Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009
A Crise ctual e os Ciclos de Kondratieff

 

 

No passado mês de Setembro fez 70 anos que o regime comunista de Moscovo assassinou um dos grandes génios do Século XX. Trata-se do economista Nikolai Dmytriyevich Kondratieff, executado numa prisão de Moscovo em 1938 após 8 anos de tortura e prisão, o que envergonha todos os marxistas.                        .

            A Kondradieff se deve a descoberta dos ciclos longos. Para o efeito estudou as variações nos mercados do carvão e aço e a sua ligação com as fases em que se produzem inventos e as em que estes são aproveitados nas novas técnicas.

            Ainda em 2007, o economista canadiano Ian Gordon adaptou os ciclos de Kondratieff à evolução financeira das nações, introduzindo um conceito de prolongada estação do ano, o que leva a considerar que o Mundo está num Inverno económico-financeiro:

            Assim, em síntese, o actual ciclo longo de Kondratieff tem as seguintes fases ou “estações”:

1)      Primavera com início no fim de 1949: A economia começa a renascer das cinzas da guerra mundial e da redução das dívidas de guerra. A confiança regressou e o optimismo instalou-se, mas a concessão e procura de créditos permanecia cuidadosa. Ninguém se esqueceu do Inverno1929-1949.

2)      Verão iniciado por volta de 1966: A actividade creditícia aumenta, a inflação começa, os mercados entram em euforia, as matérias-primas começam a escassear. Esta fase terminou na recessão de 1980-1982.

3)      Outono a partir de 1980-1982: Foi uma época excelente com poucas guerras. A falta de matérias-primas deixou de ser sentida e estas tornaram-se mais baratas, a começar pelo petróleo. Em compensação aumentou o valor da actividade rentista. Em muitos países assistiu-se a um surto da construção civil financiado por créditos baratos. A inflação do não dinheiro (activos mobiliários) permitiu o endividamento dos Estados, a abertura das fronteiras, as deslocalizações para os países emergentes; enfim, a globalização triunfante.

4)      Inverno iniciado por volta de 2000 sem que se tenha dado muito por isso; as temperaturas financeiras permaneciam amenas. Pequenas quedas dos índices da bolsa eram seguidas de novas subidas. A política do juro baixo de Alan Greenspan camuflou um ciclo que deveria ser de “demolição” do endividamento. A falência da gigantesca Enron e das Worldcom nos EUA foi apenas um pequeno um aviso. As explicações foram de culpabilização dos administradores. Talvez seja possível recuar mais no tempo a data do início do actual Inverno, recordando uma queda bolsista de 1987 resolvida com injecções de liquidez por parte de alguns bancos centrais, a deflação japonesa a partir de 1990, a crise escandinava de 1992, a crise asiática de 1997 e a crise russa de 1998. Isto mostra que no interior das fases há também pequenos períodos de Primavera, Verão, Outono e Inverno.

 

 

Os ciclos longos de Kondratieff em todas as suas fases podem durar 60 a 80 anos e cada fase tende a durar uns 20 anos. O actual pico é mais o fim do Inverno que o início de uma longa depressão.

A crise de 1973-1974/5 foi apenas uma fase parcial do Verão devido ao grande aumento do preço do petróleo e algumas matérias-primas que logo a seguir voltaram à normalidade. Os enormes recursos obtidos pelos países petrolíferos foram investidos no Ocidente na compra de armas e bens de grande luxo que proporcionaram lucros tão avultados que houve quem lamentasse a subsequente quebra do preço do “crude”.

 

O actual Inverno de Kondratieff é uma passagem de situação de bem-estar para mal-estar, o que não parecia dramático, pois a análise dos últimos anos da comunicação social generalista deu-nos a ideia de que as sociedades estavam fartas do bem-estar e desejavam o mal-estar a qualquer preço, tão concentrados estavam os noticiários em tudo o que fosse mau. A crise actual é também a consequência de um desenvolvimento natural do excesso de produção e saturação dos mercados. A tese marxista do “Lumpenproletariat”, proletariado esfarrapado, que não consome e provoca a saturação do mercado mais ou menos ricos continua válida. A diferença relativa ao Século XIX é que a situação é global. Curiosamente, o tal proletariado esfarrapado que trabalha para o grande capital é o trabalhador da China Comunista com o seu salário de 50 cêntimos do dólar à hora. Os países europeus, incluindo Portugal, os EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão, Taiwan, etc. são os ricos com mercados saturados.

A China conseguiu rebentar com os mercados ocidentais, mas sofre a mesma sorte, pois as exportações estão em queda. Além disso, a crise significou a perda biliões de horas de trabalha em termos de desvalorização das gigantescas reservas monetárias investidas em activos mobiliários.

A grande infelicidade das economias é que o crescimento resulta sempre de uma intensificação da exploração do trabalhador. Quando se estabilizam os salários relativamente aos aumentos dos preços deixa de haver crescimento significativo.

 

 

 Texto de Dieter Dellinger publicado no "Jornal de Negócios" de 25 de Fevereiro de 2009.

 



publicado por DD às 10:36
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