Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Quinta-feira, 3 de Julho de 2008
Israel vai atacar o Irão?

 

            Alastra pelos entendidos a convicção de que Israel vai atacar o Irão e destruir ou avariar a fábrica de enriquecimento de urânio em Natanz, a cerca de 1.400 km de Israel.

            Muito recentemente, cerca de 100 F-15I e F-16I participaram num treino sobre o Mediterrâneo e utilizaram um campo de tiro na ilha grega de Creta para disparar algumas munições de ataque terrestre numa espécie de exercício combinado com a Força Aérea Grega. Foi dito que se trataram apenas de manobras vulgares, mas consta que nunca foi feito nada do género enquanto operação de treino e não seria a primeira vez que aviões israelitas entram em acção bélica especial e fora de um quadro de guerra generalizado.

No dia 1 de Outubro de 1985, oito F-15 israelitas atacaram o Quartel Geral da PLO na Tunísia como retaliação do assassinato de três israelitas por  membros do Grupo 17, a guarda pessoal de Arafat. O ataque realizou-se a 2.400 km de distância, tendo os aviões sido reabastecidos no ar pelo B-707 da Força Aérea Israelita. A operação foi bem sucedida, até porque os palestinianos estavam muito bem instalados num edifício próprio frente ao mar e junto a uma praia como que à espera de um ataque.

            Aparentemente, um ataque pelos actuais F-15I e F-16I Sufa israelitas às instalações nucleares do Irão implica apenas um percurso de 1.400 km com sobrevoo de uma pequena parte da Jordânia e do Iraque se for feito com meios aéreos tripulados, pois podem ser utilizados mísseis balísticos e o mais provável é que sejam utilizados ambos os tipos de armas.

            Israel possui actualmente dois tipos de mísseis balísticos, o Jericho II e o III com capacidade para chegarem aos locais em que os iranianos procedem à centrifugação do urânio, enquanto os iranianos têm os mísseis igualmente balísticos Shahab-3 com alcance suficiente para destruírem as instalações nucleares israelitas de Dimona no deserto do Negev. Tanto uns como outros podem levar uma carga letal de 350 a 400 kg e foram construídos para o transporte das bombas nucleares israelitas e iranianas no futuro, mas, obviamente, que Israel não vai atacar com material nuclear, pelo que a bomba convencional que transportam pode ser eficaz apenas contra instalações de mísseis balísticos se a precisão do tiro for suficiente.

            Como Israel possui igualmente os aviões de transporte C-130, pode atacar com a bomba de 9 toneladas guiada americana, a mais potente de todas as bombas convencionais construídas até agora. Cada C-130 pode transportar uma dessas bombas e ser protegido pelos caças.

            Dentro de um pensamento estratégico normal, o ataque israelita deverá ser duplo, utilizando mísseis e aviões contra Natanz e contra os locais em que os iranianos têm os seus mísseis. Não se sabe, evidentemente, quais os meios que atacam o quê, mas é provável que mais uma centena de aviões israelitas sejam utilizados e outros tantos mísseis, incluindo o míssil de impulso electromagnético capaz de avariar sistemas electrónicos. E tudo terá de ser feito no mais breve espaço de tempo, já que os iranianos adquiriram mísseis russos anti-aéreos S-20 que poderão estar operacionais dentro de algumas semanas ou poucos meses e também estão a receber modernos aviões russos que levarão ainda algum tempo a tornarem-se plenamente operacionais. Por outro lado, é do máximo interesse israelita atacar antes da saída do presidente Bush da Casa Branca, dado ser imprevisível a reacção do seu sucessor.

            Um ataque israelita não será o equivalente do que foi feito recentemente contra a Síria para a destruição de um armazém ou instalação nuclear onde tinha acabado de chegar um carregamento de plutónio oriundo da Coreia do Norte. Israel pode desencadear uma guerra prolongada com o Irão. Uma guerra de tiros de mísseis e ataques aéreos com reduzidos efeitos colaterais, pois o Irão poderá continuar a disparar com o que tem e com a precisão possível que ninguém sabe se é muita. De qualquer modo, parece que os meios iranianos são limitados, mas podem significar alguns tiros por mês, a obrigar uma continuada intervenção da aviação israelita contra as bases de lançamento de mísseis, tanto mais que o preço do petróleo ainda mais alto que o actual permitirá a aquisição do material necessário para construir mísseis ou dos próprios mísseis.

            Alguns responsáveis israelitas dizem que o seu país não vai assistir à construção da bomba iraniana nem repetir o erro de 2006 em que deixaram o Hizbollah preparar longamente o ataque a Israel pelo sul do Líbano. Militares e políticos defendem a repetição do ataque fulminante a Osirik em 1981 no Iraque, no qual destruíram aquilo que poderia vir a ser uma central nuclear iraquiana e que nunca voltou a ser reconstruída.

            O Irão pode não ter muitas armas, a sua força aérea é limitada e quase não possui mísseis anti-aéreos, tendo apenas mísseis balísticos, enquanto Israel opera os já vetustos, mas ainda muito capazes, F-16I e F-15I, possuindo alguns lotes de construção bastante recente e, como tal, muito eficazes, tanto como material voador como electrónica de combate. Os F-16I de Israel têm uma electrónica de fabrico israelita que se caracteriza por uma grande independência relativamente a meios externos de apoio. Podem pois atacar a grandes distâncias e serem capazes de detectar perigos eminentes.

 

                                     Um F-16I de treino e ataque

 

            Israel recebe um importante apoio anual dos EUA da ordem dos 1,8 mil milhões de dólares por via do acordo de Camp David em que se retiraram da península do Sinai a troco de apoio militar. Por isso, os israelitas têm conseguido adquirir novos aviões e melhorar os mais antigos todos os anos. Além de que os EUA estão em vias de substituir os seus F-15 e F-16, o que dará a possibilidade de fornecer aviões utilizados e bem conhecidos dos israelitas que voam e lutam com ambos os modelos há quase trinta anos e sabem transformá-los, mas principalmente pilotá-los. Um piloto israelita conseguiu a proeza extraordinária de voar com um F-15 que chocou contra outro avião e perdeu uma das suas asas e aterrar são e salvo. Foi um feito único na história da aviação e que demonstra também a notável robustez dos já “velhinhos”  bimotores F-15.

            Os F-15I (I de israelita) são caças de superioridade aérea que podem também ser utilizados no combate ao solo, enquanto os F-16I são utilizados principalmente no ataque a alvos terrestres, mas disparam mísseis ar-ar, nomeadamente os Rafael Phyton 5 que são versões muito modernizadas dos “Sidewinder” que buscam os alvos aéreos pela radiação infra-vermelha. De ambos os tipos, os israelitas receberam a partir de 2000 as versões mais modernas, estando largamente equipados com electrónica de fabrico israelita, a qual tem sido exportada para muitos países.

            A Força Aérea recebeu depois de 2004 um lote de 102 F-16I que vieram em conjunto com o avião Gulfstream V de inteligência electrónica com radares de aviso a longa distância e que discretamente controlam e informam qualquer formação de ataque e defesa aérea.

            Enfim, por enquanto os israelitas possuem uma importante superioridade relativamente ao Irão e outros países árabes, mas podem estar a perdê-la.

            A haver um ataque e a permanecer um estado de guerra israelo-iraniana, o preço do petróleo pode subir para valores astronómicos, tão nervoso está o mercado ainda sem conflito. Os iranianos ameaçam bloquear o Estreito de Ormuz com minas e mísseis, estando a marinha americana preparada para o impedir, o que significa disposta a entrar em guerra, mesmo que só aero-naval. Por aquele estreito sai o petróleo do Kuwait, Iraque, Emiratos e parte do saudita. Nem vale a pena pensar em números, mas 300 dólares ou mais pelo barril pode não ser exagero, pelo que a guerra será do agrado de todos os países produtores de petróleo, a não ser que os EUA acabem por conquistar alguns países produtores e impor pela força um preço mais baixo.

 



publicado por DD às 00:13
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