Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Sábado, 1 de Janeiro de 2011
Europa: Em vez de uma Utopia, um Pesadelo

 

 

 

            A Europa, mais precisamente os 27 países da União Europeia, iniciam o ano de 2011 num autêntico regresso ao seu velho e tradicional tribalismo. Todos contra todos e nenhuma solidariedade nem vontade de encontrar soluções, incapazes de atuar e falar como todo devido a dois espinhos encravados na garganta daquilo que devia ser uma União, a senhor Merkel é um deles e a Comissão dirigida por tal Barroso é outro.

            A Merkel quer impor uma ausência de soluções para um problema que até foi ela a grande culpada quando em 2008 propôs a todos os parceiros gastarem o mais possível, fazerem obras, para evitar uma recessão global das economias europeias. A estúpida não pensou que não podia haver uma política keynesiana sem um banco emissor e sem endividamentos.

            De repetente, passado pouco mais de um ano, dá-se um volte face. A Merkel aliada ao Sarkozy quer o contrário quando as máquinas estatais estavam em funcionamento para empregar pessoas e da parte da Comissão não veio nada, nenhuma solução, nenhum esforço para estabelecer uma política económica verdadeiramente comum. Ninguém pensou numa homogeneização dos sistemas fiscais com um único IVA, uma único IRC e IRS com pequenas variações em função dos salários nos diversos países. Também não se quis impor um salário mínimo europeu, o qual poderia ser aumentado num ou noutro país em função dos valores já praticados. Depois não se quis um Banco Central Europeu e emitir moeda e obrigações europeias para conseguir uma redução mais gradual de alguns défices na Zona Euro.

            A União Europeia foi alvo de admiração de todo o Mundo, pela forma como se uniu e como mantém a democracia e todas as liberdades em todo o seu território e população de 502 milhões de pessoas.

            Hoje é alvo de uma certa chacota mundial e toda a gente se vira para a China, uma feroz ditadura simultaneamente comunista e capitalista ou vice-versa, vendo nela apenas o crescimento económico a partir da exploração dos seus trabalhadores.

            Nem Barroso nem nenhum líder europeu foi capaz de propor um mecanismo de proteção das economias mais fragilizadas e até pequenas da periferia europeia. Todos queiram para si os juros mais baixos na colocação de títulos de tesouro nos mercados e apontavam outros como perigosos não pagadores. A União Europeias necessita de colocar 1,6 bilhões de euros nos mercados, sim milhões de milhões, não mil milhões e, aparentemente, não há poupança suficiente. Nem a Merkel nem o Sarkozy queriam e querem ver que estão na mesma situação dos países mais pequenos, mesmo tendo economias mais fortes. Trata-se de muito dinheiro para os fundos e seguradoras ou investidores bancários, mas apenas um pouco mais de 5 euros por cada um dos 330 milhões europeus que utilizam o euro.

            Em termos de política geral e financeira, a Europa não passou ainda de uma idade infantil, mantendo aquele espírito tribal oriundo das tribos germânicas que derrubaram o Império Romano e instalaram-se nas suas várias províncias como reinos ou, mais modernamente, estados nações.

            Com um banco central que não centraliza nada e limita-se a manter uma taxa de juro muito baixa para refinanciamentos a curto prazo, o poder financeiro regressou aos bancos que foram até os grandes culpados da crise e continuam numa onda de exploração de quem neles deposita a pouco mais de 1% e quem quer um empréstimo e chega a pagar mais de 20% de juro anual. O BCE não controla a banca europeia e os antigos bancos centrais perderam todo o poder sobre os agregados monetários em euros. Não se emite moeda, prefere-se a valorização pela baixa de salários e redução de disponibilidades financeiras nas famílias e no Estado. A Europa não tem economistas, o euro chegou de repente sem que alguém tivesse pensado mesmo o que seria. Toda a gente só viu que podia passar de um país para outro sem ter de cambiar de moeda e mais nada. Os Estados comprometeram-se a manter défices abaixo dos 3% e ninguém pensou que podia surgir uma crise. Não se pensou em mecanismo de defesa contra a crise e continua-se a não querer pensar em qualquer coisa do género.

            Uma parte dos países europeus voltou-se em termos económicos para fora da Europa. Sócrates anda pelo mundo fora e já diz que o Brasil é uma prioridade para Portugal. Ele nada espera de uma Alemanha dominadora, governada por uma direita raivosa que odeia tudo o que é social. Portugal tem de se safar sozinho porque não pode  apostar numa Europa a fingir que se limita-se a ser cada vez mais uma união de grandes capitalistas corruptos, a começar pelos alemães, com uma comissão inoperante.

            Curiosamente, a sede daquilo que deveria ser uma União Europeia está num país, a Bélgica, que não consegue resolver o seu pequeno tribalismo local entre flamengos e francófonos num território do tamanho do Alentejo e vive há um ano ou mais sem um verdadeiro governo, além de ter uma dívida soberana gigantesca e défices incomportáveis.

            Neste momento discute-se o número de funcionários do Comissariado para as Relações Externas destinado a ter embaixadas que não representam nada nem ninguém. Nem sequer se procurou um modelo que permita aos pequenos países fecharem numerosas embaixadas e manter um diplomata seu nas embaixadas da União Europeia para tratar de assunto apenas relacionado com o seu país. Portugal poderia poupar bastante dinheiro nisso, mantendo embaixadas apenas em países de interesse especial, sem contudo perder vínculos diplomáticos com todos os países do Mundo, mas a custo muito mais baixo.

            A Europa necessita de um projeto novo de grandeza e solidariedade e não de se arrastar numa espécie de falência forçada que contradiz com as suas capacidades industriais, científicas e intelectuais.

            A Europa começou mal, pensando que bastaria uma união de mercadorias, capitais e circulação de trabalhadores para que o político viesse atrás. Recusou logo no início Forças Armadas Europeias e depois uma própria política europeia. O federalismo mitigado que muitos queriam não avançou e ficou uma espécie de nada.

            A Europa tinha condições para ser uma Utopia, um Sonho para meio bilhão de seres humanos, mas em vez disso está a transformar-se num Pesadelo para quase todos, sem soluções à vista.

           



publicado por DD às 23:16
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
12
13
14
15

16
17
18
19
20

23
24
25
26
27
29

30


posts recentes

Dívida Pública: Acordo BE...

Suicídio da Europa segund...

Marcelo Condecora Soares ...

Comissária Desconhecida q...

Produção de Automóveis

Défice de 2%

IMPOSTOS

Cronologia da PT deturpad...

Schäuble quer Dominar a E...

Euro ou "Bitcoins" Portug...

arquivos

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2004

Maio 2004

tags

todas as tags

links
subscrever feeds