Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2006
A Fragilidade de Portugal perante a Globalização
global_Kister.jpg

No contexto mundial, Portugal não fica muito mal na fotografia, mas com os avanços da globalização acentuam-se cada vez mais os sinais de uma fragilidade económica que está a provocar um declínio sem que se veja qualquer inflexão para uma curva ascendente.

Com um Pib per capita de 14.400 euros (17.100 dólares), Portugal está no penúltimo lugar da antiga EU a 15, mas já não na EU a 25 e, menos ainda, na Europa geográfica e no Mundo global de hoje. Assim, o País está ligeiramente abaixo dos 10% das nações mais ricas do Mundo e solidamente instalado nos mil milhões de habitantes do Planeta que auferem de 80% de rendimento mundial.

Portugal apresenta algumas estatísticas notáveis de carácter económico e social que até permitem cotejar positivamente com as de países mais ricos em termos de Pib.

Os portugueses possuem actualmente 5,4 milhões de unidades habitacionais, sendo mais de 80% de propriedade dos respectivos locatários. As Conservatórias do Registo Predial conservam mais de 17 milhões de matrizes prediais, correspondentes a outras tantas propriedades.

As quase 3 milhões de famílias portuguesas estão endividadas em cerca de 1,2 vezes o seu rendimento anual, mas os activos das famílias ultrapassam 5 vezes o rendimento anual, dos quais 56% são activos financeiros e 44% activos prediais.

Na educação e saúde, as estatísticas não desfiguram a verdadeira imagem de Portugal no contexto europeu e mundial. Com 155 mil professores para 1,6 milhões de alunos no ensino não superior, Portugal conta com quase um professor por cada 10 alunos e 12 mil escolas públicas.

No ensino superior, em Portugal há quase meio milhão de estudantes e percentualmente Portugal tem o dobro dos licenciados e doutorados por milhão de habitante na faixa etária até aos 30 anos de idade que a média europeia.

A Organização Mundial de Saúde considera o estado sanitário da população portuguesa a um nível muito superior ao dos EUA e a esperança de vida aproxima-se velozmente dos mais de 80 anos de idade na média global dos dois sexos.

Portugal tem um bom sistema de reformas, tanto no sector público como no privado, apesar de o valor das pensões ser o mais baixo da Europa. O modelo dos 91% da média dos últimos dez anos (80% mais a taxa de 11% que o trabalhador deixa de pagar) é, sem dúvida o mais avançado da Europa, para não falar no sector público que será semelhante só daqui a dez anos.

Acontece que o valor médio das pensões dos quase três milhões de reformados do regime geral ronda os 300 euros, enquanto os 350 mil do sector público recebem uma média de 1.050 euros por cabeça. A explicação está na ausência de carreiras contributivas máximas no sector privado e na prática de declaração de salários baixos acrescidos com subsídios de refeição e outros que estão isentos da Taxa Social Única e, como tal, não contribuíram para a reforma. É politicamente incorrecto dizê-lo, mas a verdade é que se não tivesse havido décadas de fuga ao fisco, o Estado não teria meios para pagar pensões reais a 3,35 milhões de reformados. Mesmo assim, o peso das transferências correntes do Orçamento de Estado entre Janeiro e Setembro de 2005 na receita total da Segurança Social atingiu os 26%, quando no mesmo período de 2004 foi de 24,9%.

Com mais de 2.000 km de auto-estradas, Portugal ultrapassa largamente a maior parte dos países da Europa em AE por mil quilómetros quadrados e com um parque automóvel de 5 milhões de viaturas está ao nível do parque italiano que é o maior da Europa.

O "milagre do nível de vida português" resulta de vários factores, sendo o primeiro o tamanho da população activa. Os baixos salários portugueses são compensados pelo duplo rendimento do casal, por uma taxa de natalidade baixíssima e o aparecimento tardio do primeiro ou único filho.

As transferências líquidas da UE têm um impacto em termos de recurso externo, mas cifraram-se nos últimos anos numa média de um euro diário por cada português.

Portugal, apesar da fuga ao fisco, é uma nação bem equipada com infraestruturas e com um enorme parque habitacional de carácter social, tendo conseguido em poucos anos substituir quase todos os bairros de barracas por prédios de realojamento, sendo que muitos foram construídos em zonas "nobres" da cidade como nas imediações do Carrefour de Telheiras, na Avenida Maria Helena Vieira da Silva na Quinta do Lambert, na portentosa "Alta de Lisboa", no Paço do Lumiar, no Alto da Faia, isto só para falar da freguesia do Lumiar de que o autor já foi autarca.

Mas, acontece que tudo o que é positivo em Portugal assenta num terreno económico frágil.

A globalização, nomeadamente os tratados da OMC (Organização Mundial do Comércio) com o Uruguai Round, abriram as fronteiras europeias aos produtos de todo o Mundo e, consequentemente, à deslocalização de mais de 150 mil unidades fabris europeias. Com isso, os países da antiga UE-15 ficaram com vinte milhões de desempregados aos quais se acrescentam mais uns potenciais 10 milhões dos novos 10 países membros. O maior dos novos países, a Polónia, tem uma população de 38 milhões de habitantes dos quais 19% trabalham na agricultura, gerando apenas 3,3% do Pib polaco. Pelo menos 3,5 milhões de rurais polacos estão em vias de abandonar os campos e o país conta com 7,3 milhões de desempregados. Nos restantes nove países, a situação não é tão dramática por serem mais pequenos e mais desenvolvidos, em que os investimentos estrangeiros tiveram maior impacto com aconteceu na República Checa e na Eslováquia, Eslovénia e Repúblicas Bálticas.

O custo global da mão-de-obra portuguesa é o mais baixo da antiga UE-15, sendo de 7,21/hora, inferior aos 10,42 da Grécia ou aos 16,59 da Espanha, mas superior aos da maior parte dos novos países membros com excepção do Chipre e da Eslovénia. O problema português não está tanto nos novos países da UE que em breve terão salários iguais ou superiores aos portugueses. O grande diferencial está na relação com a China e com muitos países do Terceiro Mundo.

É certo que a única forma de equilibrar a riqueza no Mundo é transferir uma parte das actividades económicas dos países ditos ricos para os mais pobres e permitir a importação dos seus produtos, incluindo os agrícolas. Acabar com os subsídios da PAC e com os direitos niveladores permitiria a todos os países pobres tornarem-se mais ricos. Mas qual o preço a pagar por Portugal, e não só? O impossível fim de toda a sua actividade produtiva.

Como disse atrás, a ex-UE 15 tem 20 milhões de desempregados, estando cinco milhões na Alemanha e quase quatro milhões em França.

Portanto, o desemprego crescente em Portugal que já entrou na casa dos 7% não tem a ver com atraso tecnológico, pois os donos da Airbus, do CERN, da Agência Espacial Europeia e de tantas empresas de alta tecnologia ainda têm mais desempregados que Portugal. Em todos os países desenvolvidos está a assistir-se a uma desindustrialização acelerada. A maior parte das fábricas multinacionais em Portugal de calçado, confecções, cablagens e outros produtos já fecharam ou estão em vias de o fazer. Portugal nunca será competitivo com a China e, nem mesmo, com certos países como a Roménia que pagam menos de 50 cêntimos do euro à hora. É certo que se diz que Portugal deve abandonar o modelo de mão-de-obra barata para entrar em produções mais sofisticadas e de mais alta tecnologia. É tão fácil dizer isso como difícil é concretizar.

A China com os seus 1,3 mil milhões de habitantes inunda todos os mercados e coloca as suas lojas em quase todas as esquinas. A sua mão-de-obra chega a trabalhar totalmente de graça por via dos "houkous", os passaportes internos que não autorizam a população rural a abandonar as suas aldeias.

Mesmo assim, mais de 100 milhões de chineses já se deslocaram para a costa para trabalharem nas novas fábricas e na construção de cidades gigantescas.

Sem os respectivos "houkous" urbanos são explorados pelos novos capitalistas que os instalam em imundos barracões e não lhes chegam a pagar qualquer salário, além de não terem direito a Segurança Social, liberdade de alugar casa, reformas, etc. A maior parte dos estudantes de direito que organizaram "clínicas de apoio legal aos trabalhadores" foram presos, pelo que os trabalhadores sem "houkou" trabalham praticamente de graça, são escravos, e nas fábricas produzem artigos a preços incrivelmente baixos, incluindo cópias perfeitas dos bem portugueses tapetes de Arraiolos e artesanato de todos os países do Mundo.

Na China já trabalham mais de uma centena de fábricas de automóveis, tanto estrangeiras como nacionais. Recentemente, interesses chineses adquiram as máquinas e modelos da Rover, deslocalizando tudo para a China de onde passarão a fabricar os carros, enquanto a antiga casa-mãe limita-se a ser a distribuidora dos mesmos na Europa e EUA. Outros interesses chineses adquiriram grande parte da IBM e agora a Philips com aquilo que é a tecnologia de ponta europeia em medicina nuclear e electrónica em geral.

Portugal não pode competir com o calçado e confecções chinesas como não poderá competir com as bicicletas, motos, automóveis, computadores, electrodomésticos, etc. chineses. A fragilidade do tecido produtivo português é imensa, tanto o industrial como o agrícola.

O desemprego aumenta dia após dia em toda a Europa e os recentes acontecimentos franceses devem-se à falta de perspectivas para os jovens trabalhadores. Não foram só filhos de emigrantes que incendiaram mais de dez mil carros; foram também jovens franceses de origem. A Europa está num perigoso declive. A União Europeia está ferida de morte pelo desemprego e é falso falar em países ricos. A riqueza europeia é um pouco aumentada com o câmbio favorável do euro, mas é frágil. Calculo que dentro de poucos anos, a Europa dos 27, com a Roménia e a Bulgária a entrarem em 2007, terá mais de 50 milhões de desempregados e, a partir daí, não vejo outra coisa que não seja o fim a União Europeia e a recomposição de uma União mais pequena, limitada à França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo e Áustria, eventualmente transformada numa Federação associada ou não a outros países do euro.

Sem profundas alterações na política mundial de globalização, a grande crise económica que se adivinha, tanto na Europa como nos EUA e os indicadores são muitos, arrastará também toda a Ásia e o resto do mundo para a maior de todas as crises.

 



publicado por DD às 22:51
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Dezembro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


posts recentes

Dieter Dellinger: REESTRU...

Salário Médio dos Portugu...

Putin: O primeiro Czar de...

CADERNOS DE E CONOMIA Nº ...

Dieter Dellinger escreve:...

Dieter Dellinger: Origem ...

Aneuploidia Mutante

Macron quer uma Nova Euro...

O AfD é um partido da con...

Dieter Dellinger: O jorna...

arquivos

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Julho 2005

Junho 2004

Maio 2004

tags

todas as tags

links
subscrever feeds