Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Segunda-feira, 21 de Novembro de 2005
Porque Morreu o Sargento João Paulo Pereira
humveeafghan.jpg



Se alguém perguntar a um soldado em serviço no Afeganistão ou Iraque onde é que ele NÃO queria estar em caso de ataque bombista, mina ou emboscada, a resposta seria sempre a mesma, num Humvee, mesmo blindado.



O sargento João Paulo Roma Pereira morreu dentro de um desses veículos que os americanos inventaram para substituir os Jeeps e outras viaturas de multiserviços gerais. O carro também é denominado Hummer, chamando-se de origem “High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle” e é fabricado pela AM General.



A viatura do sargento Pereira parecia ser do tipo blindado (armored). Mesmo assim, a mina explodiu mesmo por baixo na zona do tablier, o que provocou o choque dos dois homens da frente contra o tecto blindado com encolhimento da viatura, enquanto os da retaguarda ficaram incólumes. Ou foi uma mina magnética que detonou por acção do metal do motor ou então de comando à distância por rádio ou telemóvel, já que não houve contacto dos pneus com a mina que não se estragaram sequer. O mais provável é ter sido do tipo magnético, já que nas fotos do DN não se vislumbra qualquer fio. A largura do carro é tal que as rodas e pneus não sofreram danos visíveis. E o tempo que leva o telemóvel a ligar não permite uma tal precisão. As empresas de telemóveis devem ser obrigadas a aumentar ainda mais o tempo entre a chamada e a recepção noutro telemóvel de modo a evitar ataques bombistas contra alvos em movimento por accionamento de um telemóvel.



O Humvee é, sem dúvida, um carro notável, mesmo o primeiro modelo, o M-998, mas pensado para outras guerras, por estranho que pareça, ou seja, para a guerra convencional à distância em que, apesar das muitas versões tácticas e armadas com metralhadoras ou mísseis anti-tanques, nunca seria o substituto do tanque e a sua utilização táctica seria sempre baseada na grande mobilidade e distante do inimigo, pelo que a sua blindagem muito simples só serviria para uma protecção ocasional contra tiros de algum “sniper” que apareça pelo caminho.



O chassis é constituído por duas embaladeiras de aço-carbono sobre as quais assenta uma carroçaria de alumínio, aço, materiais sintéticos e algum Kevlar para protecção da guarnição.



A plataforma do veículo é de grande altura relativamente ao chão com quatro braços oscilantes ligados a poderosos amortecedores e barras de torção traseiras e dianteiras. Trata-se, como é óbvio, de uma viatura de tracção automática às quatro rodas accionada por um motor diesel de 8 cilindros em V e uma cilindragem de 6.200 cm3 capaz de produzir uma potência de 130 cavalos à baixa rotação de 3.600 rpm. Pesa 2,25 toneladas e faz mais de 100 km à hora na estrada e até no terreno, sendo capaz de atravessar pequenos cursos de água e movimentar-se nos mais diversos solos com inclinações até 60º. Enfim, um carro para o uso táctico semelhante a um Jeep, Land Rover, Nissan e outros armados com canhões sem recuo ou mísseis ou para o transporte de pessoas, munições, etc. A sua verdadeira blindagem seria sempre a distância relativamente ao inimigo aliada à mobilidade que dificulta um tiro certeiro.



Sucede que os americanos entraram no Iraque e no Afeganistão com esses carros e quando a guerra foi um passeio, por via da actuação da Força Aérea, os Humvees atrás dos tanques não conheceram quaisquer dissabores.



O problema surge quando da guerra convencional se passa ao chamado combate assimétrico ou guerra de guerrilha.



Aí, a falta de uma blindagem adequada começou a ser a causa de centenas de mortes de soldados americanos, e não só. Até alemães morreram horas antes do sargento Pereira numa versão muito mais blindada que a portuguesa, a Dingo, que deveria resistir a um roquete de uma RPG-7, o que toda a gente duvida.



Só no Iraque, os americanos colocaram 12.000 Humvees, cujo preço unitário anda pelos 150 mil dólares na versão básica e vieram com as mais diversas versões; desde o tipo carrinha com lona, à ambulância, aos carros metralhadoras ou lança mísseis, todos com a mini-blindagem. Mas os altos-comandos americanos esqueceram-se de os equipar com uma blindagem adequada. Os israelitas receberam viaturas semelhantes e trataram logo de as blindar com chapas de aço laterais, vidros anti-balísticos e uma cobertura de aço duplamente inclinada por baixo para desviar lateralmente o efeito das minas.



Saliente-se que no Pentágono, há lobies poderosas para dotar a Força Aérea com super-aviões, submarinos, super-helicópteros e o exército com os gigantescos tanques “Abrahams”, mas pouca gente interessada nos veículos do tipo jeep. Perante as muitas mortes por minas e bombas ditas de pedra de lancil ou sarjeta, os comandos norte-americanos ordenaram apenas a colocação de sacos de areia no chão da cabine. Posteriormente começaram a encomendar kits de protecção, mas mesmo antes disso, encomendaram a oficinas iraquianas a soldagem de umas chapas laterais para reforçar a defesa do pessoal, o que na maior parte dos casos foi muito mal feito.



De pouco serviram essas chapas e os sacos, já que os Humvees até se incendiavam com cocktails Molotov. Enfim, resolveram fabricar kits com placas de aço revestidas com cerâmica interior, a qual só poderia aguentar um único impacto de bala, pois quebrava-se toda. Os israelitas aconselharam então o uso de pequenos ladrilhos cerâmicos embutidos num material especial à prova de fogo e isolador do calor.



É interessante salientar que o Pentágono quando mandou os kits enviou aparelhos de soldar, mas esqueceu-se dos eléctrodos do plasma, pelo que a conversão dos Humvee sofreu um grande atraso com a perda de muitas vidas de americanos e aliados. Os compradores do Pentágono estão mais interessados em gastar para cima de 100 mil milhões de dólares na compra de aviões F-22, sem equivalente no Mundo, do que equipar as suas forças terrestres com um blindado mais adequado à guerra assimétrica como uma versão modernizada do Cadillac Gauge que Portugal utilizou com o nome de Chaimite para que não dar a impressão que o embargo imposto pela ONU à venda de armas a Portugal tinha sido desrespeitado. Ou mesmo melhorar ainda mais o Humvee para proteger a respectiva guarnição. Se a viatura em que seguia o sargento João Paulo Pereira estivesse equipada com barras semelhantes às dos carros dos ralies, o malogrado militar português não teria sucumbido.



O alto-comando americano não gosta de ser chamado à atenção para certos factos, pelo que não tirou as devidas ilações do desastre que foi a perda de 18 soldados em Magadiscio na Somália, concluindo que resultou de incapacidade dos comandantes de companhia, etc. e ninguém quis acusar o Pentágono de ter mandado tropas em viaturas impróprias para a guerra de proximidade. Depois continuaram na mesma teimosia e só nos finais de 2004 é que decidiram blindar 8.400 viaturas em serviço no Afeganistão e no Iraque e encomendar apenas as versões mais blindadas. Foi numa dessas mais recentes, mas pouco blindadas, que morreu o sargento João Paulo Pereira. Pelas fotos que vi no DN, as viaturas portuguesas têm vidros maiores que os dos modelos super-blindados (up-armored) e as portas são de desenho recto, pelo que se torna difícil identificar o modelo pelas fotos que a Net apresenta em que as janelas balísticas (à prova de bala) parecem ter uma superfície menor e as portas traseiras não possuem a aresta traseira a direito. Claro, o exército nunca informou os contribuintes portugueses da compra daquelas viaturas que já estiveram em Timor e não sei se as que estão no Afeganistão são as mesmas. Mesmo assim, acredito que sejam carros do Modelo M-998 transformados com kits de protecção e, talvez por isso, da guarnição de quatro homens só um foi vitimado mortalmente e outro está muito ferido ou talvez tenham sido adquiridas em Israel, pois só daí é que vi fotos de Humvees com portas perfeitamente rectangulares.



Estes Hummers ou Humvee não servem para longas guerra de guerrilha, pois as forças que estão no Afeganistão (ISAF) – Força Internacional de Assistência à Segurança – não estão em actividade de policiamento, mas a travar uma guerra assimétrica, mas perdida à partida pelas forças superiores. Quando o inimigo é capaz de tudo, mesmo de se imolar como bomba humana, ninguém tenha dúvidas, não há vitória possível. Antevejo um grande desastre para os americanos e seus muitos aliados nas duas guerras, a do Iraque e a do Afeganistão. E será a primeira vez em mais de duzentos anos de história que os aliados vão sair derrotados, apesar de que no Iraque estão ou estiveram tropas de 28 nações, um facto verdadeiramente único na história da Humanidade pelo elevado número de países que formam a aliança no Iraque.



A força deixou de ser o factor dominante da guerra actual. Perante o poder imenso dos EUA mais os seus trinta ou quarenta aliados surgem bolsas de resistência invisíveis, sem organização aparente, que tanto atacam Madrid como Londres ou incendiam carros em França e fazem a vida negra às tropas que ocupam o Iraque e o Afeganistão. Não está ninguém atrás dessas forças, mas simultanemente são muitos os combatentes. É a assimetria total que carece de um profundo estudo em termos de sociologia militar ou da violência. Não chamo terrorismo, porque se trata mais de resistência do que outra coisa, mesmo que seja resistência a algo que nós, os europeus, consideramos como BOM.



Nota: Em Timor, os Humvee serviram para pouco, pois com uma largura superior a 2 metros não encontravam estradas rurais para circular e outras quase não há.




Dsotto




publicado por DD às 23:11
link do post | comentar | favorito
|

4 comentários:
De Dsotto a 14 de Dezembro de 2005 às 22:26
Agradeço a informação do Paulo e admito que se trata de uma viatura construída a partir do modelo americano Humvee. Na verdade, observando as fotos da viatura portuguesa e as das americanas verifico que ambas as viaturas são iguais à excepção de uns pequenos pormenores, nomeadamente o recorte a direito da porta traseira da viatura galega, o que já me tinha intrigado, mas admiti que seria uma questão de modelo ou blindagem especial. E fiz um grande esforço para encontrar na Net a foto de uma viatura igual, mas sem sucesso.

Agradeço pois a sua informação e todas as que possa fornecer sobre assuntos militares, já que tanto o actual governo como os dois anteriores mantêm um segredo absoluto sobre o material militar que é pago por todos nós, os contribuintes.


De paulo a 2 de Dezembro de 2005 às 14:32
Só para lembrar que o veículo vitima do atentado, não foi um HUMVEE, mas sim um URO VAMTAC, e que não é fabricado nos Estados Unidos, mas sim na Galiza.

Não retirando este dado, naturalmente, nada à análise sobre as características deste tipo de veículos


De Rafa a 2 de Junho de 2008 às 23:26
I se voces se preocupacem masi com a morte do meu primo e nao com a porcaria do carro??


De belga a 16 de Janeiro de 2013 às 11:50
ola Rafa
gostaria de partilhar um evento que quase todos os anos o fazemos em honra do teu primo Srg. Roma Pereira,
gostaria de poder falamos sobre isso
Obraço


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Janeiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

Faaleceru o HOMEM da Libe...

Paulo Silva – O Caçador d...

A Europa tem Medo dos Muç...

Dieter Dellinger: Estalin...

Dieter Dellinger: Portuga...

Dieter Dellinger: A Obesi...

Trump vai nomear um Gover...

Dieter Dellinger copiou: ...

Arnaldo Matos acerca de G...

Dieter Dellinger copiou d...

arquivos

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2004

Maio 2004

tags

todas as tags

links
subscrever feeds