Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Domingo, 23 de Dezembro de 2007
Navegar com Asa Kaite

 

 

 

O primeiro navio comercial equipado com a asa kaite, o “MS Beluga SkySail” de Bremen com 10.000 toneladas de deslocamento.

 

 

 

 

 

 

 

Como a “asa kaite” permite que o navio navegue com ventos de quase todas as direcções menos de proa. 

 

 

 

            

Com o preço do barril de petróleo a aproximar-se dos 100 dólares e na perspectiva de atingir muito mais no decurso de 2008, todos os consumidores de combustíveis fósseis procuram alternativas para os substituir no todo em parte e as marinhas mercantes encontram-se entre os principais consumidores e em simultâneo poluidores do meio ambiente, já que os óleos pesados produzem além do CO2, óxidos de azoto, óxidos de enxofre, etc. e a tonelada do combustível está a subir para mais de 400 dólares.

            Mesmo que se venha a verificar uma das tradicionais pequenas quebras nos preços do crude, a realidade é que tudo indica que a subida continue e seja possível chegar aos “dias negros” do barril a mais de 100 dólares com o rebentar de uma crise mundial de todos os sectores que não tomaram previdências prévias para substituir parte do petróleo por outros sistemas energéticos. A China e a Índia, além de outras grandes nações asiáticas, aumentam o consumo de combustíveis na medida em que as suas economias crescem, enquanto que os grandes consumidores da Europa e dos EUA não conseguem reduções significativas por muito que tenham já feito no campo das energias renováveis e nuclear, mas são os transportes por estrada, mar e ar que se responsabilizam por mais de 60% do consumo de petróleo bruto no planeta.

            A utilização de energia renovável que é o vento nos navios é tão antiga como os próprios navios, mas não de uma forma nova sem mais pessoal e quase automática como a que foi recentemente inaugurada com as chamadas “SkySails” ou Asa Papagaio ou Kaite como a designam os surfistas.

            O engenheiro alemão Stephan Wrages um adepto do surf com vela ou asa fundou a empresa SkySails que lançou depois de muitas experiências as primeiras asas impulsionadoras para quase todos os tipos de navios.

            As asas podem ir dos 500 metros quadrados de superfície aos 5.000 e são de duplo tecido muito fino forrado internamente com hélio. A sua espessura é da ordem dos 48 mm apenas. O material de confecção é a fibra de polietileno Dyneema da empresa holandesa DSM, fibra já conhecida dos fabricantes de cabos para veleiros de competição, coletes anti-balas, luvas especiais, etc. Trata-se pois da fibra mais resistente que há em relação ao seu peso; muito mais pois que uma fibra de aço, sendo flutuante e permite o fabrico de peças muito flexíveis como a asa SkySail com uma aerodinâmica própria para impulsionar navios como o “MS Beluga SkySails”, um porta-contentores de 10.000 toneladas de deslocamento do armador de Bremen “Beluga Shipping”.

            A asa fica geralmente acomodada e enrolada numa gôndola colocada num mastro telescópico na proa do navio, podendo ser solta, logo insuflada com Hélio e largada para subir a uma altura de 250 metros onde apanhará os melhores ventos que impulsionarão o navio de modo a permitir uma poupança em carburante diesel da ordem dos 35% a 50%, o que é significativo com a tonelada da tonelada de carburante a ultrapassar os 400 dólares e chegar mesmo acima dos 500. A asa pode também aumentar a velocidade do navio sem poupar muito combustível.

            A fixação dos cabos da asa pode ser feita no mastro telescópio ou num carril ao longo do navio de modo a funcionar em todas as direcções do vento. Assim, o impulso da asa kaite verifica-se num vasta espaço angular que vai dos 90 e tal graus de bombordo ao mesmo ângulo de estibordo como mostram as fotos que ilustram este artigo. Só em ângulos da ordem dos 100º contra o vento é que o sistema não funciona.

            O sistema começou por ser testado em modelos de porta-contentores de 10 metros, num grande catamaran e num navio de carga de 800 toneladas e sempre com êxito. A força impulsionadora da asa de 500 metros quadrados pode atingir as 150 toneladas, estando garantida a resistência do material da asa e respectivos cabos.

            O facto de a asa kite ser voadora significa que os ventos angulares não inclinam o navio, limitando-se a provocar mudança de posição da própria asa na sua altura de 250 metros. Este facto é muito importante nos navios que levam os contentores empilhados e raramente devidamente seguros e nem sempre com o peso de mercadorias. Por isso algumas soluções anteriores de asas automáticas do tipo das utilizadas nos juncos chineses não tiveram qualquer êxito.

            A asa papagaio pode ser utilizada com ventos até Força 9. Em caso de depressões ou tempestades próximas, a asa pode ser enrolado num espaço de tempo de 45 minutos.

            Nos navios de alto-mar, esta asa tem dado excelentes resultados ao contrário do que acontece em navios fluviais ou costeiros que navegam em águas estreitas. Aí a necessidade de manobra a que a asa obriga não se coaduna com as limitações do espaço de navegação.

            O sistema vélico baseado na asa insuflada funciona automaticamente em ligação a um software apropriado com base nos dados de navegação obtidos a partir do GPS. Seis em seis horas, o computador recebe a posição do navio e os dados sobre os ventos a 250 metros de altitude, calculando automaticamente o perfil mais adequado da rota económica do navio.

            A utilização de asas maiores e mais do que uma está em estudo, sendo a asa da proa e a da popa dispostas em posições que não se podem chocar e enrolar entre si, o que objectiva uma navegação apenas à vela sem o uso continuado dos motores diesel, remetido apenas para a navegação costeira, manobras ou na ausência de ventos suficientemente fortes.

            Enfim, mais um produto da Alemanha, o país que reinventou a mais antiga das energias, a eólica, graças a um pequeno partido ecologista que participou no poder mas não ganhou nada com o seu esforço em prole das energias renováveis pois foi eleitoralmente castigado porque os grandes interesses ligados à energia nuclear e ao petróleo e gás souberam pagar campanhas eleitorais mais agressivas e convincentes para um eleitorado nem sempre informado.

            Publicado por Dieter Dellinger na edição da Revista de Marinha posta à venda no dia 21 de Dezembro de 2007.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por DD às 16:33
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