Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Domingo, 10 de Maio de 2009
Pré- e Pós-moderno

Para o comum dos mortais, o homem das classes médias, é incompreensível a ganância pelos milhões da parte dos gestores de grandes empresas, nomeadamente bancos, e o facto de, mesmo ganhando muito, ainda são levados a roubarem, apropriando-se de valores que não lhes pertencem directamente e utilizarem os dinheiros das empresas para se rodearem de quadros valiosos e escritórios de enorme luxo em edifícios extremamente vistosos e carros de preço elevado.

            A questão da ganância é típica do homem pré-moderno, arcaico, conservador de direita e tribal, sendo a última a principal característica. Os administradores movem-se em círculos restritos nos quais interessa ter mais que outros ou parecer ou ser mesmo. O círculo é a sua tribo. No fundo, um ordenado milionário e os bens que acompanham equivalem aos cornos ornamentais de um veado, dotado assim pela natureza para atrair as fêmeas. O mesmo sucede com a vistosa cauda do pavão. Trata-se pois de uma herança muito anterior ao nascimento do “homo sapiens”. De resto, é por isso que os empresários compram empresas e formam grupos completamente desnecessários e que povos como o português não pensam no que seria uma sociedade equilibrado, mas sim se o crescimento nos aproxima mais ou menos dos países mais ricos da Europa. Esta é agora a nossa tribo.

            A fortuna ou os adereços animais são meios com que a natureza dotou os machos para a conquista das fêmeas, considerando o “status” sociológico como um factor de superioridade genética e garantia de uma maior produção de prole. O “status” não se mede pois pelo conteúdo material necessário à existência, mas pelo que têm os outros membros da horda, manada ou tribo. O “homo oeconomicus” não existe, o que existe é o “homo animalis”. O homem pré-moderno é pois um exemplar do paleolítico catapultado para a contemporaneidade. Daí que apenas nas finanças e nas ideologias políticas totalitárias é que se move bem. Para além disso, o grande gestor é um actor ou fingidor. Não necessita de ter génio, precisa é que os outros membros da tribo se convençam que é um génio, mesmo que os resultados não sejam nada bons. O mesmo acontece, naturalmente, com o grande político.

            No fundo, o grande gestor é como algumas senhoras dos sanitários de restaurantes ou algo de semelhante. Não cumprem a sua missão de manter a limpeza, mas estão sentadas à entrada perante uma mesa com um pratinho cheio de moedas e fazem um sorriso amigável a todo o utente do serviço. O gajo que for mijar, enquanto aperta a braguilha, sente-se obrigado a depositar, pelo menos, 50 cêntimos no pratinho. A outra que mantém tudo limpo com grande esforço não recebe nada.

            O gestor pré-moderno, conservador e arcaico, é o que “trabalha” o trabalho dos outros. O complexo neo-córtex humano permitiu emancipar-se da própria evolução biológica e criar estratagemas mentais que permitam libertar-se do próprio trabalho e, mesmo assim, gozar de um “status” altamente elevado. Como dizia Emile Durkheim, o pai da sociologia, a natureza humana é formada pela sociedade. A história foi até aos dias actuais, a história dos que não trabalham, mas conseguem gozar de grande consideração.

            Assim, o banqueiro ou gestor é ainda um animal predador disponível para destruir o seu próprio habitat se com isso usufruir de alguma vantagem e disposto a gastar muito mais do que necessita apenas para adquirir um elevado estatuto social.

            Ao invés desse “homo animalis” temos o “homo sapiens moderatus” pós-moderno.

            O homem pós-moderno é um descrente e não é animado pela pressão genética para a procriação, pois sabe que vive num pequeno planeta com quase sete mil milhões de humanos. Ele procura a mulher pós-moderna, bonita e igualitária para formar um casal médio sem necessidade da cornadura de veado. O ideal do pós-moderno é o amor desprovido da animalidade, apenas humano. O homem e a mulher pós-modernos gostam de gostar e amam o amor sem competição.

            Os pós-modernos são fundamentalmente ateus globais; não acreditam nos deuses das religiões do mundo, portanto, nem nos deuses teológicos, nem no deus dinheiro ou deus do poder político. Acreditam naquilo que é mais moderno que o moderno, o futuro, mas para todos mais ou menos por igual.

            “Se tenho o que necessito, por que razão devo ter mais que isso?”, pergunta a si mesmo o homem pós-moderno.

            O homem pós-moderno gosta do trabalho e não se aproveita do trabalho dos outros, não é bom a mandar, mas é melhor a cooperar e a mobilizar o colectivo, é um verdadeiro “homo moderatus”. Talvez seja mesmo as únicas coisas que o homem pós-moderno adora, o trabalho em todas as suas circunstâncias e gostar de gostar.

            O pós-moderno surge como uma mutação consciente do passado, representa a nível cerebral o “genoma mémico” do futuro baseado na solidariedade e comunidade. Mémico de memes ou genes mentais do pensamento evolutivo.

            Se nada há entre o pré-moderno e o pós-moderno é porque a evolução é interior; o pré- e o pós- ocupam os mesmos espaços neuronais, evidenciam-se mais nuns que noutros, tal como aconteceu com a evolução genética e cultural. A evolução para o pós-moderno é actualmente mais vantajosa e permite que a multidão dos humanos seja mais pós-moderna que os poucos banqueiros e gestores pré-modernos ou arcaicos.

 

 



publicado por DD às 23:34
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