Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Segunda-feira, 6 de Julho de 2009
Cuidado com os Fundos sem Fundo dos Bancos

 

 

    Como é sabido, a actual crise financeira e económica teve como rastilho os fundos hipotecários e outros. Fundos que enganavam os compradores, julgando que estavam a trabalhar e depositar num banco, quando estavam apenas a comprar um título de propriedade gerido por alguém que desconheciam e sem saberem o que estava a fazer com o seu dinheiro, pois desconheciam em que hipotecas foram investidos os seus dinheiros nem em que acções, obrigações, etc.

 

            Enquanto o Banco Central Europeu vai iniciar a partir de hoje a aquisição de “covered bonds” no valor de 60 mil milhões de euros, gastando 120 euros por cada um dos 500 milhões de europeus da UE, a banca portuguesa e europeia em geral lançou-se em força no negócio dos fundos. Os jornais económicos e de negócios estão a elogiar fundos de nomes altamente estranhos, citando a rendibilidade sem os prejuízos da crise.

 

            Assim, de um “Invesco Pan European Structured Equity” reportam uma rendibilidade de 2,75% anuais no último quinquénio, sem considerar 15,81% de prejuízo nos últimos 12 meses. O Fundo está à venda no Banco Best, no ActivoBank7 e no Banco Big. O Fundo “BPI Reestruturações” registou um prejuízo recente de 14,51% e está gloriosamente à venda no ActivoBank7, no Banco Best, no Banco Big e, naturalmente, em qualquer balcão bancário do País. Ainda há o “Franklin European Small-Mid Growth” com prejuízos recentes de 12,74% que o Sr. Ricardo Salgado Espírito Santo quer impingir através do seu Best, além do “Espírito Santo Portugal Acções” também à venda no ActivoBank7, BES e Best.

 

            O “BANIF Investment Managers” quer vender Fundos de Investimento Imobiliário com a publicidade de que cada um pode comprar uma parte de um edifício alugado ou à venda, isto numa altura em que se conhece a dificuldade em vender ou alugar imóveis. Com mais de seis milhões de unidades habitacionais independentes e sem investidores em fábricas ou escritórios seria um engano adquirir participações de imobiliário desconhecido que até pode não existir.

 

            Os Fundos e as Participações não passam de sistemas mais complexos e refinados da burla Madox. Atraem dinheiro e, conforme as entradas são superiores às saídas, os títulos adquiridos aumentam de valor sem correspondência com a realidade ou na gíria bancária sem colateralidade garantida. Estão aqui incluídos as obrigações emitidas por instituições bancárias que têm ou deveriam ter um colateral como garantia, o que pode ser um conjunto (“pool”) de créditos hipotecários. Deveriam corresponder às “Pfandbriefe” alemãs que serviram no passado para financiar obras públicas, edifícios e fábricas.

            Mas, estes papéis geram falsos valores na medida em que os balcões bancários têm pessoal motivado para os vender e criam uma procura que não corresponde à realidade.

            Um periódico de economia salientou hoje em título de caixa alta que os Fundos de Investimento Nacionais renderam 20% no 1º Semestre. O termo renderam foi aplicado ao aumento de valor, porque se os clientes quiserem desfazer-se de parte dos títulos dos referidos Fundos estes vão cair a pique. A valorização deve-se ao facto de muitas acções terem caído entre 5% a 80% e agora retomaram um pouco o seu valor real, crescendo em cerca de 20%.

 

            Enquanto as oposições reclamam mais e mais apoios às empresas com os dinheiros dos contribuintes, a incorrigível banca lança-se novamente no negócio do papel para criar situações em que o nosso dinheiro terá de voltar novamente para os bolsos dos chamados perdedores.

 

            O movimento financeiro alimenta-se a si mesmo com as entradas e gera uma procura falsa que serve para pagar os juros ou aumentar o capital.

           

            Portugal e quase todos os países europeus necessitam de uma nova legislação sobre os fundos e veículos financeiros de controladores permanentes na banca. Os gestores dos Fundos devem reportar continuamente quais as aplicações e o seu valor actualizado diariamente para que os clientes tenham um conhecimento do que se passa. Mesmo assim, não há certezas, o melhor título pode valer hoje dez euros e amanhã apenas cinco. O melhor é os aforradores terem o maior cuidado e não investir em quaisquer títulos.

 

            Saibam que a bolsa funciona muito sob a acção de investidores diários que hoje compram algo, comunicando por SMS entre si, para no dia seguinte venderem com uma margem de 0,5 a 1%. Se conseguirem lucro durante 150 a 200 dias por ano e trabalharem com um valor mais ou menos avultado acabam por auferir de um excelente rendimento sem o grande risco, já que que se contentam com percentagens muito baixas em cada um dos negócios que fazem a prazo muito curto.

 

            Tudo isto torna expectável que a crise veio para ficar. Ninguém está a aprender nada com ela. Pode ser que se verifiquem várias recuperações, mas certamente seguidas de depressões. Os mercados estão saturados, o jogo do dinheiro contínua, e o problema estrutural das exportações dos países emergentes continua. Saliente-se que a banca portuguesa recebeu recentemente mais de 400 milhões de euros em empréstimos a 1% do Banco Central Europeu. Daí que tenha baixado os seus juros para empréstimo a prazo para um pouco mais de 1% que ficam a 0,80% depois de liquidado o Imposto de Capitais. Contudo, o dinheiro é cedido aos credores a juros gigantescos que atingem os 17% no cartões do tipo Master Card e outros e mais de 6% na compra de casa ou carro..

 

            Recordemos que a crise de 1929 só acabou verdadeiramente com a II. Guerra Mundial. Até 1939 a 1940 ainda havia muito desemprego nos EUA e, claro, nenhum na Alemanha.

 

            Hitler chegou ao poder com sete milhões de desempregados e deixou-o ao fim de 12 anos de ditadura com 7,5 milhões de mortos alemães e muitos mais de outros países.

 

            A crise manteve-se aligeirada durante toda a década de trinta apesar do grande progresso técnico então vivido. Seria pois natural que a crise se mantenha por mais de 25 anos com intervalos num verdadeiro ciclo de Kondratieff, dado que não é previsível uma guerra mundial, pois para isso falta cada vez mais a matéria prima, ou seja, os jovens mancebos para morrerem nos campos de batalha; e mancebas também.

 

            Qualquer política liberal-capitalista só pode vir agravar os problemas. A hora é de rever o socialismo democrático através de uma nova de intervenção estatal.

 

 

 

 



publicado por DD às 22:24
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