Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Domingo, 11 de Dezembro de 2016
Arnaldo Matos acerca de Garcia Pereira: Copiado por Dieter Dellinger da Luta Popular

Eram 13h34 de 28 de Julho de 2015 quando Garcia Pereira recebeu um email. Remetente: Arnaldo Matos. O advogado e cabeça-de-lista do MRPP apressou-se a consultar o que o fundador, seu mentor e líder histórico do partido tinha para lhe dizer. Começava assim: "Quando saíste ontem do meu escritório, já pela uma e meia da tarde, pareceu-me ter-te ouvido resmungar entre dentes qualquer coisa como ‘cansaço’ e ‘férias’. O cansaço é legítimo e faz bem à saúde. Porém, se tu e os teus amigos do Comité Central pensam ir de férias antes de constituírem as listas dos 22 círculos eleitorais e de as apresentarem ao País, isso significa ruptura total e definitiva comigo."

O email ameaçador, um de vários trocados entre as duas maiores figuras da história do MRPP (a sigla oficial é maior: PCTP/MRPP, de Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado) a que a SÁBADO teve acesso, prosseguia: "No Comité Central de um partido revolucionário não há lugar a férias; há mas é tarefas políticas a cumprir em nome da classe operária e do povo, nos tempos apropriados." As eleições legislativas estavam próximas e Arnaldo Matos – a maior referência política e intelectual de Garcia Pereira, que lhe prestava uma reverência sem limites – não admitia distracções. Embora não tivesse qualquer cargo no partido, na prática era ele quem exercia o poder total na sombra, como o demonstra o tom utilizado com Garcia Pereira – que, na semana passada, anunciou a saída do partido, em ruptura com Arnaldo Matos –, a quem acusava de pôr as "comodidades reaccionárias pequeno-burguesas à frente dos interesses do Partido", ao planear ir, juntamente com os restantes membros do Comité Central, para férias quando havia trabalho para fazer.

"Não aceito discutir contigo nem com ninguém!"
No que dependesse de Arnaldo Matos, isso não aconteceria. O líder histórico determinou um prazo máximo para a elaboração das listas: 15 de Agosto. Tinham cerca de duas semanas. Seria impossível cumprir o objectivo fixado, a menos que os membros do comité central abdicassem do período de descanso com as suas famílias – o ideal seria, aliás, recrutá-las para a causa revolucionária. "Os membros do Comité Central deveriam saber mobilizar as suas famílias para os ajudarem a cumprir as suas tarefas. Se não conseguirem, então é melhor que mandem as mulheres e os maridos para férias sozinhos e para longe, de modo a não atrapalharem as tarefas eleitorais, que aliás já deveriam estar cumpridas", acrescentou Arnaldo Matos, que terminou de forma categórica: "Não aceito discutir o conteúdo desta carta nem contigo nem com ninguém."

Contrariar "O" camarada – Arnaldo Matos é o único militante do MRPP que é designado desta forma – estava fora de causa para Garcia Pereira. O seu estatuto de quase divindade não dava margem para rebeldias de nenhuma espécie. A solução era, portanto, fazer aquilo a que no partido se chama um exercício de autocrítica, reconhecendo as suas falhas numa primeira fase, para seguidamente mobilizar os camaradas para a realização da tarefa.

Eram exactamente 10h18 do dia seguinte quando os elementos do Comité Central receberam um email proveniente de Garcia Pereira. Começava assim: "Na sequência da muito justa e firme crítica que (…) foi dirigida pelo camarada Arnaldo Matos aos membros do Comité Central e em especial a mim próprio sobre a tarefa político-eleitoral das legislativas e os nossos erros, em particular os meus, foi decidido pelo Comité Permanente…" Seguia-se o anúncio das deliberações – e todas iam ao encontro das ordens de Arnaldo Matos. Garcia Pereira demonstrava assim que aprendera a lição do "Grande Educador da Classe Operária": "É absoluta e mesmo criminosamente inadmissível a pasmaceira e indiferença com que os responsáveis das listas, em particular os das mais atrasadas, estão a encarar o assunto, fingindo não perceber que o seu dever mais básico é marcharem, imediatamente e custe o que custar, para o terreno, levando consigo a propaganda do partido (…) e com ela contactando com as massas e conquistando candidatos da zona e dos sectores mais avançados para a nossa candidatura, em vez de se porem a carpir e a lamuriar sobre as suas próprias incapacidades pequeno-burguesas!"

Foi por isso sem lamúrias especiais que as listas foram feitas dentro da data prevista. Com meios modestos, o partido partiu para a rua em campanha. Apesar do parco orçamento, o MRPP acabou por ter grande visibilidade, embora não pelos melhores motivos. Um cartaz radical em que surgia a cara de Garcia Pereira acompanhada pelo slogan"Morte aos Traidores" provocou uma onda de indignação geral que obrigou à sua retirada. Não foi um processo pacífico. A frase, muito utilizada na comunicação interna do MRPP, terá sido imposta por Arnaldo Matos e adoptada com reservas pelo Comité Central. Mas, como sempre acontecia, ninguém se atreveu a questionar a vontade d’O camarada – também conhecido dentro do partido pelos pseudónimos João, Viriato ou Espártaco.

A reunião que não chegou a acontecer
Na noite de 4 de Outubro, o ambiente na sede de campanha do MRPP era de desolação. O partido não só não tinha eleito um deputado – o objectivo mais ambicioso – como perdera cerca de três mil votos face às eleições de 2011, em que obtivera 62.683. "Foi uma derrota, mas não foi uma hecatombe", diz à SÁBADO um militante que se empenhou fortemente na campanha.

O Comité Permanente marcou no próprio dia das eleições uma reunião para as 21h do dia 6. Objectivo: reflectir sobre o que correra mal. Eram 19h50 quando Domingos Bulhão, membro do Comité Central, da Comissão Permanente e director e mandatário financeiro da campanha, recebeu um SMS de Carlos Paisana, também ele membro do Comité e da Comissão e director do Luta Popular, o jornal do partido.

"Dás-me boleia?"

Domingos Bulhão respondeu sem demora. "Boleia para onde? A reunião foi cancelada."

Carlos Paisana ainda não sabia, mas estava oficialmente suspenso de funções desde o início daquela tarde. Furioso com os resultados, Arnaldo Matos – aliás, Viriato – assinara um texto inflamado no Luta Popular em que fazia uma avaliação calamitosa da performance dos principais dirigentes do MRPP na campanha. "Se o Partido não alcançou nenhum dos objectivos políticos imediatos ao seu alcance, tal fica unicamente a dever-se à incompetência, oportunismo e anticomunismo primário do secretário-geral do Partido e dos quatro membros do Comité Permanente do Comité Central, que tudo fizeram para sabotar a aplicação do comunismo", denunciava Viriato, que acrescentava as punições decididas: a suspensão do secretário-geral, dos membros do Comité Permanente e a destituição de toda a redacção do Luta Popular. Mais: os cinco membros do Comité Permanente estavam intimados a apresentar, no prazo máximo de oito dias, a sua autocrítica sobre os "erros cometidos na direcção do partido". Havia, sublinhou, que afastar do MRPP "os social-revisionistas, social-fascistas e demais oportunistas que tomaram conta das nossas fileiras". A purga interna estava em curso.

Afastamentos ilegais
Os membros do Comité Permanente oscilaram entre o pânico e a indignação. Na sua maioria militavam no partido há dezenas de anos. Alguns tinham estado presos. Achavam que não mereciam aquele tratamento. Mais do que isso: todos concordavam que Arnaldo Matos não possuía autoridade formal para tomar decisões daquele cariz. "Ele não exercia qualquer tipo de função partidária, não era membro de nenhum órgão. Aquilo era tudo ilegal", afirma Domingos Bulhão – nome de código Jaime – à SÁBADO. Num gesto de inédita rebeldia, o Comité Permanente acabou mesmo por reunir à revelia da vontade expressa por Viriato. Mas a aparente insurreição foi fogo-fátuo. Já sentados à mesa, as hesitações entre os revoltosos começaram a surgir. O primeiro a baquear foi Luís Franco – também conhecido por Conceição –, o secretário-geral.

"– Nós não devíamos estar aqui porque estamos demitidos..."

Domingos Bulhão reagiu.

"– Demitidos por quem? Quem elege ou demite militantes no partido não é o camarada Espártaco!"

Luís Franco estava em pânico.

"– Se ‘O’ camarada sabe que estamos aqui pode pensar que é uma traição. Recuso-me a dirigir a reunião."

Domingos insistiu. "– Há coisas importantes a tratar, não podemos deixar de reunir."

 

Olhou para Garcia Pereira em busca de apoio. Nada. Também o advogado considerou tratar-se de uma trai- ção a Arnaldo Matos. Regressaram a casa – tinham de começar a pensar nos seus textos de autocrítica, que acabaram mesmo por escrever.

Há vários meses que havia sinais de que Arnaldo Matos tinha um problema com Garcia Pereira. Fontes do partido garantem que o líder histórico, hoje com 76 anos, nunca conviveu bem com a exposição pública do seu pupilo, a quem chamava "papagaio" e a quem criticava a ambição de conquistar um lugar no parlamento. A tensão era visível em detalhes tão milimétricos como... a luta dos pescadores da sardinha.

No dia 23 de Agosto – em plena campanha pré-eleitoral – Arnaldo Matos pediu à sua secretária para passar para formato de email um texto que acabara de escrever manualmente e para, de seguida, o remeter a Garcia Pereira. Tratava-se de um violento raspanete por alegadamente o seu afilhado de casamento se ter "apropriado" de uma causa que era sua. Garcia Pereira escrevera um artigo no Luta Popular criticando o Governo por não apoiar a pesca da sardinha – isto sem ter tido em conta que o próprio Arnaldo Matos já dissertara sobre o tema no dia 9 de Janeiro de 2015, através de um "artigo político panfletário", como o próprio o designou, intitulado "Pescadores sem sardinha e sem salários".

Na cabeça de Arnaldo Matos era impensável qualquer camarada voltar a emitir opinião sobre um assunto já reflectido por si – alegadamente, estaria tudo dito. "Para o Comité Central, para ti e para a redacção do jornal a luta política dos pescadores da sardinha morreu definitivamente em meados de Janeiro de 2015. Ora bem: tendo tu as responsabilidades que tens no Partido e no jornal, acho que é preciso teres uma grande lata para vires escrever e publicar o artigo que hoje publicas."

A indignação prosseguia uns parágrafos mais abaixo: "Quando é que aprendes a ler os artigos que vou publicando no jornal? Quando é que te decides a olhar para os operários, para os trabalhadores, para os pescadores, para o povo, para os pobres e compreendes que eles querem lutar?" E concluía: "O teu artigo sobre os pescadores da sardinha pode enganar muita gente mas – tira daí o sentido – não me engana a mim."

Filha de Garcia Pereira entra em cena
Uma vez mais, Garcia Pereira aceitou o "raspanete" do mentor. No mesmo dia, reencaminhou-o aos membros do Comité Permanente. E acompanhou-o do seguinte comentário: "Camaradas, esta é a justa crítica que o camarada Arnaldo Matos me dirigiu sobre a pesca da sardinha, que referi no meu SMS e para a qual peço a vossa atenção e vigilância! Tenho que conseguir reflectir seriamente em todas as minhas tarefas e responsabilidades!" Visto publicamente como alguém com forte personalidade, na sua relação com Arnaldo Matos o advogado – que, à imagem do que sucedeu com o líder histórico do MRPP, recusou falar com a SÁBADO – nunca foi capaz de abandonar uma postura de alguma submissão.

Antes de fazer intervenções públicas importantes ia ao seu escritório situado na Avenida Elias Garcia, em Lisboa, aconselhar-se com ele. Escutava-o a propósito das suas aparições regulares num programa da Económico TV. Consultava-o sobre a estratégia para debates. Convidava-o para convívios familiares. Chegou a levar-lhe jornais e cigarros a casa durante o fim-de-semana.

A filha de Garcia Pereira numa carta aberta publicada na sua página no Facebook, já depois da decisão de afastamento tomada por Arnaldo Matos e da guerra dialéctica que entretanto se instalou num partido dividido em dois, Rita Garcia Pereira foi impiedosa para o fundador do MRPP, recordando episódios que revelam facetas desconhecidas do homem que, quando ela era criança, a tratava por "filhota". "Tu, que te arvoras num grande exemplo, aliás no único exemplo, és aquele que, em pleno restaurante do aeroporto da Madeira, te recusaste a aceitar um guardanapo de papel e gritaste ao empregado: ‘Isso nem me serve para limpar o cu.’ Grande Educador, Arnaldo, Grande protector da classe operária", escreveu. A advogada e professora universitária recorda ainda os tempos em que o pai o visitava enquanto ela, ainda criança, esperava no carro que ele regressasse para irem buscar os irmãos.

Revoltada com a humilhação em curso, Rita Garcia Pereira é implacável: "A única coisa boa que a tua espiral de loucura teve foi que vou deixar de ter de tolerar a tua constante má-criação (...) essa mesma que diriges àqueles que supostamente queres defender. Não tenho de tolerar mais os ‘filhos da puta’, os ‘cabrões’ e outros que tais que diriges às pessoas que te servem."

Em entrevista à SÁBADO, Sandra Raimundo, ex-secretária pessoal de Arnaldo Matos, confirmou a postura "ditatorial" e a retórica violenta do antigo patrão. Quando foi designada para secretariar Arnaldo Matos, Sandra resistiu. Era membro da Comissão de Imprensa do partido e não desejava sair. Acabou obrigada a fazê-lo e a sua vida, afirma, "transformou-se num inferno". Proibida de falar com os membros do MRPP, foi obrigada a trabalhar 12 horas por dia. Entrava às 7h30 porque às 8h, quando pontualmente chegava Arnaldo Matos, tinha de ter o café preparado. Recentemente, publicou uma carta num blogue em que acusa "O" camarada de tentativas de agressão a militantes e de levar um estilo de vida faustoso à custa do partido, que passará pela frequência de hotéis e restaurantes de luxo, bem como pela utilização de carros de alta cilindrada pagos pelo MRPP à custa da subvenção estatal que é a sua única fonte de rendimento actual.

Em entrevista à SÁBADO, Carlos Arsénio – nome de código Alberto – confirmou os gostos extravagantes d’"O" camarada. Membro do partido desde a clandestinidade – chegou a estar preso em 1975 –, ao longo dos anos fez tudo o que havia para fazer: colou cartazes pela noite dentro, pertenceu a todos os órgãos e, mais recentemente, foi-lhe atribuída pelo Comité Permanente a tarefa de servir de motorista a Arnaldo Matos. Apesar da sua história no partido aceitou humildemente. "Encarei-a como mais uma forma de servir", afirma. Durante os três meses em que diariamente se relacionou com Arnaldo Matos, Carlos Arsénio ficou indignado com alguns comportamentos e opções d’"O" camarada. "Nas suas deslocações pelo País, nunca aceitava ir num carro qualquer. Exigia sempre um Mercedes. Se o partido lhe arranjasse menos do que isso já dava direito a discussão", afirma. Domingos Bulhão, também ele militante há mais de 40 anos, também serviu voluntariamente Arnaldo Matos como motorista. Vendedor de profissão, acordava todos os dias às 6h30 para conseguir atravessar a ponte 25 de Abril – habita na Margem Sul do Tejo – para antes das 8h da manhã estar à porta da casa de Arnaldo Matos, na Avenida 5 de Outubro, para fazer uma viagem de dois minutos até ao seu escritório. Depois disso voltava a atravessar a ponte em sentido contrário – tinha de ir trabalhar. Tudo isto voluntariamente.

Quando, na sequência de uma discussão por causa de um atraso, Carlos Arsénio foi afastado por Arnaldo Matos das suas funções, soou-lhe a déjà vu. É que fora o mesmo Arnaldo que decidira, em 2014, a sua saída do Comité Central por este se recusar a integrar a redacção do Luta Popular. "Um comunista não recusa uma tarefa revolucionária", terá dito então. Nessa altura Carlos Arsénio já não era especialmente popular junto d’"O" camarada por em 2013 ter sido o único membro do Comité Central que apresentou "informalmente" reservas ao afastamento compulsivo de Orlando Alves, na altura director do Luta Popular e membro do Comité Central.

 

"O Orlando Alves foi afectado por um cancro e, sentindo-se diminuído, alegou falta de condições de saúde para continuar em funções. Mas ‘O’ camarada não aceitou. Disse que a doença não é motivo para fugir às responsabilidades revolucionárias, propondo o seu afastamento compulsivo, o que achei uma injustiça tremenda", diz à SÁBADO. Nessa altura, Carlos Arsénio foi criticado pela generalidade dos seus camaradas, incluindo Garcia Pereira: "Disse-me que estava a pôr a amizade pessoal acima dos interesses políticos do partido." Orlando Alves viria a morrer na sequência da doença.

 

Nome de Arnaldo em sites de prostituição
Uma das regras no MRPP é nunca colocar o indivíduo acima do colectivo. Vários militantes com quem a SÁBADO falou admitiram que viram as suas vidas pessoais destruídas pelas ausências constantes ao longo de anos. No partido, festas de anos, aniversários de casamento ou outro tipo de convívios ditos "pequeno-burgueses" não são razão para abandonar as tarefas revolucionárias. Também por isso, uma fatia da guerra dialéctica que a purga em curso gerou está a ser alimentada, sobretudo nas redes sociais, pelas famílias e amigos dos militantes. Nos últimos dias o conflito radicalizou-se, com insultos de parte a parte.

Os textos publicados no Luta Popular são crescentemente insultuosos para os próximos de Garcia Pereira, que foram acusados de, entre outras coisas, terem colocado o nome de Arnaldo Matos em sites de prostituição e pornografia – uma imputação totalmente refutada pelos visados. Ninguém sabe como terminará o conflito – embora todos os intervenientes garantam que não acabará bem para ninguém. No Facebook, Rita Garcia Pereira, uma das insultadas, fez um ponto de situação. Dirigindo-se a Arnaldo Matos, escreveu: "O tempo dirá quem tinha razão e se os fins que dizes ter (bem diversos, note-se, dos que acho que são os teus) justificaram os meios ínvios a que recorreste. Só espero que vivamos o suficiente para seres confrontado com os resultados. Porque eu cá estarei à tua espera." 


Entrevista a Sandra Raimundo: "Arnaldo tentou fazer-me uma lavagem cerebral"

Durante quanto tempo trabalhou como secretária de Arnaldo Matos?
Cerca de três semanas. Eu tinha feito voluntariado no partido e depois trabalhei na comissão de imprensa. A dada altura fui designada para secretariar o Arnaldo Matos. Inicialmente resisti, mas disseram-me que não tinha possibilidade de escolha.

Porque é que deixou de o fazer?

Não aguentava mais. Era uma tortura trabalhar com ele. Não podia falar ou emitir opinião sobre nada.

Quais eram as regras?

Logo no primeiro dia disse-me que a partir daquele instante eu estava proibida de falar com membros do partido. Deixei de ter contacto com os camaradas. Com ele só estava autorizada a falar o estritamente necessário para o trabalho. Disse-me logo que tinha de o tratar por "senhor doutor. No dia-a-dia, vivia num ambiente de terror. Foi como se Arnaldo Matos tivesse tentado fazer-me uma lavagem cerebral, como se me tivesse tentado impor uma nova vida. Estava 12 horas por dia fechada num cubículo, praticamente sem falar.

 

Como era o seu dia?
O escritório não tem movimento porque o Arnaldo Matos não tem clientes. O telefone nunca toca. Eu tinha de chegar pelas 7h30 porque se, pelas 8h, quando ele chegava, não tivesse o café pronto ele explodia de fúria. Não tinha hora de saída.

Que outras tarefas lhe estavam atribuídas?

Basicamente batia num computador os textos que ele escrevia manualmente. Ele não percebe nada de informática. Muitas vezes não percebia a caligrafia dele e pedia-lhe para me ditar os textos. Ele ficava furioso.

O que pensou quando leu o texto publicado no Luta Popular, em que foi acusada de só ter emprego no MRPP por ser sobrinha de um alto dirigente?
Que era uma injustiça muito grande. O meu tio [Domingos Bulhão] nada teve a ver com a minha colocação.

 

 

 

 

 



publicado por DD às 18:57
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