Jornal Socialista, Democrático e Independente dirigido por Dieter Dellinger, Diogo Sotto Maior e outros colaboradores.
Quinta-feira, 30 de Julho de 2015
Varoufakis à Revista Alemã "Der Spiegel"

 

O Eurogrupo reúne com grande frequência, com ou sem crise, mantendo o princípio do secretismo de tudo o que se diz e tratam os responsáveis pelas finanças de 19 países europeus do euro mais a Lagarde do FMI, o Draghi do BCE e o holandês Dijsselbloem da Comissão Europeia.

O secretismo é estranho porque aí são tratados assuntos da máxima importância para a vida de mais de 310 milhões de cidadãos que utilizam o euro e 200 milhões da União que têm moeda nacional e os ministros das Finanças fazem parte de governos democráticos.

Numa recente conversa-entrevista de Yaris Varoufakis à revista alemã “Der Spiegel” no papel, o ex-ministro grego das Finanças relatou um pouco como se passam as coisas nesse grémio quando reuniu em Riga.

Nas reuniões do Eurogrupo a que Varoufakis participou, o holandês de nome impronunciável abre a sessão e dá oito minutos a cada um dos 21 presentes para falarem depois de dizer umas coisas. São pois três horas em que, segundo Varoufakis, quase todos leem algumas páginas de papel, sendo que ao fim do terceiro discurso alguns bocejam já, outros inclinam ligeiramente a cabeça a dormitarem. O grego disse ao “Der Spiegel” se ele, em vez de propor soluções para o problema grego, cantasse o hino nacional sueco, ninguém daria por isso. Tudo ali no Eurogrupo está orientado para o que diz o alemão Wolfgang Schäuble e todos dizem aquilo que o germânico quer ouvir, mas alguns ultrapassam-no em muitos aspetos o pensamento do próprio homem da cadeira de rodas e isso não é do seu agrado. Parece que ele exige unanimidade, mas nada de exageros , na sua cara parece ler-se o pensamento de Schäuble a dizer “o que é que este gajo quer da minha pessoa ou deixe de me lamber as minhas botas”. Varoufakis nunca se refere a mulheres no Eurogrupo porque, talvez, a Maria Luís seja a única ou porque tem uma loira melhor em casa.

Schäuble quando entra na sala com a sua cadeira de rodas a grande velocidade costuma voltar-se para todos e dizer bem alto: “olá rapazes, eu estou aqui” e nunca disse olá rapariga para a portuguesa. Ele entra quase em último lugar para não ter de cumprimentar os colegas um a um, assim entra como a estrela da companhia.

O principal de qualquer sessão são os oito minutos de Schäuble e em todos há sempre as mesmas palavras como “a minha criação”, “a minha melodia” “a minha orquestração” com a cabeça sempre em movimento. Aparentemente Schäuble sente-se como o chefe de orquestra de ministros das Finanças da zona euro e, talvez, mais.

Todos estão de acordo com Schäuble. Numa das últimas reuniões o ministro francês Michel Sapin atreveu-se a ter uma opinião própria e falou nas relações assimétricas entre o seu país e a Alemanha, mas para tal utilizou uma série de floreados linguísticos para dar uma sensação de bem estar, apesar de tudo. Schäuble ouviu e levantou a sua mão esquerda como que a bater na mão direita de Sapin, castigando-o assim pelo seu atrevimento, disse Varoufakis.

Logo após as eleições, na primeira reunião do Eurogrupo, Michel Sapin atreveu-se a dizer que “há agora uma nova situação, não podemos continuar como até agora, temos de arranjar um compromisso com a Grécia.

Schaeuble respondeu, “as eleições não mudam nada. Se após cada eleição as condições mudassem não chegaríamos a nada”. O francês recolheu-se na sua cadeira sem nada dizer.

Varoufakis não disse quais as reações de Schäuble às suas propostas, provavelmente para não perturbar o trabalho do governo grego, mas disse que logo após ser empossado ministro foi a Berlim falar com Schäuble e este nem lhe estendeu a mão e disse “vamos diretos ao assunto que o traz aqui”, correndo com a sua cadeira de rodas para o seu gabinete.

Varoufakis disse noutro ponto da conversa que é socialista e que só um socialista pode ser democrata, salientando que cometeu erros, principalmente ao dar a entender aos gregos que poderia reestruturar a dívida grega sem o peso de uma política extrema de austeridade e que seria possível fazer uma política com outros objetivos.

Ainda acrescentou que depositou algumas esperanças na Merkel, pensando que “ela seria a cavalaria que iria libertar os gregos dos índios de Schäuble, mas verificou que Merkel tinha como objetivo levar o Syriza a sair do governo, enquanto Schäuble prefere a saída da Grécia do euro”.

Varoufakis disse ainda que para as esquerdas, os alemães adquiriram a reputação de serem parte de um neocolonialismo imperial que quer construir uma Europa de acordo com os seus desejos e sonhos, acrescentando que o filósofo francês Guilles Deleuze lhe citou uma frase de Slavoj Zilek relativamente ao sonho europeu da Merkel: “se te deixares prender no sonho de outro, então estás perdido”.

Mas, referindo-se a todas as personalidades que conheceu, aquela que mais detestou nem foi a Lagarde, o Schäuble ou o Juncker, mas antes Sigmar Gabriel, o ministro SPD da economia no governo alemão e vice-chanceler, dizendo: “é um velho problema das esquerdas, dividirem-se e arranharem-se todas, principalmente quando estão no poder e pretendem afastarem-se na qualidade de esquerda pragmática das utopias. Assim é Gabriel como é o presidente Hollande e primeiro ministro italiano Renzi. Todos seguem a Merkel, enojando as suas hostes, e Tsipras já começa a seguir o mesmo caminho.

Claro que Varoufakis confessou também ter pecado dessa maneira e não ter procurado expropriar as fortunas das 200 famílias mais ricas da Grécia quando até a senhora Lagarde do FMI lhe mandou a lista desses oligarcas com a indicação dos milhares de milhões que colocaram no estrangeiro e onde estão.

O redator da revista “Der Spiegel” acaba o artigo com a seguinte frase: “Por mais interessante que seja o que conta sobre a crise da Europa, ele nada conseguiu, também é um político falhado.

Nota: Pessoalmente e fora do artigo, eu acredito que se o Syriza tivesse tido a coragem de confiscar e nacionalizar todas as fortunas e grandes empresas da Grécia com o “propósito aparente” de pagar a dívida, Schäuble e Merkel já não seriam os mesmos.

 

 

 

 



publicado por DD às 00:56
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