Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
Enquanto o sol brilhar no firmamento e o vento soprar

 

 

 

 noite e dia não haverá uma verdadeira crise energética mundial.

            Efectivamente, toda a energia do planeta Terra provém do sol. Os próprios combustíveis fósseis foram o produto das transformações energéticas produzidas pelo sol. Mas, actualmente, esses combustíveis começam lentamente a aproximar-se do esgotamento relativo, como foi previsto pelo Clube de Roma em 1972 quando do início da primeira crise do petróleo.

            Hoje, dependemos um pouco menos dos hidrocarbonetos para a produção de electricidade, mas em compensação o parque automóvel mundial aumentou muito, pelo que o consumo mundial de petróleo atinge praticamente os 87 milhões de barris diários. Além disso surgiram muitos novos países consumidores que sem atingir os níveis per capita dos países mais desenvolvidos não deixaram contudo de representar um factor de crescimento contínuo do consumo de petróleo bruto.

            O paradigma do petróleo como factor energético número um está a sofrer uma profunda transformação, pelo que os meios de transporte têm de depender mais da electricidade ou de outras fontes de energia, nomeadamente o automóvel que começa a ser híbrido e poderá vir a ser completamente eléctrico com as futuras baterias em nanotubos de carbono que permitem o carregamento quase instantâneo e o aumento das distâncias percorridas para valores iguais aos de um depósito de gasolina ou gasóleo.

            Antes do aparecimento das novas super-baterias mais leves e com mais carga, o transporte pode passar para a electricidade com o comboio, os metros de superfície e em túneis e, principalmente, com autocarros eléctricos para o serviço urbano e suburbano, os quais com os seus percursos previamente definidos podem ser utilizados por toda a parte e terem estações de carregamento em determinados locais das suas linhas de operação.

            A produção de electricidade pela via hídrica e eólica é uma realidade, mas tem limitações; o futuro está, sem dúvida, na energia solar.

            A captação pela via fotovoltaica é conhecida e permite bons resultados com investimentos quase astronómicos. Com placas de silício para o fotovoltaico a cobrirem completamente 32 km2 seria possível abastecer Portugal, mas a placas pesada está a ceder o seu lugar ao filme fotovoltaico de produção futura eventualmente mais fácil e de aplicação também mais maneável, mas a captação de grandes quantidades de energia solar transformada imediatamente na placa ou no filme em energia eléctrica continua a estar ligada a superfícies muito grandes e, como tal, boas para regiões desérticas e não tanto para áreas com muita agricultura e ocupação urbana com edifícios em altura e, portanto, menor superfície solar por consumidor.

            O futuro parece vir muito mais da chamada energia termo-solar, ou seja, de grande centrais térmicas com uma fonte de calor produzida pela concentração por meio de espelhos parabólicos da radiação solar em feixes de tubagens absorventes do calor nas quais circula um óleo térmico como o que é utilizado nas centrais nucleares. A partir daí, mas sem radioactividade, o óleo aquecido a 400ºC vai circular em permutadores de calor que transformam a água de um potente circuito em vapor de alta energia para accionar turbinas a vapor ligadas a geradores eléctricos. Tudo como nas centrais nucleares, só que o coração radioactivo é substituído pela referida concentração de raios solares. O sistema idealizado pelo Clube de Roma com a designação de Desertec destina-se a ser utilizado em larga escala no Sul da Europa e Norte de África e, principalmente, no deserto do Saara, onde há espaço e muito sol.

            Os custos destas centrais são muito elevados, pois correspondem por Megawatt aos de uma central a carvão mais o carvão para uns 20 a 25 anos. Isto com os actuais preços da electricidade.

            Contudo, em Espanha estão já 30 centrais deste tipo em construção, sendo três na região de Granada, a primeira das quais, a PS10, já funciona peto de Sevilha, e este ano começará a produzir electricidade uma das grandes centrais de Granada com capacidade para alimentar uma população de 200.000 pessoas. Claro, graças a uma generosa bonificação governamental que permite ao produtor encaixar 20 cêntimos por kilowatt. Recordemos aqui que pagamos nas nossas casas cerca de 11 cêntimos com o IVA e fora a taxa de potência contratada. Um kVA (mil volts amperes) referido nas nossas facturas corresponde a 0,85 kW (mil watts).

            Com o aumento do preço do petróleo que é acompanhado um pouco à distância pelo carvão e gás natural, as novas centrais térmicas podem ser rentáveis.

            Em países como a Espanha e Portugal e Norte de África, significam em primeiro lugar uma produção com meios nacionais, já, no caso peninsular, uma central pode ser inteiramente construído com produtos nacionais. Portugal tem tecnologia suficiente para fabricar os espelhos parabólicos e, bem assim, todo o resto, incluindo a turbina a vapor e os geradores eléctricos.

            Nesse aspecto, a produção de energia eléctrica sem emissão de dióxido de carbono e de base nacional tem uma importância fundamental, mesmo que num próximo ciclo económico rebente a bolha petrolífera, isto é, que as energias alternativas e a redução do crescimento económico produzam uma quebra brutal nos preços do petróleo bruto. Mas, para já vê-se tudo a subir.

            Saliente-se que para além das 30 centrais espanholas em construção há mais uns 50 projectos no Mundo em vias de concretização, principalmente nos EUA. Uma empresa alemã especializou-se no fabrico de tubagens para a absorção da radiação termo-solar.

            A Europa pode instalar grandes centrais termo-solares no Norte de África e receber a energia eléctrica respectiva através de cabos no Mediterrâneo. Por isso, países como Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egipto estão altamente interessados, mas excepto, talvez, a Argélia os outros países referidos não possuem os capitais.

            Mais para o sul, nas costas do Marrocos, ex-Saara espanhol, e Mauritânia, as centrais termosolares podem servir para instalar grandes fábricas de dessalinização da água do mar, além de também poderem servir para a produção de hidrogénio e daí para o fabrico de hidrocarbonetos sintéticos com pouca emissão de CO2. Enfim, a alta do preço do petróleo pode gerar uma vaga de fundo de novas indústrias e tecnologias capazes de revolucionar toda a técnica actualmente utilizada e baseada nos combustíveis fósseis.

 

Foto: Central em Espanha.

 

Texto de Dieter Dellinger

           

 



publicado por DD às 23:52
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Janeiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

Faaleceru o HOMEM da Libe...

Paulo Silva – O Caçador d...

A Europa tem Medo dos Muç...

Dieter Dellinger: Estalin...

Dieter Dellinger: Portuga...

Dieter Dellinger: A Obesi...

Trump vai nomear um Gover...

Dieter Dellinger copiou: ...

Arnaldo Matos acerca de G...

Dieter Dellinger copiou d...

arquivos

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2004

Maio 2004

tags

todas as tags

links
subscrever feeds