Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Domingo, 23 de Março de 2008
Reformismo

 

Muita gente critica o actual reformismo dito neo-liberal no nosso País, o qual segue uma linha global que vai de Vladivostok a Vladivostok, passando por Lisboa e todos os países do meridiano e para o Sul e Norte do Planeta.

 

            Dois grandes países comunistas – China e Vietname – fizeram uma política de chamada de capitais multinacionais, tendo concluído que entre o nada fabricar por falta de capital original ou mais-valias anteriores e o oferecimento de mão-de-obra barata havia nítidas vantagens para a segunda via, a do Modo de Produção Capitalista, e com isso enriqueceram e estão a optar por um reformismo com um Serviço Nacional de Saúde apenas instituído há dois anos atrás e um modelo de descontos e reformas semelhantes ao português. Antes havia um arremedo de social a nível da aldeia paupérrima em que todos trabalhavam para os mais velhos e estes trabalhavam até caírem para o lado. Havia também alguns modelos de apoio social a nível de empresas, administrações públicas, forças armadas, policiais, etc., que implicavam a permanência para toda a vida num dado posto de trabalho e tudo pago muito por baixo.

            A China viu o desenvolvimento de Taiwan e copiou o modelo, sendo seguida pelo Vietname e pelo Laos. Outros países como a Índia, Paquistão, Bangla-Desh, Indonésia, Malásia, etc, concorrem entre si para atrair capitais e fornecerem valor acrescentado a baixo custo. O sucesso tem sido enorme e em muitos desses países as enormes taxas de analfabetismo têm diminuído e assiste-se ao aparecimento de milhões de licenciados nas mais diversas engenharias e ciências. Cuba foi buscar grandes grupos hoteleiros para desenvolverem o seu turismo da forma mais capitalista possível e hoje oferece medicina e a custo muito razoável.

            Falar de capitalismo sem analisar estes aspectos é pura hipocrisia. A China é hoje o maior país capitalista do Mundo e está em vias de se tornar a maior potência económica mundial, sendo detentora de quase metade das reservas mundiais em dólares, as quais deposita nos EUA, provocando em parte um excesso de liquidez nos bancos americanos que foram vender o dinheiro (empréstimos) a quem não tinha condições de pagar prestações. Calculo que a desvalorização do dólar nos últimos dois anos provocou à China uma perda de mais de mil e quinhentos milhões de horas de trabalho, tendo em conta o trabalho a meio dólar à hora. Mesmo assim, ninguém está arrependido na China e procura-se fazer cada vez mais do mesmo. O problema começa agora com a escassez de matérias-primas, incluindo petróleo.

            Nos países mais adiantados e semi-adiantados, assistiu-se primeiro à massificação da produção (Taylorismo e Fordismo) e depois do consumo para passar à massificação do ensino, dos cuidados na doença, dos sistemas de reforma, dos subsídios de desemprego, etc. O resultado é que todos os trabalhadores trabalham para todos os trabalhadores. Aqueles que verdadeiramente trabalham para os detentores do grande capital são minoritários. Os lucros da banca foram de 79 cêntimos por dia per capita em Portugal. Distribuídos davam para uma bica e ficavam uns trocos para comprar uma chupeta mais para o bebé.

            Os professores em Portugal deixaram de ser os pedagogos das classes dominantes ou, mesmo, das classes médias. Têm os ciganitos nas suas turmas e todas as crianças dos bairros com problemas ou das famílias africanas, etc. Bem falo com muitos no café e vejo como criticam o “Estatuto do Aluno” que lhe impede de esbofetear o ciganito mal comportado ou outro aluno qualquer e costumam dizer que bastam dois ou três alunos muito difíceis para desestabilizar uma turma.

            Ora isto de professores, médicos, juízes, intelectuais diversos, etc., trabalharem para as classes mais proletárias é muito positivo, mas sai caro ao cidadão contribuinte pois o recebedor dos serviços sociais nem sempre compensa com o valor acrescentado do seu trabalho aquilo que recebe. Para além disso, todas as reformas do passado redundaram num aumento enorme da esperança de vida e ainda bem, mas também não é de graça; o tempo de pagamento de reformas dilata-se e eu compreendo, pois como reformado, vi a minha reforma diminuída pelo aumento de IRS que há três anos atrás era metade do IRS dos activos. Relativamente a uma expectativa criada na altura da reforma, estou a pagar caro um sistema que acho justo pois tenho a consciência que o social não me pode passar ao lado. Não podem ser apenas os outros, os tais que têm, aqueles que ganham isto e aquilo a pagar.

            Sócrates disse há dias que os reformados com mais de 65 anos de idade deixam de pagar taxas moderadoras. Jerónimo de Sousa desclassificou a medida ao dizer que apenas 20% dos reformados é que pagavam taxas moderadoras e que a medida implicavam um gasto de poucos milhões de euros num orçamento de sete mil milhões, se não estou enganado. Na verdade eu vou de vez em quando à médica de família e pago 2,5 euros e fiz recentemente um Raio X muito complicado no Hospital Pulido Valente em que paguei 11 euros. As análises tipo PSA e muitas outras são ridiculamente baratas. Tem razão o PCP ao dizer que a medida não tem grande significado, mas quando em Janeiro aumentaram em 3 ou 4% fizeram uma barulheira danada na AR e nos meios de comunicação como se todos os reformados fossem ficar na penúria. Afinal, agora já não vale nada a isenção.

 

           O reformismo do PS visa viabilizar o social que se vai tornando cada vez mais caro quanto maior é o número de idosos e maior o número de alunos que chegam ao ensino superior e visa os mais pobres em detrimento das classes médias cada vez mais numerosas e compreensivelmente agarradas aos privilégios que conquistaram nas últimas décadas.

          No meu tempo chegavam às poucas universidades do País uma minoria que nem representava 5% das respectivas faixas etárias. Hoje, temos quase meio milhão de alunos a frequentar o superior e 1,6 milhões no ensino não superior e 200 mil professores em todos os ramos de ensino. Esta massificação paga-se e, a meu ver, não há em Portugal um número de milionários suficientemente grande para pagar seja o que for. E nunca houve em parte alguma do Mundo. O Marxismo nunca conseguiu elaborar um sistema redistributivo porque nos processos revolucionários o capital foi destruído e na vigência dos longos governos comunistas na URSS e outros países foi dada uma preferência ao sector militar que custou fortunas escandalosas. Há anos, num artigo que escrevi na Revista de Marinha calculei que a frota soviética do Mar Negro (uma espécie de lago) custava o mesmo que 50 milhões de viaturas automóveis utilitárias que poderiam ter sido construídas para o serviço dos trabalhadores e nada havia nesse quase lago estrangulado pelo Bósforo e Dardanelos que não pudesse ser defendido com poucos mísseis ou aviões com base em terra.

            Saliente-se que o capitalismo norte-americano ia buscar ao Pentágono verbas para meios militares mas que utilizava depois no sector civil como a construção aeronáutica, informática, novos materiais com fibras de carbono e muita coisa mais. O primeiro 707 foi uma adaptação de um avião militar. Na URSS, o militar foi totalmente separado do civil, pelo que o povo soviético pouco ou nada obteve do desenvolvimento de tecnologias avançadas. Hoje, são as multinacionais do Ocidente que estão a instalar dezenas de fábricas na Federação Russa que vive à “terceiro mundo” da exportação de matérias-primas.  

 

          O ideal seria que todos os portugueses pudessem ter um nível de classe média, mas isso significava que cada um ganha e paga o mesmo. O professor utiliza o serviço de um mecânico de automóveis que ganha o mesmo que ele e assim sucessivamente. Mesmo que os ordenados não sejam rigorosamente iguais, acabam por o ser por vias indirectas que têm a ver com o social e até com o não pagamento de impostos de uns tantos que trabalham na “economia sombra”, etc. De fora ficam uns poucos muito ricos e uns tantos muito pobres a receberem rendimentos de inserção, subsídios de desemprego, abonos de família, assistências diversas, etc.

           E trabalhar temos todos. Numa sociedade mais justa não há lugar para muitos a trabalharem muito pouco. Alguns conseguem-no, mas o seu número não pode deixar de ser cada vez mais insignificante no futuro. Isso da reforma após 35 anos de trabalho na função pública e muito antes dos 65 anos de idade era bom, era mesmo óptimo, mas os restantes trabalhadores não têm meios para sustentar muito mais de 3 milhões de reformados.

 

           A solução está nos caminhos seguidos por muitas economias mundiais, ou seja, aumento da produtividade, redução da criadagem, seja em casa ou nas lojas ou nos serviços públicos. Cada um tem de limpar o que suja. Vi isso em Moscovo nos tempos de Brejnev; os inquilinos a limparem o passeio e a rua frente ao seu prédio. Claro, as condições de sujidade eram outras devido à neve e ao gelo.

           Quanto ao capital? Que venha, quanto mais postos de trabalho melhor, quanto mais criatividade melhor, quantos mais empresários como aquele engenheiro que o último Expresso descreveu e que montou uma fábrica de calçado especial de protecção dos trabalhadores e que está já a exportar mais de 800 mil pares por ano. São esses sujeitos que criam as condições para o Socialismo Democrático funcionar. E foi isso mesmo que há tempos me disse um membro do Comité Central do PCP quando lhe perguntei o que achava da China Comunista e Capitalista. Ele disse que o Socialismo carece de meios de produção para funcionar. O Socialismo – dizia o dirigente do PCP – é a transformação do capitalismo e na sua ausência há que o criar primeiro, seja de que modo for.

 

          



publicado por DD às 18:47
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
18
19
20

23
24
25
26
27
29

30


posts recentes

Dívida Pública: Acordo BE...

Suicídio da Europa segund...

Marcelo Condecora Soares ...

Comissária Desconhecida q...

Produção de Automóveis

Défice de 2%

IMPOSTOS

Cronologia da PT deturpad...

Schäuble quer Dominar a E...

Euro ou "Bitcoins" Portug...

arquivos

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2004

Maio 2004

tags

todas as tags

links
subscrever feeds