos portugueses que estão em construção e têm proporcionado energia em satélites e naves espaciais.

            - Nuclear. Também de emissão quase nula de gases de estufa e, hoje, menos poluente em resíduos altamente radioactivos, mas mesmo assim, a acumulação dos mesmos em dezenas de países não deixará de preocupar as populações do planeta quanto à segurança das gerações vindouras.

            - Produção de hidrocarbonetos sintéticos a partir do CO2, o que teria a dupla vantagem de eliminar excessos desse gás de estufa e utilizá-lo como fonte de energia. Já realizado em laboratório, mas com um catalisador muito caro, a platina, pelo que só será viável a partir do momento em sejam encontrados catalisadores mais acessíveis.

 

            Para já, o aumento dos preços do barril de petróleo provocou um crescimento desmesurado do consumo de carvão na produção de electricidade, nomeadamente nas gigantescas economias emergentes da China e Índia e mais lentamente noutras, já que 1,5 mil milhões de habitantes do Terceiro Mundo não têm as suas habitações ligadas à electricidade. A queima do carvão em centrais térmicas está a provocar um aumento da poluição em gases de estufa, já que o carvão é 72% mais poluente que o gás natural e 32% mais que os petróleos.

 

Efectivamente, as emissões de CO2 são para a China o maior pesadelo, pois 75% da sua electricidade é produzida em centrais térmicas a carvão e para sustentar o crescimento de quase 10% anuais da sua economia, os chineses inauguram uma central térmica por semana em média e estão a construir a maior central térmica do mundo para 12 GW que produzirá mais electricidade que as três maiores centrais nucleares do mundo e vai emitir mais CO2 que Portugal inteiro, ou seja, mais de 60 milhões de toneladas anuais. O custo é da ordem dos 6% do PIB português.

            Tanto a China como a Índia possuem muito carvão, mas não só. Ao contrário do petróleo, o carvão está muito mais espalhado por todos os continentes e existe tanto na Europa como nos EUA em quantidade muito apreciável. Foi parcialmente abandonado nos países mais ricos devido aos elevados custos de extracção e à poluição, mas está de volta. Mesmo assim, 40% da electricidade mundial é produzida em centrais que queimam carvão, mas em muitos países ultrapassa largamente essa percentagem como na Polónia em que 99% da sua electricidade é de origem térmica com carvão.

            Muita gente defende o direito da China e da Índia de continuarem a queimar carvão, mas a grandeza desses dois estados faz com que as primeiras vítimas da poluição atmosférica sejam os próprios residentes, podendo a poluição excessiva vir a afectar gravemente o crescimento económico e a sustentabilidade das respectivas economias no seu todo. A China está hoje a emitir anualmente mais de quatro mil milhões de toneladas de CO2, o que está a afectar a saúde dos seus cidadãos nas principais zonas industriais.

 

            Claro, o carvão pode vir a ser o grande combustível do futuro se utilizado de uma forma limpa, isto é, com os gases poluentes ligados a sistemas de captura de CO2, dioxinas, partículas, etc. Neste momento, há uma central térmica a funcionar nesses termos na Dinamarca e outra em construção na Alemanha. O CO2 é capturado por um absorvente químico, o mono-etanol amina, mas os respectivos fumos deverão ser reaquecidos para concentrar o dióxido de carbono. O custo total do processo é da ordem dos 50 euros por tonelada de CO2 capturado; bastante caro quando se pensa que para produzir um megawathora de electricidade térmica a partir do carvão emite-se uma tonelada de CO2 e depois de capturado o CO2 terá de ser colocado nalgum lado, nomeadamente injectado em poços de petróleo vazios.

 

            Segundo a revista “Science et Vie”, estão a ser estudados outros processos como o da injecção de oxigénio na combustão para obter uma alta concentração de CO2 a misturar com vapor de água. Claro, com o contra de o custo de produção de oxigénio puro ser igualmente caro. Outra solução parecida é a do “singás” resultante da queima do carvão pulverizado na presença de oxigénio e vapor de água e que terá 65% de monóxido de carbono e 30% de hidrogénio. Este gás algo semelhante ao gás pobres dos antigos gasogénios arde facilmente, produzindo gases de expansão para alimentar turbinas de duplo fluxo como as dos aviões em que a combustão inicial acciona uma primeira turbina e a segunda é accionada por vapor de água super-aquecido. O rendimento é muito elevado, pelo que o combustível necessário será menor e o “singás” ou gás de síntese integrado em ciclo combinado pode servir para accionar turbinas de compressão dos gases de escape da combustão aberta do carvão pulverizado e permitir uma captura mais fácil do CO2.

            Os EUA lançaram-se num projecto ambicioso com a tecnologia do “Singás” que implica um investimento de mais de mil milhões de euros denominado “FutureGen” que deverá produzir electricidade a partir de 2013, semelhante ao projecto europeu “HypoGen” e ao australiano “ZeroGen”. As centrais desses projectos vão produzir electricidade e simultaneamente combustível líquido e hidrogénio. Os críticos do carvão limpo dizem que a exploração mineira e o transporte também são poluidores, mas, claro, não é possível existir vida animal sem emissão de CO2 e todo o trabalho é emissor do dióxido.

           

O ideal é ligar a combustão do carvão à redução do CO2 com produção de hidrocarbonetos puríssimos. Para o efeito, produz-se primeiro hidrogeniões por electrólise solar da água (fotoelectrólise), fazendo passar os referidos catiões por um polímero apenas permeável aos mesmos para depois numa zona de nanotubos de carbono com platina como catalizador dar-se a redução do CO2  que se transforma em vários hidrocarbonetos CxHy como tolueno, octano, dodecano, etc. e vapor de água. Obtêm-se assim gasolinas puríssimas sem os poluentes naturais como enxofre, etc. utilizáveis nos automóveis ou noutras produções energéticas. As próprias viaturas poderão até capturar para os seus depósitos os fumos do escape, todo CO2, desde que o turbo do motor seja utilizado para comprimir os referidos fumos que serão trocados por gasolina nas respectivas bombas. Num automóvel médio, o consumo de 0,1 litro de gasolina produz uns 150 g de CO2, o que significa que se torna necessário um sistema turbo para comprimir o gás do escape ou capturar apenas uma parte do CO2 produzido.

            Fechar o ciclo do carbono é a grande solução, perfeitamente viável desde que haja determinação e financiamento necessário. De qualquer modo, não é provável que algo assim seja posto em funcionamento antes de 2020, mas nunca se sabe, pois basta de repente encontrar o catalisador economicamente viável para pôr todo o Mundo a fabricar gasolinas a partir da reacção de redução do CO2.

Processo de Utilização do Carvão sem Emissões Poluentes - Via Carbonato de Cálcio

 

 

 


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