Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Leonel Moura - Portugal e os seus Inimigos

 

Não estivesse Portugal inserido na Comunidade Europeia e estaríamos agora na bancarrota e muito provavelmente a braços com sublevações e golpes de Estado. E isto porque, por um lado, não teríamos os meios para suster a crise financeira e, por outro, o ódio e a tremenda demagogia que por estes dias anda à solta em blogues, media e declarações políticas se traduziria em violência efectiva.

Mas, mesmo sem golpes o estado "mental" do país político é deplorável. Nestes últimos meses emergiu uma raiva assanhada contra o primeiro-ministro, traduzida numa campanha permanente de acusações e insultos, que vai muito para além da confrontação de ideias. A coisa tomou proporções de um delírio. O caso Freeport é certamente o mais grave, pela evidente manipulação, mas não o único. Vive-se hoje num ambiente em que agentes partidários e jornalistas competem para ver quem consegue inventar a maior calúnia ou proferir a maior ofensa contra José Sócrates. Há muito que se perdeu qualquer racionalidade no debate político ou outro objectivo que não seja amesquinhar e depreciar directamente pessoas concretas. A caça ao homem é, no momento presente, o desporto nacional por excelência.

A consequência desta dinâmica assassina é clara. Estamos a caminhar para tornar o país ingovernável. E se hoje muitos opositores partidários, em particular no PSD, andam ufanos com a sanha anti-Sócrates e a maneira ignóbil como se tenta demolir o Governo, amanhã serão eles a sofrer o mesmo tratamento.

Quero contudo crer que se para uns, nomeadamente os jornalistas, este tipo de campanha representa um novo modus operandi, agora que se perdeu qualquer sentido de ética ou deontologia profissional, já para outros a questão é mesmo ideológica. Pelas entrelinhas das calúnias perpassa uma visão social, a qual, em traços largos, pode ser descrita como sendo essencialmente anti-moderna. Os exemplos são fartos. O horror às tecnologias; o enaltecimento do nacionalismo e do passado; a exaltação do chamado interior e do ruralismo; a valorização do pequeno contra o grande; a inveja perante o sucesso; o escárnio da ambição; a cultura da má-língua e da brejeirice; a defesa do isolamento e a aversão ao estrangeiro; o combate ao cosmopolitismo, à diferença, à diversidade; à criatividade, à inovação.

Em Portugal tem vindo a crescer uma tendência que tende a valorizar tudo o que o País tem de pior.

Ainda recentemente, a entrevista da dra. Manuela Ferreira Leite à SIC mostrou como essa ideologia se exprime de forma esclarecedora. Sabe-se como, sob a capa de um discurso de aparente rigor financeiro, o PSD tem militado contra as grandes obras públicas, nomeadamente o novo aeroporto e o TGV. Questionada que obras faria em vez de um TGV que nos liga ao resto da Europa, Ferreira Leite disse preferir uma intervenção nas linhas ferroviárias para o interior do País. Ou seja, à via rápida que nos une a milhões de europeus, o PSD prefere investir nas ligações para territórios sem escala, de fraca actividade económica e, na maioria dos casos, sem gente. Quanto custaria ao País este tamanho desperdício em nome do populismo? Quanto perderiam as gerações futuras por se verem confinadas ao seu cantinho sem acesso fácil e rápido aos grandes centros urbanos europeus? Como disse alguém: o novo aeroporto ou o TGV saem de facto bastante caro, mas muito mais caro é não os fazer.

Do mesmo modo é sintomática esta enorme paixão, muito exaltada não sem surpresa por PCP e PSD, pelas pequenas e médias empresas. Sendo certo que elas, pela sua quantidade, geram muitos postos de trabalho, não é menos certo que sem escala nenhuma empresa consegue participar activamente no contexto global - e nem sequer no europeu. Para mais, para além do frequente obsoletismo e falta de qualidade do produzido, é nelas que encontramos as piores condições de trabalho, o maior desrespeito pelos trabalhadores, as mais flagrantes manifestações de novo-riquismo. A grande quantidade de pequenas e médias empresas em Portugal é um sinal de atraso e não de desenvolvimento. A maioria não tem condições para sobreviver sem intensa exploração dos trabalhadores, malabarismos de toda a ordem e apoios estatais.

Enfim, há quem esteja muito empenhado em reforçar a nossa pequenez e atraso. Pobre Portugal caso esta gente venha a mandar!
 

 

Publicado no Jornal Negócios de 29 de Abril de 2009

por Leonel Moura 

 
 
Nota: Leonel Moura é um arquitecto e artista plástico extremamente criativo e inventor do robô pintor. A sua criatividade é tal que foi nomeado embaixador da União Europeia para a criatividade.

 

 

 

 

Robotarium X de Leonel Moura no Jardim do Bom Sucesso em Alverca



publicado por DD às 22:21
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