Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Domingo, 6 de Maio de 2007
Opinião de Dieter Dellinger: Eleições Francesas

 

As eleições francesas revelaram, em primeiro lugar, nas duas voltas, uma afluência quase inédita em eleições daquele país e da Europa em geral. Em segundo lugar, mostraram na primeira volta uma votação insignificante na candidata do Partido Comunista Francês e na dos candidatos da extrema-esquerda e, em parte, no da extrema-direita.

            Só Sarkozy e Segoléne Royal foram capazes de ir à segunda volta, pelo que se pode dizer que só o Partido Socialista teve a capacidade para enfrentar a direita, sendo derrotado por uma margem de pouco mais de 6% de um eleitorado gigantesco e ficando a 3% da maioria absoluta. Milhões de franceses votaram à direita e outros milhões à esquerda no PS.

            Quer isto dizer o quê?

            No meu entendimento é que em França, como em toda Europa, predominam largamente as classes médias que não se revêem nas velhas teorias das classes exploradas pelo grande ou pequeno capitalismo. As contínuas acusações aos Partidos Socialistas de que fazem uma política de direita só levam a que uma parte maior das classes médias votem PSs, nomeadamente as classes médias com os mais baixos rendimentos que não se sentem proletários explorados mas carecem e querem o apoio do Estado na educação, segurança social e saúde sem verem que, para tal, haja a necessidade a estatizar a economia no todo ou em parte. Simplesmente ninguém acredita que a economia estatizada proporcione rendimentos suficientes para uma boa política social. A experiências de quase um século de vários regimes de esquerda demonstram-no à saciedade.

            Os interesses são cada vez mais os de classes médias com muita gente que aspira a posições mais elevadas. O número de licenciados é cada vez maior e de há muito que se pretende que todos os cursos proporcionem uma licenciatura como acontece com os enfermeiros, ex-agentes técnicos, etc., etc. E nas profissões sem curso superior a tendência para a elevação do estatuto social é nítida, tanto na França como em Portugal e noutros países europeus; umas vezes de uma maneira, outras de outra, mas sempre no sentido promocional. Ainda há dias, num dado serviço aberto ao público vi o porteiro com um cartão ao peito com o seu nome e por debaixo “gestor de acessos”. Não estou a criticar, apenas a constatar e perfeitamente de acordo com o facto.

            O gestor seja do que for, o técnico nos serviços públicos das mais elementares tarefas não se sente um proletário; aspira a ser promovido.

            O proletariado que ainda existe e muitos elementos das classes médias de rendimentos mais baixos vêem na emigração um instrumento para que o nível salarias se mantenha o mais baixos possível, pelo que votaram em Sarkozy que lhes deu mais garantis de fazer uma política restritiva de emigração.

 

            Curiosamente, o fenómeno leva a que um certo número de pessoas das classes médias de baixos rendimentos acabem por votar ao lado das das classes médias altas e dos próprios detentores do grande capital, os quais, por sua vez, lutam contra o “promocionismo”, principalmente a nível de Estado, por saberem que isso acarreta mais despesa, logo impostos agravados.

            Podemos é certo analisar a estrutura de uma sociedade em todos os aspectos da sua vertente sociológica, não podemos é encontrar uma solução do agrado de todos. Mas, de qualquer modo, a verdade é que o centralismo político se impôs como solução de sobrevivência de uma esquerda democrática e como instrumento de uma direita política que sabe não poder prescindir das classes médias para favorecer apenas o pequeno grupo dos muitos ricos.

 

            Ninguém teme as revoltas operárias, pois toda a gente sabe que o proletariado não está na Europa, mas sim na China a fabricar e montar os produtos baratos que utilizamos quase diariamente, à custa, é certo, de taxas de desemprego da ordem dos 6 a 8%, mas insuficientes para garantirem a vitória eleitoral seja de quem for.

            A meu ver, as vitórias eleitorais pertencem aos que forem mais convincentes em termos de projectos de futuro que proporcionem o futuro melhor para as classes médias, mesmo que se tenham atingido patamares em que as possibilidades de concretização sejam cada vez mais limitadas.



publicado por DD às 21:41
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