Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Terça-feira, 8 de Junho de 2010
Dieter Dellinger: A Loucura Alemã

Ouvi hoje pela Radio Deutsche Welle a Sra. Merkel a apresentar o seu plano de austeridade para a Alemanha. Se não soubesse que a senhora não fala uma palavra de português e que, provavelmente deve confundir Portugal com a Espanha como fez um tal comissário europeu para a economia, julgaria que o discurso dela teria sido escrito pelo Medina Carreira.

A tontinha da Merkel gritava bem alto, não sei se no Parlamento ou numa conferência de imprensa, que os alemães teriam vivido nas últimas décadas acima das suas possibilidades e daí a necessidade de um pacote de poupança governamental da ordem dos 80 mil milhões de euros.

Fiquei espantado e incrédulo, a Alemanha registou em 2009 uma queda do seu Pib de 5,9%, o que é a maior deflação desde os anos vinte do século passado, o que recomendaria um crescimento do consumo interno. Simultaneamente a Alemanha exportou mais de 1,6 biliões (milhões de milhões) de euros e importou cerca de 1,2 biliões, registando um dos maiores saldos positivos de qualquer país do Mundo, o que significa que a economia viveu muito mais da exportação do que do consumo interno e no ano passado, a Alemanha investiu no exterior cerca um bilião de euros, sendo actualmente a nação que regista o maior volume de investimentos externos do Mundo, o que lhe proporciona um PNB ou RN (rendimento nacional) muito superior ao PIB que é duas vezes superior ao português.

Como exportador, a Alemanha ficou ligeiramente abaixo da China, mas por capita as suas exportações são quase 15 vezes superiores às dos chineses, sendo igualmente superiores às americanas, japonesas, etc. e continuam a subir, mas sem que os empresários queiram fazer algum esforço. Um cliente meu esperou seis meses por um Mercedes e outro que teve um acidente num VW Sharon da Auto-Europa quis comprar outra viatura igual e disseram que teria de esperar cinco meses, pelo que foi adquirir outra marca.

A dívida pública alemã atingiu um valor moderado de uns 63% do Pib e o seu défice público foi da ordem dos 5,5%, um número relativamente baixo.

Mesmo assim, a Sra. Merkel lançou um pacote que retira benefícios a todos os reformados e trabalhadores em geral e que pretende reduzir despesas em todos os sectores públicos, o que não se compreende porque o défice público resultou do apoio à banca que incluiu a compra do tal papel que nada valia e que não se deverá repetir este ano.

Os alemães estão na sua tradição de ser um povo exagerado em tudo, tanto na asneira como em aspectos mais positivos. No caso da Merkel, é na asneira, pois o seu pacote económico leva à redução do consumo interno.

Ao longo dos sessenta e dois anos de vida da República Federal da Alemanha, os governantes alemães viveram e continuam a viver com a obsessão da inflação. É certo que a Alemanha viveu uma terrível inflação há um pouco menos de noventa atrás, mas tanta coisa mudou desde então que é impossível a repetição daqueles anos em que o pão custava milhões de marcos e o senhor dos bigodes subiria ao poder. Qualquer político alemão deve saber o suficiente de história para nem pensar nos anos vinte do Século XX.

Devido a essa obsessão, os alemães defenderam e defendem a moeda forte sem pensar que a queda do euro em 15% desde Janeiro é favorável às exportações europeias e dificulta as importações oriundas da China e outros países para a zona euro. Para além disso, a Merkel não se preocupa com os seus parceiros europeus, quer um euro forte para que os seus trabalhadores utilizem bens de consumo baratos vindos da China e produzam bens muito caros e altamente especializados, esquecendo-se que 70% das exportações alemãs ficam na Europa.

Os alemães sob a batuta de uma senhora licenciada em física desconhecedora do verdadeiro significado das economias e suas relações globais querem impor a toda a Europa os seus pontos de vista, agravando a situação alemã e europeia em geral.

Aparentemente, a Sra. Merkel acredita nas mentiras que envia para o exterior quanto ao desemprego de 8,7%, pois mais de 4% dos seus trabalhadores trabalham a meio tempo com 40% do seu ordenado pago pelo Fundo de Desemprego. Na verdade, o verdadeiro desemprego alemão é da ordem dos 10,7%, o que é excessivo para um grande país exportador que possui imensas reservas monetárias.

O objectivo da Merkel é o típico das ligações entre a direita democrata cristã e os liberais, ou seja, reduzir custos do trabalho e sociais para tornar os ricos ainda mais ricos.

No seu pacote económico, a física Merkel incluiu algo de muito perigoso e um engano para a população. Assim, autorizou a continuação do funcionamento das velhas centrais nucleares a troco de um imposto especial sobre as respectivas empresas. Os contribuintes julgam que recebem mais, mas não podem contabilizar o perigo acrescido de acidentes em centrais com muitas décadas de existência.

Os desempregados a partir de um certo espaço de tempo deixam de receber do Estado um subsídio de reforma destinado a fazer com que o período de desemprego não prejudique a pensão futura que na Alemanha passa a ser recebida só a partir de 67 anos, excepto em algumas profissões muito desgastantes. Também o tradicional e muito antigo apoio ao pagamento de rendas de casa e aquecimento a pessoas com baixos rendimentos foi cortado tal como o apoio à natalidade e o abono de família e apenas reduzido para pessoas de baixos rendimentos.

Enfim, a pressão anti-social que se apoderou de toda a Europa e leva a Comissão em Bruxelas a forçar a nota e todos os governos europeus a serem mais injustos, pode conduzir a Europa a um desastre e nada fará para debelar a crise global que vivemos, antes pelo contrário, vai acentuá-la.

Os alemães e muitos europeus vão ter, sem dúvida, ocasião para se arrependerem num futuro próximo.

 

 



publicado por DD às 23:38
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