Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Domingo, 27 de Novembro de 2005
As Duas Faces da China
Geely3.jpg

O "luxuoso" Geely a preço de mini-carro?

As duas faces da China estão hoje presentes nos noticiários internacionais.

Na Feira Internacional do Automóvel em Frankfurt apareceram pela primeira vez três fabricantes chineses de automóveis com uma vasta gama de modelos que cobre quase todos os sectores do mercado.

 

O parceiro técnico da BMW, a empresa Brilliance, mostrou uma notável limusine, a Zhongua, em tudo semelhante aos BMW da série 300, menos no preço naturalmente. Qual a ideia da BMW? Vender aos chineses a corda em que será enforcada, como diria Lenine?

A maior fábrica chinesa, a Geely, apresentou toda uma série de viaturas desde o mais económico que pode ser vendido na maior parte dos países europeus e menos de quatro mil euros até ao Chinese Dragon um carro desportivo semelhante ao Mitsubishi Eclipse e ao Hyundai Coupé, mas por menos de metade do preço com mais de 100 cavalos de potência. E o novo gigante do automóvel chinês, a Jiangling, mostrou toda a sua palete desde o mini-carro ao portentoso todo-o-terreno.

 

Enfim, a China está pronta para encostar coreanos e japoneses à parede e conquistar os mercados europeus e norte-americano, além de outros. Os carros são bem desenhados pelos designers italianos e a engenharia das plataformas bem como os jogs de fabrico e montagem vêm dos melhores endereços europeus. E são empresas como a Porsche, Ferrari, BMW e outras que vendem a melhor tecnologia a quem queira pagar e depois com salários de 50 cêntimos do dólar à hora, sem férias nem 13º ou 14º meses, o milagre surge. Enfim, a China com salários quase 60 vezes inferiores aos alemães e 15 vezes menos que os portugueses vai, sem dúvida, conquistar os mercados do Mundo e levar a Europa do Futuro a atingir os 50 milhões de desempregados.

 

Os chineses pretendem fabricar 7 milhões de automóveis dentro de dois anos. As exportações estão a ser dificultadas por falta de capacidade de carga em navios transportadores de carros que estão todos tomados pelos fabricantes coreanos e japoneses. A Honda que fabrica na China, afretou 100 viagens da China para a Europa para transportar os seus carros feitos na China que o consumidor compra como sendo nipónico.

 

A economia chinesa cresce actualmente a 7% ao ano e já esteve a 10%. Em toda a China surge uma nova classe de empresários e quadros do business que enche os arranha-céus das grandes cidades chinesas e que formam já um mercado para o automóvel de quase 100 milhões de consumidores, menos de 10% da população de 1.3 mil milhões de almas.

Para além desta nova classe, há dois ou três proletariados miseráveis; os que recebem ordenados de 30 a 40 cêntimos do euro, os que recebem 15 a 20 cêntimos no campo e nas cidades e ainda os que milhões que nem recebem salário porque as autoridades não lhe deram o houkou, a licença de residência na área em que trabalham, poupando ao Estado despesas médicas, pensões de reforma, etc. E não podem ter filhos porque sem houkou urbano têm de mandar o filho ou filha para a aldeia a fim de frequentar uma escola rural e má qualidade.

 

HARBIN

 

Para além da exploração dos seus trabalhadores, as autoridades comunistas chinesas não se preocupam muito com o meio ambiente e, menos ainda, com a qualidade da água dita potável das populações com o saneamento básico. Daí o enorme desastre ecológico resultante da explosão numa fábrica petroquímica na área industrial da cidade de Harbin que provocou o derramamento de milhares de toneladas de benzeno que envenenaram as água do rio Shongua de onde são captadas as águas que alimentam a cidade de quase quatro milhões de habitantes da cidade mais uns cinco milhões dos arrabaldes industriais.

 

Harbin é uma grande cidade industrial da Manchúria no Norte da República Popular da China. É uma cidade fria e soturna com excepção da city cheia de grandes edifícios. A indústria é imensa aí, abrangendo siderurgias, fábricas químicas, uma grande fábrica de aviões e uma de mísseis e de muitos outros produtos. O longo Inverno com temperaturas abaixo de zero fez a tradição centenária de Harbin com os palácios e monumentos de gelo, cuja construção entretém jovens chineses de todas as idades até à chegada do curto verão.

 

Harbin é, sem dúvida, a cidade da roupa almofadada com penas de aves. Antes das novas construções, nos tempos maoistas, era cidade proibida a estrangeiros, se bem que muito do antigo é tipicamente russo, já que na cidade se verificou uma presença russa muito intensa no fim do Século XIX e início do XX.

 

O desastre de Harbin foi escondido das populações e o corte do abastecimento de água começou por ser justificado com obras de reparações no sistema. Só quando o elemento tóxico já se aproximava do Rio Amur que separa a China da Federação Russa é que foi anunciado ao público. A população de 9 milhões de habitantes começou por continuar a ingerir água tóxica, não sendo do conhecimento geral o número de mortos. Apenas foi dito que a explosão na fábrica petroquímica causou quatro mortos e sabe-se que dez mil habitantes da zona contígua foram evacuados. Por outro lado, é já sabido que muitas pessoas de idade muito avançada faleceram por falta de água para beber. Ninguém lhes levou a água que tem estado a ser distribuída nas ruas. As escolas fecharam e as pessoas com posses têm estado a sair da cidade.

 

As autoridades comunistas têm estado a desviar as atenções da população com a notícia de um tremor de terra que teria causado o desastre na fábrica e com a previsão de outro tremor de terra que deveria ter acontecido no passado dia 22 de Novembro, mas a terra não tremeu na hora prevista entre as 20 e as 22 horas, nem em qualquer outro dia ou hora posterior. Registou-se um abalo de terra na China, mas a alguns milhares de quilómetros de distância. Os tremores sentidos por muita gente resultaram de ataques colectivos de tosse devido aos químicos que empestaram a atmosfera também. O objectivo das autoridades era levar muita gente a sair da cidade, já que não possuem a capacidade para controlar e abastecer populações de milhões de pessoas e Harbin não passa de uma cidade de província.

De resto, a muitos correspondentes estrangeiros de meios de comunicação internacional não foi autorizada a ida a Harbin; os hotéis tinham ordens para dizer que não havia quartos vagos e o reforço militar e policial nas ruas não levou que alguém tivesse a coragem de receber em sua casa algum jornalista estrangeiro.

 

O governo central da China enviou grande quantidade de camiões militares com depósitos de água potável e muita tropa, incluindo tanques, pois a população tem estado muito agitada ao saber que a mancha tóxica abrange uma distância de 80 km no rio Songhua. O benzeno e o nitrobenzeno derramados são químicos transparentes e, como tal, a sua presença no rio não é visível. Mas são muito voláteis pelo que a sua inalação provoca perturbações metabólicas de carácter mortal. Com o frio que reina na zona, a volatilidade dos dois produtos químicos é menor e, como tal, tanto maior a sua toxicidade. A cidade fronteiriça russa de Chabarowski está a preparar-se para suspender o fornecimento de água à rede geral para consumo e o abastecimento dos seus 650 mil habitantes começa a ser problemático. Os russos criticam o facto de não terem sido informados do derrame que se verificou no dia 13 de Novembro.

O acidente de Harbin que confirma o velho provérbio chinês que diz: “quem se coloca contra a água e contra a vida.

 

O enorme crescimento industrial da China tem sido concretizado à custa da exploração das massas proletárias de origem rural e á custa do ambiente. Em mais de um terço da China, as chuvas são ácidas e o consumo de adubos químicos e pesticidas é quase três vezes superior ao que se verifica na Europa, o que, segundo a OCDE, terá consequências fatais no futuro, principalmente no abastecimento de água aos seus 1,3 mil milhões de habitantes. Mais de 70% dos rios chineses estão irremediavelmente poluídos, incluindo os grandes rios como o Yang Tse, o Haia e o Amarelo. Dos 27 grandes lagos da China, 25 estão perdidos como água para rega ou abastecimento devido à poluição e entre as dez cidades com o ar mais poluído do Mundo, sete estão na China. Mais de 500 cidades chinesas não possuem saneamento básico e metade da água fornecida às habitações não é tratada, tal como quase metade do lixo não é retirado nem tratado. Em 3,6 milhões de quilómetros quadrados do espaço rural, a erosão está a destruir a rentabilidade agrícola futura.

 

A China recebe milhares de toneladas de lixo americano e europeu, nomeadamente computadores deitados fora e muita outra aparelhagem doméstica e industrial, cuja desmontagem provoca também uma grave poluição do meio ambiente.

A China tem gigantescas minas de carvão que ardem há anos por já não haver meios para apagar esses fogos. Segundo a OCDE, o dióxido de carbono lançado para a atmosfera por esses fogos é tanto como o de todos os automóveis na Europa.

Enfim, a China é um perigoso caldeirão que rebentará um dia, pelo que os gananciosos empresários das centenas de milhares de deslocalizações arriscam-se a perder os seus investimentos na China. De resto, não colocam lá robots nem quaisquer máquinas automáticas, é tudo feito com muita mão-de-obra, inclusive os trabalhos com os produtos mais tóxicos.

 


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