Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Sábado, 26 de Julho de 2008
Os Perigos Ambientais do Nuclear

 

 

            No passado mês de Maio, durante a troca de varetas de combustível nuclear, a água radioactiva encheu o tanque de água de arrefecimento da Central Atómica de Almaraz. A referida água transbordou o tanque e criou um sério problema que levou bastante tempo a ser resolvido e pode ter deixado graves sequelas nalguns trabalhadores da central situada à beira do Tejo. Nada é dito sobre se essa água acabou por ir para o rio que banha Lisboa, mas tudo indica que sim.

            Por sua vez, em Novembro de 2007, na central nuclear de Ascó, também na habitual troca de elementos de combustível, houve uma queda de material radioactivo poeirento na piscina do reactor, mas parte do mesmo foi aspirado por uma aparelhagem de renovação do ar, o que levou os trabalhadores a tentarem limpar os respectivos filtros sem desligar o sistema para não fazer parar a central nuclear. Uma certa quantidade de poeira radioactiva libertou-se para o exterior e na central afectou a saúde dos trabalhadores envolvidos na limpeza, o que os levou a contactarem a secção espanhola da “Green Peace” que alertou a opinião pública, mas com alguns meses de atraso.

            Em Espanha há uma autoridade de vigilância das suas oito centrais nucleares que deveria publicitar todos os acidentes, mas só o faz depois dos trabalhadores apresentarem queixas junto de movimentos ecologistas diversos, pois os dados estão manipulados pelas empresas detentoras das centrais e pelo próprio Estado. No caso de Ascó, verificou-se que os alarmes foram alterados para deixarem passar uma quantidade de radioactividade proibida por lei.

            Ainda recentemente, a imprensa espanhola fez eco do facto de não haver controle radioactivo nos camiões e comboios que entram e saem das centrais e foi a “Green Peace” que detectou a presença do isótopo radioactivo Cobalto 60 trazido para o exterior por algumas viaturas, o que originou um inquérito nas Cortes Espanholas.

            As centrais nucleares espanholas funcionam com grande falta de transparência num secretismo absoluto com ausência de respeito pelo ambiente e saúde de trabalhadores e população, o que é tanto mais grave quanto muitas das referidas centrais ultrapassaram já o seu limite de idade. Entre elas conta-se a de Almaraz com mais de 30 anos de existência e que se pretende ver prolongada a sua perigosa existência por muitos anos ainda.

            Enquanto sucede isto em Espanha, na vizinha França não param as panes em série. No passado dia 23 de Julho registou-se mais uma fuga radioactiva na maior central nuclear do Mundo, a de Tricastin, situada no sul da França bem perto da Cote d’Azur. Um porta-voz da central teve de confessar publicamente que centenas de trabalhadores ficaram “ligeiramente” contaminados quando 18 mil litros de um líquido com urânio radioactivo verteu para o exterior na sequência de trabalhos de limpeza radioactiva das varetas usadas de material nuclear feitos por uma empresa contratada para o efeito. Uns dias anos, aconteceu outra fuga na fábrica de varetas de combustível em Romans-sur-Isére a partir de uma canalização mal verdade que deixou sair 750 gramas de urânio. Um dia depois, na central de Saint-Alban, no sudoeste da França, 15 trabalhadores sofreram fortes doses de radioactividade durante trabalhos de inspecção.

            As pessoas contaminadas vão contrair cancros diversos dentro de não muito tempo e poderão falecer prematuramente, mas só agora é que a opinião pública francesa começa a ser alertada para o perigo do funcionamento das centrais nucleares e para a mentira que significa dizer-se que são “amigas do ambiente” por não produzirem CO2.

            A Central de Tricastin com quatro gigantescos reactores nucleares construída nos anos setenta começa a revelar os efeitos do tempo com avarias sucessivas e muitas libertações de material radioactivo para o exterior. As instalações ocupam um complexo gigantesco com 600 hectares para produzir mil milhões de kilowats por hora. Trabalham aí 6 mil pessoas a soldo da empresa francesa Areva que possui em França 59 reactores responsáveis por 80 por cento da produção de energia eléctrica da França e por uma continuada contaminação radioactiva do meio ambiente, dado que muitos deles registam já a provecta idade de mais de 40 anos, o que os tornam perigosos, mas imensamente lucrativos pois estão inteiramente amortizados e no nuclear o mais caro é a própria central.

            Nas imediações de Tricastin, as vacas pastam num campo imenso semeado de plantas forrageiras, debaixo do qual estão armazenados nada menos que 15 mil metros cúbicos de resíduos radioactivos da central e do sector militar. A Cooperativa local que vendia um vinho conhecido com a marca “Côteaux du Tricastin” mudou de nome para enganar os consumidores.

            Se fizesse o relato muito extenso das avarias e fugas das centrais nucleares alemãs nunca mais terminava o texto e começa a ser preocupante que muitos países do Mundo com pouca experiência e poucos hábitos de rigor industrial estão a querer construir centrais nucleares.

            Na China, após os recentes tremores de terra, foram vistos muitos soldados das unidades de artilharia nuclear naquela região onde existem centrais nucleares e fábricas de ogivas atómicas. Os soldados fizeram muitas medições com detectores Geiger, mas nada foi comunicado para o exterior.

            Aumenta a dispersão de materiais radioactivos num ambiente mundial cada mais densamente povoado com o inerente crescimento das doenças cancerígenas que os governo não querem ver estudadas e, menos ainda, dadas a conhecer ao público. A falta de transparência e o secretismo absoluta é típico de tudo o que diz respeito ao nuclear.

            Em Portugal, as associações patronais querem iniciar estudos sobre a implantação de uma grande central nuclear. Mas, sem estudar cuidadosamente os perigos da contaminação radioactiva ambiental nenhum estudo terá valor.

          



publicado por DD às 01:47
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1 comentário:
De António a 22 de Fevereiro de 2011 às 20:53
Gostei bastante deste post, mas tenho que discordar em alguns níveis, daí este comentário.
O nuclear, na discussão que tem corrido nos media portugueses é visto como um bicho papão, fonte de problemas sem nenhumas vantagens. De acordo que quando há incompetência e má fiscalização, os resultados são dantescos, mas na grande maioria o nuclear apresenta factores a considerar para uma economia como portugal, dependente de hidrocarbonetos para a produção da maioria da sua energia. No que diz respeito á incidência de patologias carcinogénicas, a grande maioria deve-se a exposição ambiental, tanto a químicos como a riscos biológicos que acabam por potenciar este tipo de abominação celular e em menor número a fugas de radiação nuclear.
Dito isto, há que considerar que apesar de todas as renováveis, o país não pode ficar as escuras, e que se queremos ser independentes energéticamente devemos apostar em algum tipo de produção. A filosofia dos Hidrocarbonetos está acabada, o que me espanta é não ouvir ninguém em Portugal a falar da "tecnologia ITER" nem da sua futura aplicabilidade em território nacional. As politicas energéticas de portugal são um pouco sombrias. Como se pode explicar o investimento em fábricas de baterias e em carros com baterias e não promover centrais de captura de hidrogénio, carros movidos a electricidade por célula de combustivel? Temos muito que debater no campo da sustentabilidade energética, e muito que aprender, mas para um olho treinado cada vez mais se vislumbra um socialismo comprado com interesses escondidos onde o regime e não o povo são o interesse fulcral. O nome não é socialismo mas sim corporativismo, é por isso que cada vez mais desacredito deste partido travestido de socialista.


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