Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013
Como Chegar a Papa

 

 

É evidente que para chegar a Papa é preciso fazer uma carreira de sucesso na Igreja Católica e chegar a Arcebispo/Bispo e Cardeal muito antes de completar os 75 anos de idade.

 

Mas, como se chega a bispo na Igreja? Eis a questão crucial.

 

Primeiro há que fazer com boas notas os estudos no seminário e ser ordenado padre. Mas isso não chega e não há na Igreja nenhum sistema de promoções por antiguidade ou mérito. Todos os cargos são de nomeação e os mais altos por coopetação.

 

A regra fundamental é fingir que não se ambiciona mais que ser um simples clérigo de aldeia pobre e pretende-se estar ao serviço dos pobrezinhos, coitadinhos. Mas, no entretanto, encostar-se a um bispo influente, ajudá-lo e até transportar-lhe a pasta e, se necessário, engraxar-lhe os sapatos. Só assim, o jovem padre consegue entrar no curso fundamental para subir na Igreja; teologia na Universidade da Santa Cruz em Roma, pertencente à Opus Dei. Para isso há que ser conservador e o mais possível de direita. Nada de falar em sociedades justas ou defender a democracia, salvo se receber ordem do Bispo para dizer qualquer coisa no género. Também ajuda ter uma “paixão” pelas missas antigas em latim. Isso de pôr jovens a tocar guitarra e cantar modernices não ajuda nada.

 

Para impressionar o bispo e muita mais se for para Roma, usar sempre o “cabeção”, aquele colarinho duro usado pelos sacerdotes mais conservadores.

 

Para conseguir ir para Roma não é propriamente necessário fazer-se membro da Opus Dei que, no fundo, é para os leigos, mas é imprescindível estar disposto a servir a organização, rezando missas e ouvindo confissões e até saber explanar a doutrina da fé de uma forma convincente nas reuniões privadas. Ter sido diretor espiritual na Opus pode ajudar, mas há o perigo de o quererem conservar. Ser prestável e humilde e dizer sempre que está ali provisoriamente porque lhe pediram, dado que numa paróquia pobre ou numa missão em África é que gostaria de estar.

Conseguida a almejada nomeação como estudante da Universidade da Santa Cruz em Roma há que estudar com afinco e ter muito cuidado com as vestes. Antes e depois mostrar-se inimigo dos homossexuais e do casamento entre eles, combater o aborto e todas as práticas pecaminosas. Mais do que saber a Bíblia que deixou de ser muito importante para a Igreja é preciso conhecer o catecismo do último Papa, as suas encíclicas e a parte mais direitista da doutrina atual. 

 

Na Opus Dei há que conhecer os leigos acima e abaixo da cintura, isto no sentido espiritual do termo. Dar algumas dicas ouvidas na confissão, mas nunca de uma forma clara, só impressões e nunca satisfazer toda a curiosidade de quem quer saber mais. Isso coloca-o numa posição de superioridade e não o torna indispensável nem dependente da organização. Saber que a Opus Dei pode ajudar sim, mas que se trata de uma organização perigosa, mesmo para um sacerdote. Falar indiretamente com alusões ao Espírito Santo e deixar o exemplo de Jesus Cristo um pouco de lado, sem pronunciar o nome de Deus. Dizer aquilo que na organização ninguém sabe, mas na neblina das meias verdades e meias mentiras..

 

Acabados os estudos há que criar amizade com alguém importante no Vaticano; de preferência um secretário do Estado papal. Mas, sempre com humildade e nunca candidatar-se a qualquer cargo. Nunca esquecer de falar na aldeia de granito de Trás-os-Montes ou da Beira Alta, mesmo que a conheça só dos livros de Ferreira de Castro ou Miguel Torga, mas não mostrar que lê essas obras nada populares na hierarquia eclesiástica.

 

Se vier para Portugal, o futuro arcebispo deverá tentar servir um bispo ou o cardeal patriarca para ver se consegue chegar a bispo auxiliar. Aí há que mostrar que se sabe guardar segredos e só dizer aquilo que o bispo quer ouvir. Tornar-se indispensável para não se ser desterrado para a paróquia da aldeia de onde ninguém o vai chamar, apesar de mostrar vontade de ir para lá.

 

A indispensabilidade, o professorado num Seminário, a escrita em papéis da Diocese ajudam muito e, nada como, humildemente deixar-se nomear bispo auxiliar. Nessa condição manter boas relações com a Nunciatura, o que significa entregar uns bons dinheiros para o Vaticano.

 

Também não esquecer de ir muito ao Vaticano, aproveitando todas as ocasiões e manter relações com os cardeais mais importantes porque é daí que vem a nomeação para bispo e arcebispo e, por fim, cardeal se tiver muita habilidade e sorte.

 

Falar espanhol, italiano, inglês, alemão e polaco ou checo são uma ajuda importante. Há sempre gente no Vaticano para falar em qualquer língua estrangeira, mas aprender chinês ou japonês é uma tarefa quase impossível.

O melhor é tornar-se membro da Cúria Romana, mas não é indispensável. Por vezes são eleitos Papas que não foram membros da Cúria. Uma vez arcebispo cardeal sem mácula há que esperar que o seu Continente ou País seja escolhido e mostrar muitas ideias convincentes no Conclave. Se verificar que a geografia não ajuda, deverá votar no candidato mais velho e que quase se arrasta para mover-se. Será alguém que morre mais depressa e permitira que o humilde candidato volte a ter possibilidades, sempre “desgostoso” de não ser um pároco da aldeia mais pobre do seu País.

 

Perguntar-me-ão: e as mulheres? O que podem fazer para subir na Igreja salvo ser abadessa de um convento e viver toda a vida quase enclausurada.

 

A mulher tem possibilidades. Mas só saindo da Igreja para dar à luz outras mulheres para que daqui a mil anos haja uma Papisa.

 

 

 



publicado por DD às 19:44
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