Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Terça-feira, 19 de Maio de 2009
A Saturação dos Mercados

 

            A actual crise tem um único paradigma, o da saturação dos mercados dos países mais desenvolvidos da Europa, dos EUA, Japão e Oceânia.

            De uma ou de outra forma, nesses países a esmagadora maioria da população adquiriu hábitos de consumo e bens e serviços típicos das classes médias.

            As economias de mercado conseguiram abastecer as populações com quase todos os produtos possíveis, um modelo de carro ou qualquer produto para cada bolsa, daí que a pronúncia da simples palavra crise acarrete uma grande retracção no consumo e, logo, nas vendas, na produção e no aumento do desemprego. O ciclo vicioso fecha-se. Com medo da crise aforra-se mais, compra-se menos e alimenta-se a crise.

            A teoria dos ciclos está cheia destas fases de sobreprodução que surgem em períodos relativamente determinados e que tem sido resolvida com o aparecimento de novos produtos que produzem uma nova fase de consumo.

            Veja-se a crise de 1929 e anos seguintes. Verdadeiramente, a crise começou a ser resolvida com o aparecimento do motor eléctrico produzido em massa que alterou todo o equipamento industrial que deixou de estar ligado a grande máquinas a vapor por meio de veios gigantescos e perigosas correias transportadoras. Ao mesmo tempo, o pequeno motor impulsionou o aparecimento do frigorífico caseiro, das máquinas de lavar, aspiradores, etc. Primeiro no EUA e depois na Europa.

            Assistiu-se também a mais de meio Século de construção civil e ao contrário do que muita gente diz, o caso do “subprime” nos EUA não foi tanto devido a empréstimos para a compra de casas a valores especulativos concedidos a pessoas que não tinham casa nem dinheiro para as pagar. O que sucedeu foi que a dinâmica dos construtores levou muita gente a trocar de casa, ou seja, comprando rapidamente uma nova sob a pressão dos vendedores e bancos que ofereciam créditos a juros baixos para vender posteriormente a mais antiga de modo a amortizar a dívida, o que se tornou muito difícil por não haver compradores para casas velhas.

            O paradigma da saturação dos mercados não é do agrado da maior parte das mentes humanas que dão sempre a preferência a uns malvados que cometeram fraudes, auferiram de ordenados gigantescos, etc. É evidente que há aí muita verdade e na economia capitalista o objectivo é sempre o lucro máximo, mas os benefícios da massificação da oferta de bens e serviços não podem ser esquecidos.

            A saturação engendra por si próprio uma redução nas vendas e logo uma quebra no crescimento económico do produto.

            O exemplo português é paradigmático da situação dos países ricos. Recentemente o Banco Mundial estimou Portugal como o vigésimo sétimo país mais rico do Mundo per capita no fim de 2008 com 20.762 dólares por pessoa e o trigésimo segundo em termos de paridade de poder de compra com 21.755 dólares. O Banco Mundial opera com demografias actualizadas a 2008, daí pois o excelente lugar de Portugal num universo de 178 nações do Planeta, mas não considera os 19% de rendimentos não monetários dos portugueses e que fariam subir mais uns dois a três lugares na escala mundial. O FMI utiliza nos seus cálculos os dados dos censos de 2001, o que produz erros imensos, principalmente quando compara países com diferentes taxas de crescimento populacional.

            As 3,8 milhões de famílias portuguesas possuem cerca de 6 milhões de unidades habitacionais independentes de acordo com o número de contadores domésticos da EDP e das estatísticas dos censos do INE que passou a incluir o número de fogos. Mas, metade das famílias portuguesas estão ainda pagar 1,4 milhões de habitações e mais de 80% vive em casa própria, contabilizáveis nos rendimentos não monetários, e cerca de 23% do total das habitações estão ainda em pagamento. Os portugueses são o povo europeu com maior número de segundas casas.

            Também são bem visíveis os 5,8 milhões de automóveis com seguro pago, revelado pelo Instituo de Seguros de Portugal, a circular no país europeu que possui a mais densa rede de auto-estradas com quase 25 km por mil km quadrados de área quando os EUA têm apenas 9 e o segundo país mais equipado de rodovias do género, a Holanda, tem 20 km e Alemanha menos ainda.

            Os portugueses possuem mais de 10 milhões de ligações de telemóvel e há muito que têm uma rede extremamente densa de caixas Multibanco e aparelhagem de compra nas lojas.

          .

            Nos 25 anos entre 1980 e 2005, Portugal foi o oitavo país do Mundo com o maior crescimento da riqueza per capita, graças à sua baixa taxa de natalidade. O Mundo cresceu cerca de 68% e os países asiáticos registaram taxas globais da ordem dos 350%, mas a partir de valores extremamente baixos. Tudo recordes nunca observados na história económica mundial.

            O desenvolvimento social com salários mais elevados, segurança social, habitação social, etc. acarreta custos e tornou o continente europeu menos competitivo em fabricos de mão-de-obra intensiva, incluindo Portugal. Há quem critique o facto de o salário médio português ter aumentado 24% nos últimos dez anos quando o alemão subiu apenas 13%. Claro, considerando o ponto de partida, foi o salário alemão que aumentou muito mais. Recorde-se que na Alemanha há o consenso de considerar como salário mínimo o de um carteiro que ronda os 1.400 euros mensais. A Alemanha não tem salário mínimo estipulado por lei.

            A saturação dos mercados é sempre precedida por um período eufórico em que se pensa que a bola do dinheiro gira continuamente para cima. Depois vem a verdade. As acções descem, as dívidas permanecem e ultrapassam o valor dos activos ao mesmo tempo que as vendas diminuem, os mercados encolhem e surge o desemprego com todo o drama que acarreta e custos sociais imensos que podem levar os estados a entrar em insolvência como aconteceu na Islândia e um pouco na Irlanda e na Grécia. Mas, o futuro está à vista e serão mais uma vez as novas tecnologias a provocarem uma saída. O automóvel eléctrico ou híbrido, transportes colectivos mais eficazes e rápidos, os novos sistemas de produção e utilização de energias, as biotecnologias, a protecção ambiental, uma agricultura mais eficaz baseada em novos cultivares e melhor protecção vegetal. Tudo associado a novas organizações empresariais, por ventura baseadas na redução do gigantismo onde a criatividade tenha um lugar mais importante.

            A crise não veio para ficar. A velha gestão empresarial terá de ceder o seu lugar a algo de novo e mais inteligente e o gestor tem de conhecer melhor os seus mercados.

            O que é certo é que os mercados não regulam nada; apenas existem e resultam da interacção humana, são mesmo o mais antigo fenómeno social. Os mercados não podem ser prescritivos ou pré-regulados, apenas podem ser analisados de forma descritiva.

 

 



publicado por DD às 00:06
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